Acho que tenho o coração partido em mais um caco. Meu amor, estou cheia de medo. Um medo irracional, um medo como vertigem, um medo que me apetece transmitir-se, se isso fizesse sentido, se tu compreendesses e me acalmasses.
Ontem vínhamos no carro, foram os anos da V. Arrisco dizer que foi dos nossos dias mais felizes, mas a culpa é minha que meto estrelas em tudo, não farias o mesmo por uma amiga qualquer tua? Eu estava sentada dentro do carro e tu a dançar lá fora, de braços no ar, o casaco largo, a camisola aberta no colarinho, os boxeres a surgirem acima das calças de ganga. Dançavas e as tuas ancas baloiçavam, os teus joelhos balançavam. A dada altura, paras do meu lado do carro, onde eu estava sentada. Abres a porta e estendes-me a mão, num convite. Olho para a tua mãe, olho para ti. Estendo-ta. Puxas-me com força para ti, és meio brusco meu amor, mas isso não te desfeia em nada, dá-te até um certo encanto. Vais-me fazendo dançar ao teu ritmo, a minha mão na tua mão, às vezes as duas. Puxas o meu braço sobre a tua cabeça e dás uma volta, ocasionalmente, fazes o teu braço dar uma volta sobre a minha. Penso: somos tão perfeitos um para o outro que o meu braço passa sem grande dificuldade sobre a cabeça dele: num homem mais alto, não seria possível. Tiro-te o penso do rosto e meto-to no nariz, tu aquiesces. O penso cai. Continuas a dançar e começa uma das músicas que gosto e que sei que também gostas: The Outfield - Your Love. Cantamos os dois e dançamos, já separados. Depois a viagem começa e eu vou no meio, contigo a lutar com o cinto e eu também, pelo que as nossas mãos se encontram no pouco espaço disponível para enganchar o cinto, peço-te desculpas por te tocar e tu, em seguida, abres a mão num gesto que abarca o meu corpo e eu estremeço e calo-me voluntariamente. Disseste alguma coisa provocativa entretanto, mas não me apercebi. Aliás, tudo já havia começado em Almada, quando, ao balcão do café, disseste qualquer coisa que me irritou, ameacei bater-te no rosto e tu disseste: C., se me bateres juro que te dispo toda à frente de toda a gente, há-de ser a vergonha da tua vida. Eu ri-me para ti, como não podia deixar de ser: G., isso é demasiado tentador, disse, e dei-te a bofetada com força suficiente apenas para te provocar. Pegaste-me ao colo, inclinaste os braços até eu ficar com a cabeça quase no chão e as pernas no ar. Não gritei alto, estavamos no café e eu, sinceramente, estava a adorar. É das melhores coisas do mundo, provocar-te. Nem vale a pena mentir, tu sabes que eu não resisto ao teu olhar semicerrado de provocação. Depois, no carro, além disso, deste-me um beliscão no mesmo sítio, desde uma palmada "ampla" nas minhas pernas e puseste-me debaixo do braço enquanto cantavas, e esse foi o melhor momento, porque enquanto o fazias tinha uma mão na tua, no teu colo, e tu agarrava-la, e eu agarrava a tua que me passou no ombro. Enfim, bem sabes que, infelizmente, ainda te amo. O nosso amigo J. bem disse, quando te vi em cima do caixote do lixo e te implorei que descesses: O teu problema é ainda te importares com ele. Mas o momento «alto» da noite, o que me deixou com este peso que tenho hoje, foi aquele em que voltaste a mencionar um gajo que a V. «comeu», segundo palavras tuas, íamos os cinco no carro, ao que ela respondeu: Oh, eles falavam de tudo. O teu nome também andou pelo meio, C. E eu acrescentei: de certeza que não andou. E ela continuou: olha que acho que sim. E tu apanhaste a deixa, e começaste com o teu histerismo de coscuvilheiro: AHHHH, quem é que a C. comeu? Aha, diz lá. Claro que não to disse, ao que tu disseste: vou ligar ao R. que ele diz-me já, e encenaste uma chamada que eu não desconfiei, com falsidades como «Sim, sim, estou a vir agora de Lisboa, fomos a Santos chavalo... olha... QUEM É QUE A C. COMEU?» seguido de risadas (que excelente actor és) «A sério chavalo? Aha». E desligas a comer com uma chuvada de chapadas minhas no braço «Desgraçado!!!! O que é que ele te disse?». «Disse-me». «Diz lá a primeira letra?». «Começa... olha o sobrenome começa com F.» Encho-te de porrada e tu gritas, triunfante «Ahaaaaaaaa enterraste-te agora!!! É ele? Eia a C. comeu o F.!!!! Eu não lhe liguei».
Depois, começas a gritar que o «f***» (odeio a palavra) - A C. f**** o F.!!! Tavas bêbeda». «Não, não tinha bebido uma gota de álcool». «Eia isso é muita mau, sexo sem amor e sóbrio é muita mau». Calei-me, a conversa fora longe demais e o carro parou. Fui atrás de ti, encostei-te a uma parede e disse-te: «Livra-te de andar a falar disso», «Aha, f****** o F!», «E as muitas que tu já comeste?», «A R.? Eu não f*** a R., mas tu f****** o F.!», «Não, eu não f*** o F., e o que se passou sabes porque foi? Foi porque no dia anterior beijaste a R. na cama ao lado da minha, estava magoada.» E foi aí que tu disseste: «Então és uma PORCA, foi vingança». «Não, seria vingança se te acertasse, se te magoasse, agora tarmos aqui a falar de uma coisa de há três anos...! E eu não o f***».
Não foi vingança, meu amor, foi conforto. Quis sentir-me só um bocadinho querida por alguém, não foi sexo sem amor, não chegou a nada disso. Eu sou a mesma de sempre, podes acreditar, como acreditaste até ontem, que eu, tal como as minhas melhores amigas, somos únicas em muitas coisas, demasiado boas para acreditar que seja verdade em muitas coisas. Soa arrogante, mas é a verdade, vejo-o observando as minhas melhores amigas, tão parecidas comigo, e sentindo o orgulho que sinto por elas.
Agora, fala comigo: eu quero dizer-te que não foi vingança, foi consolo.
Porque o meu mal, continua a ser gostar demais de ti.
Love of my love, you've hurt me.
You've broken my heart and now you leave me...
PS - tenho medo que penses que sou outra pessoa e tenho medo que te vingues com alguma numa próxima oportunidade... lembra-te que o simples bater das tuas asas derruba-me.