17 fevereiro, 2010

The Scientist

Príncipe,

Estás quase a regressar. Na fila da farmácia, hoje, de mãos nos bolsos, dei comigo a fitar um quadro que não parece ter uma utilidade definida. Tinha indicadores como "fogo", "avaria", "AC", seja o que for. Enquanto olhava para o quadro, lembrei-me de ti. Lembrei-me de como as minhas palavras, às vezes, penetram as infinitas camadas da tua pele até te chegarem ao peito, ou a onde quer que está o teu centro do sentir. Como daquela vez, que disse que gostava que estivesses connosco (querendo dizer comigo) antes de te ires embora para onde foste. E tu, fingindo que as minhas saudades não têm importância, diminuíste essa necessidade ao ponto de ser ridículo ver-nos. Estarias de volta depressa, já nos tínhamos visto ontem, íamos ver-nos amanhã. Mas eu queria tanto ver-te nessa noite... não sei fingir argumentos, acho que a minha fome de ti transparece. Queres que racionalize, racionalizas, mas eu não chego lá. No fundo, sei que me expressei bem e que me entendeste. Quando não souberes o que fala em mim, sabe que é o amor, e hás-de compreender tudo. Nessa noite, contudo, estavas dentro do carro que parou à minha porta. Só te vi, corri para ti, a querer manter-me distante, rígida, mas corri para ti, inclinei-me na janela e beijei-te o rosto. Depois, já está: o meu momento alto da noite já passou. Recupero os fragmentos de auto-controle que se estilhaçaram quando te vi, sorrio, ninguém me pode roubar esse sorriso do rosto, ninguém pode sequer compreendê-lo, mas ninguém duvida da causa desse sorriso... Falo com naturalidade, por meias palavras (não quero mostrar-me demasiado entusiasmada) digo: sim, não, talvez. Quando posso, olho-te. Quando descanço, a minha alma procura-te, quer desesperadamente saber que estás no mesmo lugar. Quando fecho os olhos, vejo-te. E olha só, tu a voltares seis meses depois... e eu aqui, no mesmo lugar, nem consegui fechar a porta por onde saíste, pior, nem sequer consegui sair de trás dela, pior, nem sequer consegui deixar de espreitar, pior, nem sequer consegui deixar de perguntar a cada um que passava se virias tu atrás. E agora, que regressas, com que cara encaro o mundo? Tu vens com as tuas lembranças, as tuas saudades... vens em busca de abraços, e eu posso não ser uma das pessoas que queres abraçar. Vou ficar tão desiludida... Trazes-me o livro que te pedi? Sim, traz-mo, não te esqueças. Mas, para além de o assinares, como pedi, deixa-me pagar-to, por favor.

Não me faças viver com a memória de um livro na prateleira oferecido por ti. Não me faças acreditar que o local de onde ele veio te pertence e está impregnado de ti... deixa-me acreditar que isso é só esta cidade, saturada, à beira Tejo. Deixa-me crer que isso de estares em cada esquina, em cada associação de ideias, é exclusivo deste país pequeno à beira do oceano. Deixa-me crer que, se fugir para suficientemente longe, não estás lá e, com a certeza da impossibilidade, talvez possa dormir sem esperar que estejas...

Saudade,
príncipe encantado...

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