13 dezembro, 2009

Recanto perfeito

P,

Quero fugir desta realidade de tigelas sujas ao final da noite e lenços amachucados ao meu redor e ao redor do computador, que é onde me mantenho o dia inteiro. Quero fugir a garrafas de água na mesa de cabeceira e livros empilhados. Ando a imaginar-nos um momento perfeito.

Por essa altura, estarei no Algarve, não muito longe de ti. Pedi à V. que me levasse até ti, e sei que ela era capaz disso. Assim sendo, andarei às voltas numa casa com um número de pessoas indefinido ainda. Mas pode ser que, ao invés, termine perto da Serra da Estrela e nada disso se concretize. Se andar às voltas nessa casa, posso amanhecer radiante e vasculhar na mala à procura do que vestir. Provavelmente, ainda não terei decidido. Posso vestir o pull over vermelho com renas brancas que ando a perseguir. Ou posso ir com uma camisola de algodão cinzenta e uma camisa vermelha por cima, larga, com riscas azuis a formarem quadrados e as mangas dobradas até ao cotovelo. Posso ir de botas e camisola de gola alta cor-de-rosa, brincos de pérola, cabelo solto com badolete. Ou posso ir de ténis casuais e a tal camisola de lã ou a camisa vermelha. Posso ser uma princesa, ou a mulher solta e avulsa que sou. O que importa, é que quando entrasse naquele carro, ia ouvir Coldplay a cada um dos 60km até ti. Ia ouvir as músicas que ouvi nesses verões passados, quando me sentava no último degrau de escadas a admirar o cosmos, ou quando via a ponta laranja do teu cigarro a mover-se quase imperceptivelmente perto da tua casa. Ia ouvir a Trouble, a The Scientist, a In My Place e todas as outras que nos fizeram jus, a seu tempo. Ia apertar as mãos no colo, possivelmente geladas, possivelmente suadas, enquanto os quilómetros fossem diminuindo e os medos atirando-se, como farpas, para o nosso caminho: «E se ele não estiver lá? E se está noutro lugar? E se foi trabalhar? E se estiver a dormir? E se estiver no campo, no momento exacto em que o for visitar? E se, depois, a mãe esconder que apareci?». Seriam tantos os receios, que seria pouco provável encontrar-te. O caminho, desconfio, seria sempre a subir e estaria sempre nublado. Passaríamos a barragem de Odeleite e, por esta altura, estaria lívida, com o estômago às voltas e o olhar incapaz de se pousar num só ponto, ou completamente fixo no nada.

Depois, começa a tal cena bonita. Na recta final, naquela subida que é como rampa para um pedacinho de céu, o sol espreitava por entre as colinas. Ia estar calada, gelada, a perguntar-me se estaria doida. A V., a meu lado, estaria silenciosa. Coldplay soaria perfeito, como sempre soou naquela paisagem. Nesse momento específico em que vemos a tabuleta «Tenência», começaria a tocar a The Scientist. Ia dizer à V. que a casa era aquela, logo a primeira, e o quintal aquele, logo o primeiro à direita. Ia dizer-lhe «podes parar aqui», logo no largo e, imagino, o teu carro estaria também logo alí, o mesmo carro cinzento, ao alcance da minha vista. Se o universo fosse generoso, o velho Renault de ir ao campo também estaria estacionado no largo, no lugar de sempre junto ao forno colectivo. Ia descer do carro a passos trôpegos, e faria tanto frio que ninguém sairia de casa para ver o forasteiro que chegara à aldeia num dia tão impensado. Ia olhar demoradamente para a fachada da tua casa, para o teu pátio, para o movimento ao seu redor e ia tentar inalar o cheiro a café no ar. O meu plano seria, mesmo que os teus pais tivessem o café fechado, bater à porta da tua mãe. A conversa seria banal, se sucedesse o milagre de ela abrir «Dona L., olá, olha estava aqui por perto, a minha amiga está de carro. Tenho tantas saudades que decidi aparecer». Se tudo corresse bem, não ia ver nos olhos dela a pergunta «Mas porquê bater à minha porta, se comigo nunca conversou?». Ela ia abrir-nos o café, iamos beber cada uma um, iamos falar da passagem de ano, da minha escola, ia perguntar-lhe da aldeia, de quem pereceu entretanto, ia falhar-lhe do estado da minha tia. Sempre com o cuidado de dar a melhor acústica possível à minha voz. Se decorresse um milagre maior ainda, podias aparecer tu no café, atraído pela minha voz, a perguntar-te «Será possível? Tanto tempo depois?», mas não estarias descalço como no verão. Espero que a expansão da tua barriga tenha cessado, entretanto. Ou teríamos 10 anos entre nós e um fosso físico embaraçoso.

Mas, a imagem mais bonita que vejo, é a de mim de camisola de gola alta cor-de-rosa, a imagem do doce e do maduro articuladas, a chegar por entre os raios de sol à porta da casa da tua mãe, a V. no carro, e bater firmemente. Quando a tua mãe abrisse, estaria tão petrificada que só conseguiria articular «Ele está?», e talvez nesse momento ela entendesse o tempo que passou, os pequenos gestos que passaram e os sentimentos grandes que, escondidos, foram ficando para trás mas se arrastaram sempre connosco. Talvez fizesse um gesto na direcção do teu quintal, onde a luz batia e onde cuidavas dos animais, e dissesse: «Está lá atrás». Eu não ia ter de ouvir mais nada, contornava o pátio, enveredava pela trilha pequena junto à casa que leva ao quintal, e virava uma esquina caiada para te descobrir absorto nos animais, de camisolão de lã, calças de ganga e botas de lavoura. Ia parar, emocionada, como se soubesse que desafiava o destino, que nos separou, e nesse momento recebia a vitória. Quando me visses, ias pensar que era uma visão - não de beleza, mas de improbabilidade. Ias pensar que não podia ser eu ali, quase quatro anos depois, com 20 anos, quase igual, mas com uma expressão muito mais dura no rosto. Ias pensar que eu não teria motivo para estar ali, oito anos depois de dizer que gostava de ti. Ias pensar que amores de criança não se arrastam tanto tempo. E eu ia caminhar ao teu encontro, iluminada pelos tais raios do sol de inverno, e tu na minha direcção. Iamos, como não podia deixar de ser, encontrar-nos a meio. Eu ia estender-te a mão, perante a inutilidade das palavras, e tu ias segurá-la na tua, como se dessemos as mãos por um momento, a um passo um do outro. Não havia palavras, como nunca houveram, sempre amámos em silêncio e, por ti, sempre soube que se pode amar duas pessoas simultaneamente. O que dissessemo, seria mentalmente, em sussurros e embargos de voz. Eu dir-te-ia «Estou aqui, cheguei, consegui. Estou no mesmo sítio onde sempre estive, está tudo igual em mim, ainda gosto de ti, viveste sempre aqui. Toma conta de mim». Tu, e quem me dera que ainda me amasses, irias olhar-me nos olhos e ler essas mesmas palavras, sem poder acreditar que fosse verdade. Depois, sem disser nada como nunca dissémos - que amor é este que se alimentou de silêncios? - podias cair de joelhos em frente a mim. Gosto e o imaginar assim, podias cair sem que os teus olhos se desviassem dos meus, e pedir-me que nunca mais partisse. Eu ia sorrir, de lágrimas nos olhos, e remexer-te no cabelo, como se fosses uma criança. Perante a tua própria emoção, eu diria «Não sejas tolo, achas que vou a algum lado?», e seria a primeira vez que ouvirias a minha voz em quase quatro anos. Depois, punhas-te de pé e abraçavas-me. A tua mãe estaria a roer-se, mas a saber que era o melhor para ti. A minha amiga estaria de lágrimas nos olhos, no carro, a ouvir «It's such a shame for us to part». E, se fosse um filme, uma peça de teatro, um conto ou uma novela, o pano cairia sobre nós aí, com a inscrição "Fim - e viveram felizes para sempre".

E eu, aqui sozinha, sem ti,
Aí não sei como.

10 dezembro, 2009

Espectro

Três meses e poucos dias depois, faço o balanço do que ficou de nós dois. Meu querido, eu punha-me em bicos de pés e beijava-te o rosto. Durante este tempo, tantas vezes me trouxeste um sorriso ao rosto enquanto passeava de mãos nos bolsos... Quantas vezes, mesmo sem estares aqui, evoquei memórias dos nossos bons momentos e fiz disso o meu alimento, o meu ar? Não tantas como imaginei que faria, agora que falta uma semana certa para te ter de volta, sabendo que nunca mais te terei.

A imagem de mim, em bicos de pés, a beijar-te o rosto, foi o produto de dois anos de trabalho árduo a aproximar-nos, a criar-nos história, a escrever-nos recantos em tempo e lugares que, estes três meses e alguns deslizes teus - perfeitamente humanos - dizimaram. Pequenas decepções que hoje me roubam as forças, ou que obrigam a minha consciência a ordenar-me que não canalize mais energias para a causa que foste tu. Como me envergonho de mim, e do que desperdicei em mim para nos criar aos dois...

Enquanto estiveste fora, poucas foram as palavras. Enviei-te cartas e soube que não responderias, nem sequer um postal - sabendo-te sobre as pedras da calçada que mais ambiciono - pudeste endereçar-me. Andas assim tão ocupado? Aparentemente, conseguiste cultivar algumas amizades, nomeadamente aquela que mais desprezo. Aquela com a rapariga oca, a rapariga que troça dos outros, a rapariga que se veste igual a todas, que queria deixar a escola para ser modelo e que se considera igual a ti só porque são ambos "extrovertidos". Se te conhecesse, saberia que não há ninguém menos extrovertido que tu, ou mais introvertido. "Extrovertido" era a pontuação 10 nas compatibilidades amorosas quanto tínhamos 14, 15 anos. Se eram ambos extrovertidos, parecia haver futuro juntos. Futuro de poucos meses ou de um ano lectivo, mas entretanto iam rir e fazer rir os outros à vossa volta. Meu querido, como podes ponderar para teu par uma rapariga que mostra a mesma cara em todas as fotos? Que nunca sorri? Que faz figura de tola, de histérica, de criança quando estás nas imediações e que denuncia de imediato as suas intenções para contigo aos teus amigos? Aquela vaidosa inconveniente e vazia...

Se te conhecesse, não diria que são iguais. Depois pergunto-me: será que lhe revelas os teus segredos? As tuas dores? Aqueles que nunca revelaste a mim? Estou cansada de suportar as mesmas dores. Quis que doessem, para nunca deixar de te dar valor. Quis que as dores que te dilaceram a alma fossem as mesmas que me fazem lembrar quem és. Agora quero que sarem, que deixem a minha pele.

Portanto, quando chegares desta longa ausência é com ela que vais jantar? Deus, se existes, dá-me forças. Dá-me forças para que eu me comporte dignamente, para que aguente um serão completo com os teus amigos a fazerem suposições de onde estás, conclusões de onde dormirás nessa noite. Dá-me forças para que não chore, para que não saia a meio, para que não traia os meus sentimentos e não mostre a minha dor. Dá-me forças para fingir que não me importo...

Que mudado estás, meu querido. Tu, que um dia julguei conhecer... vamos apagar-nos mutuamente, ou não vou deixar de incomodar-te e tu de me magoar...

Dói tanto, meu amor...
Não te conhecer mais...