Desapareceste. Há dois dias, segundo os meus cálculos. Como deves imaginar, já ponderei todos os sítios onde podes estar. Entre eles, desejo que estejas a visitar o teu avô nos confins do país, e que ela não esteja lá, nos confins do seu distrito, ou que estejas num festival qualquer na Bélgica, ou que estejas trancado em casa a estudar. Até já me ocorreu que estejas a fazer isto para saber o quanto me afecta. Já brincaste a isto antes, recordas-te? Seria tão fácil para ti dizer que imagino coisas, que sou eu que estou doida e a ver coisas. Com a mesma facilidade poderias dizer «a minha vida não gira ao teu redor». Pois não, meu amor traiçoeiro, mas a verdade é que escolheste a única semana em que estive fora para ir jantar com ela. Sabes o que é mais engraçado? Vocês ficam bem, ficam bem demais, lado a lado. Ela a tombar, bêbeda, ela a rir alto, ela a saltar, ela a reformular «sou peixeira, gosto de peixeiradas e de gente peixeira», ela, loira, duma altura adequada à tua, a rir-se, tão bêbeda quanto tu. Se funcionavam? Não, não duvido que não. Qual dos dois estaria mais bêbedo ao final da noite? E o que fazer quando és tão livre quanto és e, ainda assim, ela é, de longe, mais livre que tu? Encantaste-te por ela? Porquê, quando o que vejo nela poderia ser, tão facilmente, eu? O falar alto, a facilidade de puxar o assunto que quer, a inconveniência (sublinho que não tenho hábito de me exibir alcoolizada), a extravagância. Depois, metes a tua gravata e o teu fatinho e vais jantar com ela, com uma rapariga formatada para idas ao McDonald's, sim, ao meu querido restaurante de fastfood. E porque é que és assim? Diz lá? Porque é que, por trás da máscara de durão, de insensível, de sei lá que merda finges ser, metes a gravata e, arrisco, a camisa azul? Para ir jantar com ela? Enfim, vai. A minha nova brincadeira consiste num sorriso, num breve olhar à noite que cai e ao comentário, sorridente: está uma bela noite para ele ir jantar com ela.
Vai, vai todos os dias daqui para a frente, faz amor com ela de manhã à noite, até já não distinguires o teu cheiro do dela, fala-lhe baixo ao ouvido, de manhã, e convence-te que ela é o melhor que podias ter. Mas pára de te esconder de mim, de me desviar a cara quando falo contigo, és transparente, não preciso dos comentários de ninguém ao teu fato bonito para saber que fizeste alguma coisa que, se eu soubesse, me destroçaria. A verdade está no teu olhar, na tua mão gelada, com suor frio, quando me cumprimentaste. Está na tua distância. Está no «peso», como tu declaraste, quando te disse que queria oferecer-te um quadro. Sabes o que farei ao quadro? Ou melhor, o que farei com o quadro? Uma bonita fogueira no meu quintal, num dia em que tenha frio, ao cair de uma dessas noites perfeitas em que podes, muito bem, estar a jantar com ela.
Deixa a minha vida,
fecha a porta.
Vai, vai todos os dias daqui para a frente, faz amor com ela de manhã à noite, até já não distinguires o teu cheiro do dela, fala-lhe baixo ao ouvido, de manhã, e convence-te que ela é o melhor que podias ter. Mas pára de te esconder de mim, de me desviar a cara quando falo contigo, és transparente, não preciso dos comentários de ninguém ao teu fato bonito para saber que fizeste alguma coisa que, se eu soubesse, me destroçaria. A verdade está no teu olhar, na tua mão gelada, com suor frio, quando me cumprimentaste. Está na tua distância. Está no «peso», como tu declaraste, quando te disse que queria oferecer-te um quadro. Sabes o que farei ao quadro? Ou melhor, o que farei com o quadro? Uma bonita fogueira no meu quintal, num dia em que tenha frio, ao cair de uma dessas noites perfeitas em que podes, muito bem, estar a jantar com ela.
Deixa a minha vida,
fecha a porta.
