Amor,
Este sorriso é o hábito de ti
É o saber que anoitece
Mas continuas ali
Espero para ver o que acontece.
Este esquecimento é distração
É não pensar com insistência
E ter o mundo na mão
Com a nossa existência.
Este despertar inebriado
É de quem se perde
E só em ti se dá achado.
Esse teu desviar o olhar
É típico de quem duvida
Estendo a mão a te encontrar
Espero que sejas a saída.
Este contentamento é hábito de ti
É o saber que temos horas nossas
Que nos escapam por aí
Mas ninguém as pode roubar
A não ser tu e o teu hesitar.
E este medo de me perder
É porque me lanço a te achar,
Vou ao encontro de ti,
Só para saber como te agarrar,
Como te ler, como me desdobrar
Para aprender e ensinar
Para te ouvir e não me calar
Para poder continuar assim
Presa neste hábito de ti,
Neste hábito de te precisar.
11 dezembro, 2008
Carta a ti IV - Sem saudades tuas
Amor,
Há dias, há noites, horas e minutos em que não preciso de ti. Tu não estás aqui, como sempre, porque tens a tua vida para viver longe. E eu tenho um novo diário, com páginas em branco, para preencher com as amarguras de ti. Com as ausências de ti. Com o meu hábito de ti, que tu não cumpres porque estás sempre a fugir, sempre a meter outros à minha frente, à frente daquilo que poderíamos ser nós. Pela primeira vez, admitiste que faltava algo na tua vida ao dizeres que "sentes tantas saudades". Saudades de quê? Do que foi e já não é, aquilo que dizes que "ardeu" e que deveria fazer-te continuar mas não faz. E eu entendo-te: porque tu és fraco e eu sou fraca. Somos mais maus para nós próprios do que somos para os outros, mas isso não significa que não magoemos ninguém. Tu, provavelmente, ama-la, e eu não exito na hora de dizer que te amo. Porque tu sentes saudades dela, e eu tuas. Tu relembras os bons momentos com ela, e eu os momentos contigo ainda que, para ti, não tenham sido nada. Ainda que tenhas adormecido atrás de mim com um sorriso nos lábios, não era por mim esse sorriso. Provavelmente, era pelo que estava para vir. E hoje, estás com os teus amigos, aqueles que sabem mais de ti do que eu, porque eu não sei nada de ti - nem tu queres que eu saiba. Depois não me culpes por não saber. Não me culpes por não te conhecer.
Amo-te, mas hoje não sinto a tua falta.
28 novembro, 2008
Carta a ti III - Acredito
todos os lugares onde estive contigo e agora estou sem ti. todas as palavras que deixei cair no vácuo porque não estavas lá para ouvir. e a minha mensagem que não há meio de chegar até ti, até porque não queres ouvir. tenho todos os meus fantasmas para te apresentar. tenho o meu lado mau para te mostrar. tenho todos os caminhos, todos os metros de linhas férreas que percorri sem ti a meu lado, mas dentro de mim. todas as minhas expressões menos felizes direccionadas à janela, como se fosse possível encontrares-me ali. todos os becos que visitei repetidamente, porque acreditei encontrar-te no fundo de algum. todas as lágrimas que não contive, e que nunca te mostrei. ouviste-as? eram por ti. todos os gelados com que não te sujei os lábios, porque nunca me senti com coragem para o fazer. todos os muros a que não subi porque não tinha certeza de saber se estarias cá em baixo a olhar por mim. todas as estradas de luz pelas quais não enveredei porque preferi ficar para trás, a procurar-te nos tais becos. todas as perguntas que me faço e que as respostas, quando as aceito ver, são dolorosamente impossíveis de acreditar. meto-as de lado para não desanimar. e estou a tentar, com todas as forças. fecho os olhos, aperto as mãos. vejo todos os filmes de amor, leio todos os livros, oiço todas as canções, aceito ouvir falar de qualquer tipo de gostar, para compreender qual é a fórmula deste - como é que vai funcionar? para compreender porque é que te imagino, lá onde estás agora, e eu a estender a mão para o teu pescoço - já te disse que o adoro? - e a tocá-lo com as pontas dos dedos. talvez tivesse coragem suficiente para te olhar nos olhos, se o fizesse. talvez ficasse desconcertada se descobrisse neles apenas incómodo ou indiferença, qual deles o pior. todas as noites em que caminhei na direcção oposta a ti. todas as vezes que mordi os lábios porque me doía, e tantas vezes que tinha algo a gritar-te mas não o fiz, para não estragar o mundo ao teu redor. ou talvez para não me chocar com o facto de não ter qualquer efeito sobre ele. todas as palavras que estiveram quase, quase a sair - amo-te - mas nunca sairam porque tenho medo de te embaraçar. e aquela pergunta que tenho há tanto tempo para te fazer, mas não te faço, porque se a resposta for demasiado dura posso não saber o que fazer com ela. ainda assim, é essencial, algum dia terei de a ouvir. um dia terei que viver com ela. entretanto deixa-me imaginar que aquela menina curiosa te lembra de mim. que aquela tua amiga que escreve te lembra de mim. que aquela esquina onde estivémos - mas já não estamos - te lembra de mim. isto sou eu, para não cair. para isto não ser o fim. preciso de ti, mais do que seria sensato precisar. continuas longe, mais do que deverias estar. preciso de ti. preciso de te abraçar. preciso de ver o dia nascer sentada ao teu lado numa estação qualquer de comboios, e talvez nessa alvorada tenha a cabeça no teu ombro, e tu estejas distraído e me deixes pegar na tua mão. talvez pegues tu na minha.
23 novembro, 2008
Carta a ti II - Encontra uma Maneira
Amor,
Coisas impossíveis: não existem. Impossível era termos conseguido passar naquele exame à rasca, aquele para o qual não estudámos. E passámos. E lembras-te quando íamos passar férias a Porto Covo? À última da hora fomos parar a Milfontes, e até havia quem lá estivesse estado no ano passado: boas e más memórias. E ainda este ano, chegámos à estação de autocarros à última hora e garantiram-nos que não poderíamos embarcar, e às tantas veio um vazio e levou-nos até Coimbra. Era impossível termos embarcado naquele autocarro, mas ficámos lá sentadas, na mesma mesa, a ouvir o empregado atrás do balcão murmurar alguma coisa sobre sermos malucos se pensávamos que íamos embarcar. E se esmoreci por um momento, descobri logo que não era impossível embarcarmos de facto. E embarcámos, quem diria. E agora tinha tanto nas mãos, o meu prazo de 31 de Dezembro estava nas minhas mãos, e tu puxas-me o tapete de baixo dos pés, como eu te teria feito, se fosse ao contrário, em nome de coisas que não dependem de nós. Enfim, às vezes falo como se estivesses mesmo ao meu lado. Como se gostasses de mim como eu gosto de ti, como se as tuas palavras caissem no vácuo, para comigo, como as minhas caem, para contigo. E tu foges, estás sempre a fugir de mim. Mas amor, não há coisas impossíveis.
Amo-te
Carta a ti I - Quando não estás
Amor,
Sabias que quando o teu dia chega ao fim o meu também encontra a sua última hora? É como se subitamente ficasse sozinha, é como se soubesse que não importa os pensamentos que tenha, nenhum chegará a ti porque tu já repousas noutra dimensão que não a minha. É então que penso em ti, que evoco a tua imagem com maior nitidez. E é sobretudo quando me deito e me sinto rodeada da flanela dos lençóis, em pleno Inverno, que sinto mais a tua falta, mas é também quando te sinto mais perto. Gosto de pensar que um dia estarás a meu lado, e ficaremos até tarde na noite a discutir os assuntos do dia-a-dia. O facto de gostares de preto e eu de branco, de gostares de música e eu de ler, de preferires sentar-te na sala e eu na cozinha, de teres encontrado alguém que não vias há alguns anos, "Lembras-te?", dirias, e eu esforçaria a mente por um instante mas depois dizia-te "não, amor. Lembra-te que tu conheceste o mundo e eu só te conheci a ti". Será que discutiriamos muitas vezes, eu e tu? Será que poríamos de lado quem somos em prol de evitar essas mesmas discussões? Não. Gosto de pensar que todo este tempo é só uma forma de prepararmos tudo bem para um dia podermos ser felizes juntos. Espero que um dia me encontres no meu castelo no bosque, rodeada dos outros castelos, os de areia que elevei ao meu redor este tempo todo - quase 565 ausências de ti - e que me salves. Espero ter uma trança suficientemente forte para te erguer até mim. Espero nunca desistir de ti.
Amo-te.
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