Três meses e poucos dias depois, faço o balanço do que ficou de nós dois. Meu querido, eu punha-me em bicos de pés e beijava-te o rosto. Durante este tempo, tantas vezes me trouxeste um sorriso ao rosto enquanto passeava de mãos nos bolsos... Quantas vezes, mesmo sem estares aqui, evoquei memórias dos nossos bons momentos e fiz disso o meu alimento, o meu ar? Não tantas como imaginei que faria, agora que falta uma semana certa para te ter de volta, sabendo que nunca mais te terei.
A imagem de mim, em bicos de pés, a beijar-te o rosto, foi o produto de dois anos de trabalho árduo a aproximar-nos, a criar-nos história, a escrever-nos recantos em tempo e lugares que, estes três meses e alguns deslizes teus - perfeitamente humanos - dizimaram. Pequenas decepções que hoje me roubam as forças, ou que obrigam a minha consciência a ordenar-me que não canalize mais energias para a causa que foste tu. Como me envergonho de mim, e do que desperdicei em mim para nos criar aos dois...
Enquanto estiveste fora, poucas foram as palavras. Enviei-te cartas e soube que não responderias, nem sequer um postal - sabendo-te sobre as pedras da calçada que mais ambiciono - pudeste endereçar-me. Andas assim tão ocupado? Aparentemente, conseguiste cultivar algumas amizades, nomeadamente aquela que mais desprezo. Aquela com a rapariga oca, a rapariga que troça dos outros, a rapariga que se veste igual a todas, que queria deixar a escola para ser modelo e que se considera igual a ti só porque são ambos "extrovertidos". Se te conhecesse, saberia que não há ninguém menos extrovertido que tu, ou mais introvertido. "Extrovertido" era a pontuação 10 nas compatibilidades amorosas quanto tínhamos 14, 15 anos. Se eram ambos extrovertidos, parecia haver futuro juntos. Futuro de poucos meses ou de um ano lectivo, mas entretanto iam rir e fazer rir os outros à vossa volta. Meu querido, como podes ponderar para teu par uma rapariga que mostra a mesma cara em todas as fotos? Que nunca sorri? Que faz figura de tola, de histérica, de criança quando estás nas imediações e que denuncia de imediato as suas intenções para contigo aos teus amigos? Aquela vaidosa inconveniente e vazia...
Se te conhecesse, não diria que são iguais. Depois pergunto-me: será que lhe revelas os teus segredos? As tuas dores? Aqueles que nunca revelaste a mim? Estou cansada de suportar as mesmas dores. Quis que doessem, para nunca deixar de te dar valor. Quis que as dores que te dilaceram a alma fossem as mesmas que me fazem lembrar quem és. Agora quero que sarem, que deixem a minha pele.
Portanto, quando chegares desta longa ausência é com ela que vais jantar? Deus, se existes, dá-me forças. Dá-me forças para que eu me comporte dignamente, para que aguente um serão completo com os teus amigos a fazerem suposições de onde estás, conclusões de onde dormirás nessa noite. Dá-me forças para que não chore, para que não saia a meio, para que não traia os meus sentimentos e não mostre a minha dor. Dá-me forças para fingir que não me importo...
Que mudado estás, meu querido. Tu, que um dia julguei conhecer... vamos apagar-nos mutuamente, ou não vou deixar de incomodar-te e tu de me magoar...
Dói tanto, meu amor...
Não te conhecer mais...
A imagem de mim, em bicos de pés, a beijar-te o rosto, foi o produto de dois anos de trabalho árduo a aproximar-nos, a criar-nos história, a escrever-nos recantos em tempo e lugares que, estes três meses e alguns deslizes teus - perfeitamente humanos - dizimaram. Pequenas decepções que hoje me roubam as forças, ou que obrigam a minha consciência a ordenar-me que não canalize mais energias para a causa que foste tu. Como me envergonho de mim, e do que desperdicei em mim para nos criar aos dois...
Enquanto estiveste fora, poucas foram as palavras. Enviei-te cartas e soube que não responderias, nem sequer um postal - sabendo-te sobre as pedras da calçada que mais ambiciono - pudeste endereçar-me. Andas assim tão ocupado? Aparentemente, conseguiste cultivar algumas amizades, nomeadamente aquela que mais desprezo. Aquela com a rapariga oca, a rapariga que troça dos outros, a rapariga que se veste igual a todas, que queria deixar a escola para ser modelo e que se considera igual a ti só porque são ambos "extrovertidos". Se te conhecesse, saberia que não há ninguém menos extrovertido que tu, ou mais introvertido. "Extrovertido" era a pontuação 10 nas compatibilidades amorosas quanto tínhamos 14, 15 anos. Se eram ambos extrovertidos, parecia haver futuro juntos. Futuro de poucos meses ou de um ano lectivo, mas entretanto iam rir e fazer rir os outros à vossa volta. Meu querido, como podes ponderar para teu par uma rapariga que mostra a mesma cara em todas as fotos? Que nunca sorri? Que faz figura de tola, de histérica, de criança quando estás nas imediações e que denuncia de imediato as suas intenções para contigo aos teus amigos? Aquela vaidosa inconveniente e vazia...
Se te conhecesse, não diria que são iguais. Depois pergunto-me: será que lhe revelas os teus segredos? As tuas dores? Aqueles que nunca revelaste a mim? Estou cansada de suportar as mesmas dores. Quis que doessem, para nunca deixar de te dar valor. Quis que as dores que te dilaceram a alma fossem as mesmas que me fazem lembrar quem és. Agora quero que sarem, que deixem a minha pele.
Portanto, quando chegares desta longa ausência é com ela que vais jantar? Deus, se existes, dá-me forças. Dá-me forças para que eu me comporte dignamente, para que aguente um serão completo com os teus amigos a fazerem suposições de onde estás, conclusões de onde dormirás nessa noite. Dá-me forças para que não chore, para que não saia a meio, para que não traia os meus sentimentos e não mostre a minha dor. Dá-me forças para fingir que não me importo...
Que mudado estás, meu querido. Tu, que um dia julguei conhecer... vamos apagar-nos mutuamente, ou não vou deixar de incomodar-te e tu de me magoar...
Dói tanto, meu amor...
Não te conhecer mais...

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