30 março, 2010

Devolve-me a sanidade, meu amor

Devolve-me a felicidade,

Desapareceste. Há dois dias, segundo os meus cálculos. Como deves imaginar, já ponderei todos os sítios onde podes estar. Entre eles, desejo que estejas a visitar o teu avô nos confins do país, e que ela não esteja lá, nos confins do seu distrito, ou que estejas num festival qualquer na Bélgica, ou que estejas trancado em casa a estudar. Até já me ocorreu que estejas a fazer isto para saber o quanto me afecta. Já brincaste a isto antes, recordas-te? Seria tão fácil para ti dizer que imagino coisas, que sou eu que estou doida e a ver coisas. Com a mesma facilidade poderias dizer «a minha vida não gira ao teu redor». Pois não, meu amor traiçoeiro, mas a verdade é que escolheste a única semana em que estive fora para ir jantar com ela. Sabes o que é mais engraçado? Vocês ficam bem, ficam bem demais, lado a lado. Ela a tombar, bêbeda, ela a rir alto, ela a saltar, ela a reformular «sou peixeira, gosto de peixeiradas e de gente peixeira», ela, loira, duma altura adequada à tua, a rir-se, tão bêbeda quanto tu. Se funcionavam? Não, não duvido que não. Qual dos dois estaria mais bêbedo ao final da noite? E o que fazer quando és tão livre quanto és e, ainda assim, ela é, de longe, mais livre que tu? Encantaste-te por ela? Porquê, quando o que vejo nela poderia ser, tão facilmente, eu? O falar alto, a facilidade de puxar o assunto que quer, a inconveniência (sublinho que não tenho hábito de me exibir alcoolizada), a extravagância. Depois, metes a tua gravata e o teu fatinho e vais jantar com ela, com uma rapariga formatada para idas ao McDonald's, sim, ao meu querido restaurante de fastfood. E porque é que és assim? Diz lá? Porque é que, por trás da máscara de durão, de insensível, de sei lá que merda finges ser, metes a gravata e, arrisco, a camisa azul? Para ir jantar com ela? Enfim, vai. A minha nova brincadeira consiste num sorriso, num breve olhar à noite que cai e ao comentário, sorridente: está uma bela noite para ele ir jantar com ela.

Vai, vai todos os dias daqui para a frente, faz amor com ela de manhã à noite, até já não distinguires o teu cheiro do dela, fala-lhe baixo ao ouvido, de manhã, e convence-te que ela é o melhor que podias ter. Mas pára de te esconder de mim, de me desviar a cara quando falo contigo, és transparente, não preciso dos comentários de ninguém ao teu fato bonito para saber que fizeste alguma coisa que, se eu soubesse, me destroçaria. A verdade está no teu olhar, na tua mão gelada, com suor frio, quando me cumprimentaste. Está na tua distância. Está no «peso», como tu declaraste, quando te disse que queria oferecer-te um quadro. Sabes o que farei ao quadro? Ou melhor, o que farei com o quadro? Uma bonita fogueira no meu quintal, num dia em que tenha frio, ao cair de uma dessas noites perfeitas em que podes, muito bem, estar a jantar com ela.

Deixa a minha vida,
fecha a porta.

18 março, 2010

Omnipresente

Está mais calor,
Está mais calor e a minha cidade é calma, é como se o vapor aquecido que há-de vir com a primavera já pairasse nas ruas. Quando desço do metro, vou a pensar que estás no estádio de Alvalade a ver o jogo, vou a pensar que, se eu ligasse a futebol e não tivesse tantas obrigações, estaria lá contigo. E, do outro lado da rua, passa um carro com o rádio vários decibéis acima do normal. É ao ouvir o relato do jogo, que sei que estás a ver, que sorrio e que sei: haja o que houver, hás-de estar sempre em todo o lado.

Meu amor,

09 março, 2010

Prisão

Aqui estou.

Acendo um cigarro e rezo para que, no dia seguinte, as paredes não me denunciem. O meu coração já se partiu tantas vezes e em tantos cacos, o centro do meu gostar e tu, surpreendentemente, consegues reparti-lo em ainda mais cacos. Não queria admiti-lo, mas é a verdade: divertes-te a magoar-me, a testar-me, a ver se gosto mesmo, se tenho mesmo ciúmes, se me afectas mesmo. Sim, mesmo. Podes parar de tentar, já fui marioneta ao sabor da tua curiosidade muitas vezes. Sentes-te bem por saber que és tão amado? Mesmo por alguém que sofre como eu sofro por estar do outro lado?

O meu irmão vai ser pai aos 18 anos, e tu empenhado em por canções de amor no teu facebook. Quem é que te anda a dar a volta ao miolo, G. N.?

Desculpa-me da minha parte, se queria que me tivesses perguntado se estou feliz por ser tia, se queria que estivesses interessado se eu, como pessoa pragmática que sou, aspirante a mãe um dia, vi isto como um milagre ou uma desgraça. Gostava que tivesses querido saber, mas não queres, como nunca quiseste.

Houve momentos de encantamento entre nós? Acho que houve e que até nisso fingiste: sabias que, se me tocasses na mão, prendias-me por mais uma semana. Se me disses que sou "a melhor do mundo", prendias-me por mais um mês. E eu contente por estar presa a ti, ao menos tinha alguma coisa contigo, nem que fosse escravidão.

Pois bem, a liberdade já não é um desejo meu, é uma necessidade vital, direito natural.

Adeus, chave de cadeia...




C diz (01:13):
*tive a discutir co g
*estupido
V diz (01:15):
*entao?
C diz (01:15):
*oh, as discussoes de sempre
*dá-me raiva
*principalmente no rescaldo de tudo o q se anda a passar na minha vida
*querer tanto ser livre
*nao depender de ninguem
C diz (01:16):
*ir sozinha onde tiver de ir
*tê-lo como âncora
*como pessoa que, por me dispensar, é-me indispensável
*quando há quem goste de mim
*e faça por mim o q eu faço por poucos
*e é sempre ele q falha aí
*e parece q é ele q eu queria q tivesse sempre lá
*ao ponto de eu um dia poder dispensá-lo também
*pedir-lhe espaço a ele também
*estúpido de merda
*odeio-o
V diz (01:17):
*:S
*sufoco
C diz (01:17):
*prisão

é isso.

06 março, 2010

Chocolate

Meu amor,

A V. levou outra tablete de chocolate suíço para o café. Estás sentado atrás de nós, estás encantador, amor. Com a barba a insinuar-se sobre os lábios, onde gosto de a ver. Eu e a V. comemos a tablete inteira de chocolate, enquanto faço ruídos de prazer, já que fui eu, sobretudo, quem a comeu. Atrás de nós, observas e sorris: significa para mim o mundo, poder olhar sobre o ombro e fundir os meus olhos nos teus, juntar o meu sorriso ao teu. Dizes, no tom adoçicado que tens ultimamente: Olhem para isto, come uma tablete de chocolate em cinco minutos.

O teu sorriso, meu amor... o teu olhar cansado... a tua pele na minha, quando nos cumprimentámos com 1/2 de tempo a mais do que é comum/normal/aceitável, e eu a procurar os teus olhos, a encontrá-los e a sorrirmos.

E achas que eu não reparei?
Eu reparei que tinhas "a" sweatshirt vestida...
é que continuas a ser o mundo para mim,
tu que não gostas de chocolate...

PS - Passei a tarde a pintar um segundo quadro de ti, do teu rosto. Curiosamente, sinto a tua alma no primeiro. O que reproduzi hoje, não me fala. Estava indecisa sobre qual deveria oferecer-te, a minha irmã disse: se sentes a alma dele naquele, oferece-lhe o outro, assim é como se estivesses com ele quando quiseres.
Acho que tem razão...


05 março, 2010

Someone like you, someone like me (L)

Meu amor,

Fomos à festa da faculdade do J. Ias bem disposto, como sempre, com as tuas piadas. Notei que, quando te diriges a mim, as coisas têm outro tom. Quando dizes o meu nome, parece sempre que tem algo por trás. E, receio, não é bom. Creio que seja distância, creio que seja afastamento. Esqueceste-te que te amo? Ando a fingir bem demais que isso morreu em mim?

Ontem a A. disse-me, na sequência de uma conversa interminável sobre os nossos respectivos mais-que-tudo (no meu caso), será-que-é-mais-que-tudo (no caso dela), e ela disse-me:
- Sabes C, não te quero por coisas na cabeça... mas já pensaste que ele pode ser como eu sou para o V.? Não sei bem onde o por, mas eu gosto dele!
Com ela faz quantos? Pelo menos 3 pessoas me dizem que é impossível, ante a soma das pequenas coisas, que não gostes de mim. Lá que tivémos tanta coisa só nossa, lá isso tivémos... Mas porque é que, apesar de tudo, sinto que te perdi algures lá atrás, na estrada?

Hoje, enquanto assistíamos ao concerto na festa, via a tua silhueta, de costas para mim, a tua cabeça a mover-se ao som daquele cover de Kings of Leon: I hope it's gonna make you notice someone like me. E, perante o teu entusiasmo, não posso sentir outra coisa que não este amor infinito, desmedido, inexplicável e incondicional. O teu perfil, recortado contra as luzes vermelhas, púrpura, azuis, verdes, sorri a quem está ao teu redor. E há as tuas pestanas, meu amor, e o teu narizinho adorável. Depois, há este desejo dificilmente controlável que tenho por ti. Continuas a levantar-me da cama de manhã, a arrastar-me para todos os sítios, a fazer-me querer ser melhor. Quando estou aqui, agora, a escrever diante do computador com o cabelo apanhado no cimo da nuca, uma bandolete e os brincos compridos quase a tocar no ombro, penso: Quem me dera que ele estivesse aqui, às 5h28h que são, a me visse assim. Que diria ele?

A razão de ser deste post é, exactamente, aquilo que tu disseste:
Estávamos a sair da festa, à tua espera no carro, e tu decidido a ficar. Passei-te o casaco - melhor, atirei-to - e dei-te uma palmada na mão. Já me conheces, sabes que estava irritada. Não queria que ficasses, amor. E se te metesses em confusões? E se a encontrasses, aquela que parece que mais te marcou até hoje e que andava por lá? Mas, o verdadeiro motivo, é que é-me inconcebível que, quando eu parto, a tua noite possa continuar. É que, quando tu sais, a minha noite acaba. O carro ia arrancar e alguém grita na direcção onde seguiste há minutos:
- Olhem, lá vem ele!
E caímos todos na risada, contigo a correr de novo para nós à chuva. Penso: amo-o tanto, amo-o quando me ouve mesmo quando tem toda a legitimidade para discordar.
Entras, dizes: Afastem-se! Deixem-me sentaaaaar (gritas, esbaforido), 'tá ali um bacano que me quer bater - abres a porta e gritas lá para fora, para a rua deserta - Filho da puta!!! Arranquem, tranquem as portas, o bacano quer-me bater!!!
E a rua vazia, e a chuva a cair, e tu sentado a um metro de mim, e atiro a cabeça para trás, rio, rio, rio...
O meu amor veio comigo...

Depois, no decorrer da viagem, vais a embirrar com tudo e com todos. Às vezes sinto que não tenho o direito de te repreender, mas faço-o, chamo-te à razão uma vez mais. Digo, num suspiro:
- Rezo tanto para que vocês cresçam...
E é então que me iluminas o dia, a noite, a madrugada, o amanhã e a próxima semana quando dizes, sério:
- Oh C, também eu... e quando eu crescer e tiver juízo tu vais ser a melhor do mundo.

(E eu digo: Não gozes comigo - não estou a gozar - então nesse caso é bonito - eu não ando aqui para dizer coisas bonitas)

E é então que desço do carro e sorrio, entro em casa e faço o penteado que gostava que tu visses. Daqui a nada deito-me na cama onde gostava que te deitasses.

Meu amor,
Melhor do mundo...?
Eu queria ser tudo o que há de menos a ser,
desde que contigo.