21 setembro, 2009

Direita ou Esquerda?

Eu, que sempre disse que quero viver sozinha com o meu gato num local remoto onde ninguém me encontre, terei descoberto o precioso da minha vida num instante em que os meus pensamentos não tinham exactamente o fundamento de ser poéticos nem de me levar a epifânias?

Será que o precioso da minha é, exactamente, o facto de quando estou em baixo, stressada, furiosa, poder encontrar a minha prima numa noite de Dezembro a meio caminho - na mesma rua - entre a casa dela e a minha, ambas de robe, ambas a respirar em nuvens, ambas a fumar um cigarro solitário?

Ou será o precioso da minha vida eu a, daqui a alguns segundos, perguntar ao meu pai se tem um cigarro e ir fumar sozinha para o quintal enquanto oiço a Thumbing my way, Pearl Jam?

IV - Poema

«Podíamos ter caído os dois
Pelas notas da guitarra,
Pelas entrelinhas do tempo,
Da vida, enfim.
Podíamos ter estendido a mão ao outro
A cada vez que tropeçasse
Num obstáculo,
Ou noutra coisa tal.
Podíamos ter conhecido os mesmos becos
Sem nos perdermos um do outro,
Nem por instantes,
Nem pela eternidade»

Nunca te esqueci, nem quando te garanti que o tinha feito.

20 setembro, 2009

Slow Time Love

Caro G,

«A paixão arde na pele,
feridas em carne viva
O amor faz doer na alma,
desilusão»

Eu disse que te aceitava como um pacote inteiro, não disse? Neste momento, é dos teus defeitos que sinto mais saudades. Traziam ao de cima o meu lado humano que perdoa, desculpa, e reconhece a imperfeição como um facto natural nos outros, tanto como em mim,

Com amor,

C.

17 setembro, 2009

II - Enquanto não chegas

Olha meu amor, a atmosfera está duma tonalidade indefenida. Entre a cor de areia e um amarelo indescritível. Os meus melhores momentos, passei-os à beira mar, com música a animar-me os saltos sobre as ondas e o vento a dar ritmo ao meu cabelo. Não estavas lá. Gritei às ondas - não sei se te ouvem - o quanto sou feliz por entre as suas águas. «Tempos estranhos», digo. «O tempo, parece estar estranho». Parece ter abrandado, parece estar numa frequência lenta, carregado de acontecimentos que não têm lugar, de noites que sobem ao céu apenas físicamente, de luares que não contemplo e de amanheceres que só existem no plano da ciência. Não vejo beleza nas ruas. Estas mesmas estão vazias. Não vejo beleza noutro olhar que não no teu, esse mesmo, tão distante. Já não ando, meu amor. Ao invés, deambulo. Arrasto-me, passo em revista o meu corpo e as suas mazelas, sabendo que não poderei nunca ver as da alma. Olho-me no espelho e não me reconheço. Sou outra pessoa, e têm que passar outros vinte anos até que aprenda a conhecer-me como já me conhecia. Regavas-me. Agora que sequei, tenho que aprender a viver na aridez que ficou de ti. Nos solos secos e gretados da minha saudade, procuro-me sem me ter ainda encontrado. Estou descalça, meu querido, numa cama de espinhos que fiz para me deitar. Nela tento descansar, sabendo que, para onde quer que me vire, me vais faltar. Sabendo que, a cada vez que me faltas, esses mesmos espinhos se cravam mais fundo na minha pele. O tempo vai passando e a saudade agrava. O pico máximo será na véspera de te ver e, quando te vir, vou fingir que não me faltaste. Vou fingir que não deixei de ser eu, só porque partiste. Já não sei quem sou, meu mar nocturno. Como por comer e vivo por viver, enquanto te imagino invadido por outros odores, outras cores, outras temperaturas a aflorarem-te a pele e a garantirem-te que estás vivo, a gritarem-te para que vivas mais. Olha para ti, tão jovem, com tanta avidez de experimentar, de correr riscos, de conhecer o novo e o improvável; e olha para mim, que te conheci a ti e que desfiz a mala nessa estação. Era suposto andar muito mais, experienciar muito mais, mas vi-te nessa paragem, com o teu sorriso inconfundível e ambíguo e a tua alma a transbordar dos limites do teu corpo terrestre. Está a anoitecer - e é um evento físico, acima de tudo - porque não me volto para observar o cair da noite através das vidraças. Está lá e sei que está. Sei que amanhã voltará a ser dia. Sei até a data do teu retorno. Mas neste instante preciso de registar a profunda letargia em que mergulho, enquanto não chegas.

Comptine d'un autre été , Yann Tiersen

10 setembro, 2009

I - Day III

«Ele está a viver a vida dele. Eu desejo-lhe felicidade, desejo que nunca ninguém o magoe tanto como me magoou. E também desejo, se ele é uma pessoa tão capaz como cheguei a julgar que era, que um dia dê um concerto e se aperceba que eu não estou lá, na fila da frente, de lágrimas nos olhos. Desejo que, enquanto passeia nas ruas de Itália onde desejo viver, feliz a tirar os seus seis meses de Erasmus, se lembre de coisas para me dizer. Que, a meio dum diálogo numa taberna de lá, lhe falte uma palavra e pense 'ela tem italiano, se lhe ligasse ela saberia que palavra é'. Que se lembre, enquanto conversa lá, das palavras que EU lhe ensinei enquanto estudávamos juntos. Que, quando tiver a comer uma das suas amigas cujo nome esquece daí a umas horas e a cara também, ainda mais depressa, pense: que coisa vazia é esta, que faço? que vida vazia é esta, que vivo? que caminho vazio é este, que escolhi? e que pessoa vazia é esta, que fodo?»

comentário que senti, sobre ti.

02 setembro, 2009

O passarinho

Viste, amor?

Eu receava dizer-te: cansei-me, porque achava que nunca me ia cansar. Eu disse sempre: quando há amor, não há motivo para as pessoas não se entenderem. Mas eu andava a segurar a casa às costas sozinha outra vez. Tu afastavas-me, começavas a ficar irritado e possivelmente a sentir-te oprimido. Não quero que te sintas assim, mas não sei ser eu sem te repreender e sem te puxar pelo braço. Não sei ser sem te pedir que fiques quando queres ir. No fim vou ajudar-te a fazer a mala, tu sabes, mas entretanto vou implorar-te, em silêncio, que fiques.

Quando te fores embora vou saber que estás livre, no auge da tua vitalidade, num casulo a passar por uma metamorfose que vai fazer de ti um homem enorme, um homem admirável. Quando regressares, provavelmente a esperança também vai voltar a mim. Espero que não, a esperança é um sentimento destrutivo. Vou pensar «voltou mais adulto, talvez agora me veja e me compreenda melhor». Isso não vai acontecer, eu não fui feita para ti nem tu para mim. Se me esforçar um bocadinho, talvez consiga imaginar alguém melhor do que tu. O vazio onde me deixas é insuportável. Nós nunca nos íamos mesmo entender, seria perfeito, se fosse mútuo, lá isso seria. Mas enquanto eu vivo a vida numa frequência e tu noutra, seria um pequeno inferno que eu cultivaria com amor.

Adeus, meu passarinho, voas já na próxima terça-feira. Espero ao menos conseguir dar-te um abraço, calar as palavras, espero isso.

És a pessoa de quem gosto mais no mundo.




01 setembro, 2009

Fim ou Precipitação?

Conforme oscilam as horas num novo estado de energias, oscila a minha percepção do mundo. Como a cada vez que a percepção muda, eu mudo o meu mundo inteiro, há três dias que somos estranhos e eu já remodelei tudo: já me vejo sem ti nos próximos dias e nos próximos meses. Já imagino que as cartas que seriam o meu consolo nesses mesmos tempos já não vão despregar-se da caneta porque já não me sinto capaz. Já decidi que, uma vez que sinto que descarrilaste, e, contigo, nós os dois, vou aprender a viver sem ti. Mas a verdade é que, só três dias depois, já me fazes falta. Fazes-me tanta falta...

Quando estou distraída a ser eu, e algum dos milhentos assuntos que pisámos se enterpõe pelo meio de qualquer conversa, olhava para ti, encontrava no teu olhar a compreensão, e o mundo acordava todo ao meu redor. Já não podia estar distraída. Punha as ideias todas sobre rodas, não fosses tu ouvi-las e procurar a integridade delas, a estruturação. Quem sabe, não encontrasses tu falhas: ontem disseste b e hoje estás a dizer c. E eu dizia-te: Tens razão, mas... E repensava tudo.

Amor, falei-te no passado. Fechei portas, teve de ser. Apetecia-me gritar:

ERRO DE COMUNICAÇÃO

AMO-TE, AMO-TE, AMO-TE

Isto sou eu a fechar portas porque sei que não vais passar por elas durante seis meses.