28 fevereiro, 2010

8 ou 80

Meu amor,

Ontem lá fomos sair, lá fomos até Sesimbra. Quando te vi, no nosso canto em Almada, a caminhar na minha direcção, houve alguns instantes em que estivemos entretidos a cumprimentar os outros, e o meu olhar, que foge sempre para o teu, encontrou o teu a fugir para o meu, como foge só quando uso o eyeliner "isso faz-te os olhos maiores", disses-te tu, desajeitado, talvez há um ano atrás. Meu amor...
Foste sentado a meu lado, no carro, como é bonito o conjunto das tuas expressões, os teus gestos, o teu perfil, que tanto amo, e essa fragrância que emana de ti e que não é se não a tua pele e a tua roupa lavada: a tua essência através dos tecidos. Vais a rir-te, a brincar, a gozar com as canções que passam na rádio, vais a cantar a Intervalo, dos Perfume, bem a meu lado. A música muda, é um pop daqueles que cospem palavras sem nexo, diz: I'm still in love with you, boy. Canto-o, espero que não percebas o que significa, é que para mim não é uma mera canção pop, são já três anos, 1, 2, 3, t-r-ê-s, TRÊS anos, a precisar de ti sem te ter aqui. Depois chegamos ao nosso destino e falas-nos das tuas memórias de Sesimbra, de como a tua avó te levava a almoçar numa das esplanadas.
Depois temos a discoteca, e tu danças... como danças, meu amor, toda eu me contorço de orgulho cá dentro e de impulsos quase impossíveis de conter, enquanto danças, com as tuas caretas habituais, com o teu sorriso imperturbável, com os teus movimentos de ancas. Quando te vejo a dançar penso: deus permita que a minha memória grave bem este momento, porque quem me dera poder dizer um dia que um dia estive neste mesmo lugar com o meu futuro marido, futuro pai dos meus filhos, sob holofotes coloridos, com colunas a tinir nos nossos tímpanos e com o chão a tremer sob os nossos pés devido aos dançarinos em redor. Depois, é hora de voltar, meu amor.
Bebeste demais. Corro para a praia, as ondas baixaram, já não chegam à calçada, e eu atrevo-me a correr, de meias de vidro, sapatos na mão, para o mar. Corro a acompanhá-lo, estou tão viva, tão feliz que voltaste que parece que ninguém poderia roubar-me isso. Quando chego perto do carro, estás inclinado sobre ti próprio e vomitas. Quero juntar-me a ti, quero estar contigo a cada instante, testemunhar o teu bem e o teu mal. E, embora discorde das coisas que te levam a esse estado, quero falar-te baixo nesse momento. Por isso, sento-me no muro a teu lado, fico mais alta que tu. Vomitas, fazes ruídos estranhos. Surpreendentemente, não me enojo. O carinho que sinto por ti ultrapassa o que possa sentir por qualquer pessoa ou criatura, tanto que não controlo o impulso de estender a mão e acariciar-te o cabelo. Não te manifestas, se estivesses bem talvez te manifestasses: não gostas que te mexam no cabelo. Depois, ajudo-te a sentar no teu lugar no carro, levo-te o casaco, acomodo-te. Vais de janela aberta, vais de perfil, e eu amo-te. Tens o cabelo remexido, as mãos mortas no colo, os olhos fechados, e eu amo-te. Metem-se contigo e tu não consegues responder, mas eu sei que estás consciente, que nos ouves, e eu amo-te. Estendo-te um lenço e tu recusas, não sabes o que é, digo-te que é um lenço, abres a mão e ponho-to lá, e eu amo-te. Pouso a mão no teu braço, como se te apoiasse, como se tu precisasses do meu apoio, bem sabes que te amo. Desces uma vez mais do carro, vais vomitar lá fora, vejo-te em contra luz, os teus contornos, tu contra a grade de uma propriedade, vomitas, cospes, gemes, e eu, sentada no carro, não consigo deixar de te amar. Quem me dera que, depois de dançares na estrada, ao reentrar no carro voltasses a fechar os olhos mas com a cabeça nos meus ombros ou no meu peito. Quem me dera poder acariciar-te o cabelo ou a mão até regressar-mos a casa, meu amor. Desejo-te tanto, amo-te tanto...

E tu aí, indiferente a tudo isto que me consome,
meu amor...

17 fevereiro, 2010

The Scientist

Príncipe,

Estás quase a regressar. Na fila da farmácia, hoje, de mãos nos bolsos, dei comigo a fitar um quadro que não parece ter uma utilidade definida. Tinha indicadores como "fogo", "avaria", "AC", seja o que for. Enquanto olhava para o quadro, lembrei-me de ti. Lembrei-me de como as minhas palavras, às vezes, penetram as infinitas camadas da tua pele até te chegarem ao peito, ou a onde quer que está o teu centro do sentir. Como daquela vez, que disse que gostava que estivesses connosco (querendo dizer comigo) antes de te ires embora para onde foste. E tu, fingindo que as minhas saudades não têm importância, diminuíste essa necessidade ao ponto de ser ridículo ver-nos. Estarias de volta depressa, já nos tínhamos visto ontem, íamos ver-nos amanhã. Mas eu queria tanto ver-te nessa noite... não sei fingir argumentos, acho que a minha fome de ti transparece. Queres que racionalize, racionalizas, mas eu não chego lá. No fundo, sei que me expressei bem e que me entendeste. Quando não souberes o que fala em mim, sabe que é o amor, e hás-de compreender tudo. Nessa noite, contudo, estavas dentro do carro que parou à minha porta. Só te vi, corri para ti, a querer manter-me distante, rígida, mas corri para ti, inclinei-me na janela e beijei-te o rosto. Depois, já está: o meu momento alto da noite já passou. Recupero os fragmentos de auto-controle que se estilhaçaram quando te vi, sorrio, ninguém me pode roubar esse sorriso do rosto, ninguém pode sequer compreendê-lo, mas ninguém duvida da causa desse sorriso... Falo com naturalidade, por meias palavras (não quero mostrar-me demasiado entusiasmada) digo: sim, não, talvez. Quando posso, olho-te. Quando descanço, a minha alma procura-te, quer desesperadamente saber que estás no mesmo lugar. Quando fecho os olhos, vejo-te. E olha só, tu a voltares seis meses depois... e eu aqui, no mesmo lugar, nem consegui fechar a porta por onde saíste, pior, nem sequer consegui sair de trás dela, pior, nem sequer consegui deixar de espreitar, pior, nem sequer consegui deixar de perguntar a cada um que passava se virias tu atrás. E agora, que regressas, com que cara encaro o mundo? Tu vens com as tuas lembranças, as tuas saudades... vens em busca de abraços, e eu posso não ser uma das pessoas que queres abraçar. Vou ficar tão desiludida... Trazes-me o livro que te pedi? Sim, traz-mo, não te esqueças. Mas, para além de o assinares, como pedi, deixa-me pagar-to, por favor.

Não me faças viver com a memória de um livro na prateleira oferecido por ti. Não me faças acreditar que o local de onde ele veio te pertence e está impregnado de ti... deixa-me acreditar que isso é só esta cidade, saturada, à beira Tejo. Deixa-me crer que isso de estares em cada esquina, em cada associação de ideias, é exclusivo deste país pequeno à beira do oceano. Deixa-me crer que, se fugir para suficientemente longe, não estás lá e, com a certeza da impossibilidade, talvez possa dormir sem esperar que estejas...

Saudade,
príncipe encantado...

06 fevereiro, 2010

Mudemos, amor

Meu amor,

Deus nos livre de nos queimar-mos. Mas a pior forma de nos queimar-mos, seria descobrir fogo em nós e deixá-lo morrer. E se nos beijássemos, algum dia? E se essa realidade fugisse aos meus últimos pensamentos antes de dormir e viesse a existir num recanto qualquer? E se, com estrelas no olhar, noite cerrada, nos vissemos a par com silêncio, além das nossas respirações baixas, ansiosas, e com a mão do outro na nossa? E se, meu amor... isso te entusiasmasse tanto, te elevasse tanto, como me eleva a mim só de imaginar?

E se, um dia, eu mudasse por ti e tu mudasses por mim? E se eu aprendesse a poupar dinheiro? E se eu aprendesse a ouvir antes de opinar? E se eu aprendesse a ficar calada quando não sou chamada ao assunto? E se eu aprendesse a esconder as minhas simpatias? E se eu aprendesse a guardar os meus segredos, os nossos segredos? E se tu me ensinasses tudo isto? E se um dia tu ganhasses vontade de correr numa rua sem luz numa noite de verão, de braços abertos, a cantar a canção que te vai na alma? E se, meu amor, sentisses urgência de mergulhar no mar de madrugada? E se te posicionasses, se a tua opinião fosse tão veemente que não conseguisses omiti-la? E se começasses a ler livros e a discuti-los comigo? E se eu te ensinasse tudo isto?

Que perfeitos seríamos, meu príncipe, se me achasses marco a seguir. Podia ser os teus marcos miliares. Como queria poder dançar contigo, descalça, na praia, sob as estrelas. Como queria mergulhar no mar à noite, só os astros como testemunhas, nua, contigo. Como queria voltar a sentir essa liberdade. Como queria poder fazer amor contigo, sabendo que depois todas as portas estariam abertas, que depois eu seria a tua estrela polar e tua minha, que a nossa direcção seria a mesma, que não haveria embaraços nem arrependimentos, que tu nao eras assim nem eu sou assim. Meu amor...

Dá-me a mão, deixa-me beijar-te o pescoço ao de leve numa manhã nublada numa estação de comboios qualquer. Deixa-me apertar-te a mão enquanto deslizo para o sono. Deixa-me pousar a cabeça no teu ombro quando me emociono, no cinema. Deixa-me sorrir abertamente quando falo de ti, como se já não me estivesses vedado. Deixa-me pousar os lábios na tua tatuagem, deixa que me apaixone por ela, como acabei por me apaixonar pelo teu brinco, aquele tão irreverente que comecei por odiar. Deixa-me escolher não seguir os teus conselhos e errar contigo, quando ambos sabemos que seria melhor escolher outro caminho. Deixa-me dar-te os bons dias em italiano, deixa-me aprender a cozinhar para ser a mulher ideal para ti, deixa-me ser mãe dos teus filhos, deixa que guie a tua mão até ao meu ventre, deixa-te ser o mundo para mim, deixa que isso não seja doentio nem errado nem indesejado nem incómodo nem embaraçoso nem um contra-tempo nas nossas histórias pessoais. Deixa que os teus lábios conheçam de cor o sabor da minha pele e que as minhas lágrimas rolem nos teus ombros quando for preciso. Deixa que o sopro de vida em mim, que as correntes de memórias em mim, fluam para ti em noites de inverno. Deixa que o nosso império seja construído sobre o meu e sobre o teu suor, deixa que as consequências recaiam sobre os dois. Deixa que esteja ao teu lado, quando envelheceres. Deixa que te enderece cartas de amor sem incomodar ninguém, deixa-te até ficar feliz quando as receberes, com um beijo meu no verso. Deixa que o meu perfume seja aquele que achas que combina melhor comigo, e que a minha pintura flua do pincel ao sabor da inspiração que me trazes. Deixa que o carvão nos meus dedos te pinte e que esse quadro sejas tu e não uma fantasia minha. Deixa que tenhamos tempo para nos conhecermos e para conhecermos o mundo juntos. Deixa que os momentos que nos vi no passado ganhem sentido, sejam matéria e não vento, ilusão. Deixa que te ame, tanto como amo, sem que seja crime. Sem que mate, sem que fira, sem que doa, sem que embarace, sem que seja errar, sem que não esteja previsto nas entrelinhas do universo. Deixa que te ame, tanto como te amo, e deixa que este milagre tenha razão de ser e pernas para andar.

Meu amor....
Se o universo escrevesse romances ao invés de tragédias...