
Gostei tanto de ti, principezinho. Ainda perco tempo à procura de conversas que possamos ter, mas geralmente esqueço-me delas. Agora acontece, não me perguntes porquê. Pus um ponto final na "nossa história", que nunca o foi. Hoje estava a ver "O Diário de Bridget Jones" e os amigos dela perguntam-lhe "Ele alguma vez te enfiou a língua na garganta?", talvez seja essa a pergunta. Sem línguas na garganta, sem romantismos ridículos, sem eu a querer ir embora e tu a querer ficar, com a obrigação inconsciente de estarmos juntos, não houve nada. Houve a música que escolhi para nós, e que o soubeste - és demasiado perspicaz para não o teres entendido. Houveste tu a por-te mesmo à minha frente quando eles iam começar a tocá-la. "More than your lover I'm your friend". Quando a oiço, ainda é como se te amasse. Ainda é como se olhasse para trás e nos visse: tu tão distante, tão ilusóriamente afastado de tudo e todos, e eu a ver-te de ângulos inéditos, nos quais mais ninguém te via. Agora sei que, se eras distante para mim, era-lo para todos também. Sei-o agora, mas não me reconforta. Qual é o teu problema com perguntas banais como "Como é que te correu o dia?" Quando entramos os dois naquele carro para vir embora, não espreito pelo retrovisor para tentar ver-te. Acho que, sobretudo, costumava tentar descobrir se também me querias ver pelo retrovisor. Depois, cansei-me de me decepcionar. Estavas fechado nos teus pensamentos e era o meu olhar que puxava o teu - apanhavas-me sempre - não eu. O teu cheiro invade o carro. O teu rostinho pálido, meu querido, no final de um dia cansativo depois de uma noite em que dormiste mal. As tuas mãos ásperas, pouco maiores do que as minhas. A tua postura, o teu sorriso, raro, cada vez mais raro. As tuas gargalhadas cínicas, quando algo te desagrada, as tuas gargalhadas sinceras, que nunca o soam. Como ficas bonito, quando discutimos os dois. Se fosse há algum tempo atrás, seria feliz só de discutirmos política, ideais, moralidade, línguas, com pessoas ao nosso redor a taparem a boca enquanto riem para não repararmos. Como pareceríamos nós aos olhares dessas mesmas pessoas, se eu o quisesse saber, se eu ainda te amasse? Dois tolos a discutirem, sem darem o braço a torcer, a rir por entre a seriedade dos argumentos, a virar a cara a cada vez que o riso é demasiado evidente e a retomar a disputa, com as sobrancelhas franzidas, para depois desviar o rosto, cruzar os braços, rirmos sozinhos, sem que o outro o veja e sem nos apercebermos que há muitos outros a ver-nos, sem tão pouco compreendermos que, sobre a irritação de termos colocado as nossas crenças na mesa, estamos a sorrir. Como gostei de ti, principezinho, tu que não gostas de chocolate. Como é possível? Não te amo, porque prometi não fazê-lo. Mas é o mesmo que prometer nunca mais sorrir: o riso vem quando menos o espero, e é-me tão natural quanto respirar.