17 setembro, 2009

II - Enquanto não chegas

Olha meu amor, a atmosfera está duma tonalidade indefenida. Entre a cor de areia e um amarelo indescritível. Os meus melhores momentos, passei-os à beira mar, com música a animar-me os saltos sobre as ondas e o vento a dar ritmo ao meu cabelo. Não estavas lá. Gritei às ondas - não sei se te ouvem - o quanto sou feliz por entre as suas águas. «Tempos estranhos», digo. «O tempo, parece estar estranho». Parece ter abrandado, parece estar numa frequência lenta, carregado de acontecimentos que não têm lugar, de noites que sobem ao céu apenas físicamente, de luares que não contemplo e de amanheceres que só existem no plano da ciência. Não vejo beleza nas ruas. Estas mesmas estão vazias. Não vejo beleza noutro olhar que não no teu, esse mesmo, tão distante. Já não ando, meu amor. Ao invés, deambulo. Arrasto-me, passo em revista o meu corpo e as suas mazelas, sabendo que não poderei nunca ver as da alma. Olho-me no espelho e não me reconheço. Sou outra pessoa, e têm que passar outros vinte anos até que aprenda a conhecer-me como já me conhecia. Regavas-me. Agora que sequei, tenho que aprender a viver na aridez que ficou de ti. Nos solos secos e gretados da minha saudade, procuro-me sem me ter ainda encontrado. Estou descalça, meu querido, numa cama de espinhos que fiz para me deitar. Nela tento descansar, sabendo que, para onde quer que me vire, me vais faltar. Sabendo que, a cada vez que me faltas, esses mesmos espinhos se cravam mais fundo na minha pele. O tempo vai passando e a saudade agrava. O pico máximo será na véspera de te ver e, quando te vir, vou fingir que não me faltaste. Vou fingir que não deixei de ser eu, só porque partiste. Já não sei quem sou, meu mar nocturno. Como por comer e vivo por viver, enquanto te imagino invadido por outros odores, outras cores, outras temperaturas a aflorarem-te a pele e a garantirem-te que estás vivo, a gritarem-te para que vivas mais. Olha para ti, tão jovem, com tanta avidez de experimentar, de correr riscos, de conhecer o novo e o improvável; e olha para mim, que te conheci a ti e que desfiz a mala nessa estação. Era suposto andar muito mais, experienciar muito mais, mas vi-te nessa paragem, com o teu sorriso inconfundível e ambíguo e a tua alma a transbordar dos limites do teu corpo terrestre. Está a anoitecer - e é um evento físico, acima de tudo - porque não me volto para observar o cair da noite através das vidraças. Está lá e sei que está. Sei que amanhã voltará a ser dia. Sei até a data do teu retorno. Mas neste instante preciso de registar a profunda letargia em que mergulho, enquanto não chegas.

Comptine d'un autre été , Yann Tiersen

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