Ontem lá fomos sair, lá fomos até Sesimbra. Quando te vi, no nosso canto em Almada, a caminhar na minha direcção, houve alguns instantes em que estivemos entretidos a cumprimentar os outros, e o meu olhar, que foge sempre para o teu, encontrou o teu a fugir para o meu, como foge só quando uso o eyeliner "isso faz-te os olhos maiores", disses-te tu, desajeitado, talvez há um ano atrás. Meu amor...
Foste sentado a meu lado, no carro, como é bonito o conjunto das tuas expressões, os teus gestos, o teu perfil, que tanto amo, e essa fragrância que emana de ti e que não é se não a tua pele e a tua roupa lavada: a tua essência através dos tecidos. Vais a rir-te, a brincar, a gozar com as canções que passam na rádio, vais a cantar a Intervalo, dos Perfume, bem a meu lado. A música muda, é um pop daqueles que cospem palavras sem nexo, diz: I'm still in love with you, boy. Canto-o, espero que não percebas o que significa, é que para mim não é uma mera canção pop, são já três anos, 1, 2, 3, t-r-ê-s, TRÊS anos, a precisar de ti sem te ter aqui. Depois chegamos ao nosso destino e falas-nos das tuas memórias de Sesimbra, de como a tua avó te levava a almoçar numa das esplanadas.
Depois temos a discoteca, e tu danças... como danças, meu amor, toda eu me contorço de orgulho cá dentro e de impulsos quase impossíveis de conter, enquanto danças, com as tuas caretas habituais, com o teu sorriso imperturbável, com os teus movimentos de ancas. Quando te vejo a dançar penso: deus permita que a minha memória grave bem este momento, porque quem me dera poder dizer um dia que um dia estive neste mesmo lugar com o meu futuro marido, futuro pai dos meus filhos, sob holofotes coloridos, com colunas a tinir nos nossos tímpanos e com o chão a tremer sob os nossos pés devido aos dançarinos em redor. Depois, é hora de voltar, meu amor.
Bebeste demais. Corro para a praia, as ondas baixaram, já não chegam à calçada, e eu atrevo-me a correr, de meias de vidro, sapatos na mão, para o mar. Corro a acompanhá-lo, estou tão viva, tão feliz que voltaste que parece que ninguém poderia roubar-me isso. Quando chego perto do carro, estás inclinado sobre ti próprio e vomitas. Quero juntar-me a ti, quero estar contigo a cada instante, testemunhar o teu bem e o teu mal. E, embora discorde das coisas que te levam a esse estado, quero falar-te baixo nesse momento. Por isso, sento-me no muro a teu lado, fico mais alta que tu. Vomitas, fazes ruídos estranhos. Surpreendentemente, não me enojo. O carinho que sinto por ti ultrapassa o que possa sentir por qualquer pessoa ou criatura, tanto que não controlo o impulso de estender a mão e acariciar-te o cabelo. Não te manifestas, se estivesses bem talvez te manifestasses: não gostas que te mexam no cabelo. Depois, ajudo-te a sentar no teu lugar no carro, levo-te o casaco, acomodo-te. Vais de janela aberta, vais de perfil, e eu amo-te. Tens o cabelo remexido, as mãos mortas no colo, os olhos fechados, e eu amo-te. Metem-se contigo e tu não consegues responder, mas eu sei que estás consciente, que nos ouves, e eu amo-te. Estendo-te um lenço e tu recusas, não sabes o que é, digo-te que é um lenço, abres a mão e ponho-to lá, e eu amo-te. Pouso a mão no teu braço, como se te apoiasse, como se tu precisasses do meu apoio, bem sabes que te amo. Desces uma vez mais do carro, vais vomitar lá fora, vejo-te em contra luz, os teus contornos, tu contra a grade de uma propriedade, vomitas, cospes, gemes, e eu, sentada no carro, não consigo deixar de te amar. Quem me dera que, depois de dançares na estrada, ao reentrar no carro voltasses a fechar os olhos mas com a cabeça nos meus ombros ou no meu peito. Quem me dera poder acariciar-te o cabelo ou a mão até regressar-mos a casa, meu amor. Desejo-te tanto, amo-te tanto...
E tu aí, indiferente a tudo isto que me consome,
meu amor...
Foste sentado a meu lado, no carro, como é bonito o conjunto das tuas expressões, os teus gestos, o teu perfil, que tanto amo, e essa fragrância que emana de ti e que não é se não a tua pele e a tua roupa lavada: a tua essência através dos tecidos. Vais a rir-te, a brincar, a gozar com as canções que passam na rádio, vais a cantar a Intervalo, dos Perfume, bem a meu lado. A música muda, é um pop daqueles que cospem palavras sem nexo, diz: I'm still in love with you, boy. Canto-o, espero que não percebas o que significa, é que para mim não é uma mera canção pop, são já três anos, 1, 2, 3, t-r-ê-s, TRÊS anos, a precisar de ti sem te ter aqui. Depois chegamos ao nosso destino e falas-nos das tuas memórias de Sesimbra, de como a tua avó te levava a almoçar numa das esplanadas.
Depois temos a discoteca, e tu danças... como danças, meu amor, toda eu me contorço de orgulho cá dentro e de impulsos quase impossíveis de conter, enquanto danças, com as tuas caretas habituais, com o teu sorriso imperturbável, com os teus movimentos de ancas. Quando te vejo a dançar penso: deus permita que a minha memória grave bem este momento, porque quem me dera poder dizer um dia que um dia estive neste mesmo lugar com o meu futuro marido, futuro pai dos meus filhos, sob holofotes coloridos, com colunas a tinir nos nossos tímpanos e com o chão a tremer sob os nossos pés devido aos dançarinos em redor. Depois, é hora de voltar, meu amor.
Bebeste demais. Corro para a praia, as ondas baixaram, já não chegam à calçada, e eu atrevo-me a correr, de meias de vidro, sapatos na mão, para o mar. Corro a acompanhá-lo, estou tão viva, tão feliz que voltaste que parece que ninguém poderia roubar-me isso. Quando chego perto do carro, estás inclinado sobre ti próprio e vomitas. Quero juntar-me a ti, quero estar contigo a cada instante, testemunhar o teu bem e o teu mal. E, embora discorde das coisas que te levam a esse estado, quero falar-te baixo nesse momento. Por isso, sento-me no muro a teu lado, fico mais alta que tu. Vomitas, fazes ruídos estranhos. Surpreendentemente, não me enojo. O carinho que sinto por ti ultrapassa o que possa sentir por qualquer pessoa ou criatura, tanto que não controlo o impulso de estender a mão e acariciar-te o cabelo. Não te manifestas, se estivesses bem talvez te manifestasses: não gostas que te mexam no cabelo. Depois, ajudo-te a sentar no teu lugar no carro, levo-te o casaco, acomodo-te. Vais de janela aberta, vais de perfil, e eu amo-te. Tens o cabelo remexido, as mãos mortas no colo, os olhos fechados, e eu amo-te. Metem-se contigo e tu não consegues responder, mas eu sei que estás consciente, que nos ouves, e eu amo-te. Estendo-te um lenço e tu recusas, não sabes o que é, digo-te que é um lenço, abres a mão e ponho-to lá, e eu amo-te. Pouso a mão no teu braço, como se te apoiasse, como se tu precisasses do meu apoio, bem sabes que te amo. Desces uma vez mais do carro, vais vomitar lá fora, vejo-te em contra luz, os teus contornos, tu contra a grade de uma propriedade, vomitas, cospes, gemes, e eu, sentada no carro, não consigo deixar de te amar. Quem me dera que, depois de dançares na estrada, ao reentrar no carro voltasses a fechar os olhos mas com a cabeça nos meus ombros ou no meu peito. Quem me dera poder acariciar-te o cabelo ou a mão até regressar-mos a casa, meu amor. Desejo-te tanto, amo-te tanto...
E tu aí, indiferente a tudo isto que me consome,
meu amor...

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