24 abril, 2010

Back sit

Meu amor,

Continuo com medo. Até há alguns dias, parece que andava adormecida. Depois de ter ido falar contigo naquele dia à tua rua, tudo mudou. Oscilamos de momentos em que estás super azedo, para momentos em que sinto carinho a emanar de ti. Orgulho-me tanto de ti... chega a ser inexplicável, são tantas coisas, devem chegar a um milhão. Tu vês tudo, tu sabes quase tudo, estudas o mundo através dos teus olhinhos semicerrados que, nessas situações, parecem estrelas cintilantes. Sabes tanto, de tanto... Pensei que não haveria um homem assim para mim, sabes? Ainda que não pertençamos um ao outro (será que alguém pertence a alguém?) continuas a ser perfeito. Percebo tão bem que vejas o limite e que, ainda assim, não evites pisá-lo, quanto sei que sou igualmente incapaz de evitá-lo.

É o ambiente entre nós que me dá medo. São as conversas, são demasiados sinais (ou não), mixed sinals. Parece, por vezes, que podemos magoar-nos mutuamente, que podemos decepcionarmos mutuamente, em coisas mínimas, em coisas cuja nossa sensibilidade, única na sua sintonia, pode compreender. Coisas que perdoaria a qualquer um, mas não a ti, e coisas que se calhar perdoarias a qualquer uma, menos a mim; porque ambos esperamos mais do outro. Como quando entrei hoje no carro e a primeira coisa que me disseste foi:
- Estás bonita, hoje - com uma voz que não deu margem para gozo.
Hoje vi o fogo-de-artifício do 25 de Abril com a tua cabeça recortada contra as luzes, o teu cabelo a encaracolar nas orelhas, a seguir em direcções opostas. Ali estavas, num momento comovente devido a todo o seu significado, e eu sentada numas escadas a cerca de dois metros de ti, a ver História a ser comemorada, a pensar que algum dia alguém ganhou coragem para por as coisas a mover, e pensar: eu e ele, quem me dera poder levantar-me, ir procurar abrigo debaixo do braço dele, beijá-lo e sorrir, e bastaria para que entendessemos a emoção mútua nesse instante.

Depois, enquanto me levavas a mim e à Ana debaixo do braço, a brincar connosco, apoiei a mão na tua, que me passava no ombro, e apertaste-a. Não o suficiente para a aleijar, como às vezes fazes, mas ainda assim, de modo tão desajeitado que não foi sinal algum. Uma vez sonhei que me apertavas a mão, num local público, e era esse o teu sinal para que ficaríamos juntos. A partir daquele instante, já me senti tua (se é que, repito, as pessoas pertencem umas às outras). A minha avó hoje disse que quem faz um biquinho na raiz do cabelo, sobre a testa, é porque vai ficar viúvo. Se ficar viúva de ti, morro no mesmo dia. Quero que a nossa vida se separe apenas pelos onze meses e quinze dias que viveste a mais que eu. Quero que, se depender de mim (atenção, se fosse eu primeiro queria que ficasses, e sei que ficarias porque tens mais juízo que eu) ficamos cá até ao mesmo dia. Depois partimos.

Já no carro, seguíamos novamente juntos atrás e, além das tuas ordinarices, começaste a falar sério:
- Gostava de ter ido ver um bocado de Oquestrada, para saber o que é.
- Porque é que não disseste? Eu disse, ninguém quis ir!
- E então? Ías para lá sozinho comigo?
- Então não tinha ido? Dançava contigo, C.
- Era hoje, então.
- Era hoje.

A tua solicitude pode ser duas coisas, tal como o teu crescente atrevimento também pode ser. Se não fosses tão difícil, seria fácil de decifrar:
Ou é um decréscimo de respeito (devido ao facto de nos julgares encarrilhados no papel de amigos, ao qual ainda não me habituei bem),
ou o incremento de amor.

Da minha parte,
não podia amar-te mais.

Pesadelo

Acho que tenho o coração partido em mais um caco. Meu amor, estou cheia de medo. Um medo irracional, um medo como vertigem, um medo que me apetece transmitir-se, se isso fizesse sentido, se tu compreendesses e me acalmasses.

Ontem vínhamos no carro, foram os anos da V. Arrisco dizer que foi dos nossos dias mais felizes, mas a culpa é minha que meto estrelas em tudo, não farias o mesmo por uma amiga qualquer tua? Eu estava sentada dentro do carro e tu a dançar lá fora, de braços no ar, o casaco largo, a camisola aberta no colarinho, os boxeres a surgirem acima das calças de ganga. Dançavas e as tuas ancas baloiçavam, os teus joelhos balançavam. A dada altura, paras do meu lado do carro, onde eu estava sentada. Abres a porta e estendes-me a mão, num convite. Olho para a tua mãe, olho para ti. Estendo-ta. Puxas-me com força para ti, és meio brusco meu amor, mas isso não te desfeia em nada, dá-te até um certo encanto. Vais-me fazendo dançar ao teu ritmo, a minha mão na tua mão, às vezes as duas. Puxas o meu braço sobre a tua cabeça e dás uma volta, ocasionalmente, fazes o teu braço dar uma volta sobre a minha. Penso: somos tão perfeitos um para o outro que o meu braço passa sem grande dificuldade sobre a cabeça dele: num homem mais alto, não seria possível. Tiro-te o penso do rosto e meto-to no nariz, tu aquiesces. O penso cai. Continuas a dançar e começa uma das músicas que gosto e que sei que também gostas: The Outfield - Your Love. Cantamos os dois e dançamos, já separados. Depois a viagem começa e eu vou no meio, contigo a lutar com o cinto e eu também, pelo que as nossas mãos se encontram no pouco espaço disponível para enganchar o cinto, peço-te desculpas por te tocar e tu, em seguida, abres a mão num gesto que abarca o meu corpo e eu estremeço e calo-me voluntariamente. Disseste alguma coisa provocativa entretanto, mas não me apercebi. Aliás, tudo já havia começado em Almada, quando, ao balcão do café, disseste qualquer coisa que me irritou, ameacei bater-te no rosto e tu disseste: C., se me bateres juro que te dispo toda à frente de toda a gente, há-de ser a vergonha da tua vida. Eu ri-me para ti, como não podia deixar de ser: G., isso é demasiado tentador, disse, e dei-te a bofetada com força suficiente apenas para te provocar. Pegaste-me ao colo, inclinaste os braços até eu ficar com a cabeça quase no chão e as pernas no ar. Não gritei alto, estavamos no café e eu, sinceramente, estava a adorar. É das melhores coisas do mundo, provocar-te. Nem vale a pena mentir, tu sabes que eu não resisto ao teu olhar semicerrado de provocação. Depois, no carro, além disso, deste-me um beliscão no mesmo sítio, desde uma palmada "ampla" nas minhas pernas e puseste-me debaixo do braço enquanto cantavas, e esse foi o melhor momento, porque enquanto o fazias tinha uma mão na tua, no teu colo, e tu agarrava-la, e eu agarrava a tua que me passou no ombro. Enfim, bem sabes que, infelizmente, ainda te amo. O nosso amigo J. bem disse, quando te vi em cima do caixote do lixo e te implorei que descesses: O teu problema é ainda te importares com ele. Mas o momento «alto» da noite, o que me deixou com este peso que tenho hoje, foi aquele em que voltaste a mencionar um gajo que a V. «comeu», segundo palavras tuas, íamos os cinco no carro, ao que ela respondeu: Oh, eles falavam de tudo. O teu nome também andou pelo meio, C. E eu acrescentei: de certeza que não andou. E ela continuou: olha que acho que sim. E tu apanhaste a deixa, e começaste com o teu histerismo de coscuvilheiro: AHHHH, quem é que a C. comeu? Aha, diz lá. Claro que não to disse, ao que tu disseste: vou ligar ao R. que ele diz-me já, e encenaste uma chamada que eu não desconfiei, com falsidades como «Sim, sim, estou a vir agora de Lisboa, fomos a Santos chavalo... olha... QUEM É QUE A C. COMEU?» seguido de risadas (que excelente actor és) «A sério chavalo? Aha». E desligas a comer com uma chuvada de chapadas minhas no braço «Desgraçado!!!! O que é que ele te disse?». «Disse-me». «Diz lá a primeira letra?». «Começa... olha o sobrenome começa com F.» Encho-te de porrada e tu gritas, triunfante «Ahaaaaaaaa enterraste-te agora!!! É ele? Eia a C. comeu o F.!!!! Eu não lhe liguei».

Depois, começas a gritar que o «f***» (odeio a palavra) - A C. f**** o F.!!! Tavas bêbeda». «Não, não tinha bebido uma gota de álcool». «Eia isso é muita mau, sexo sem amor e sóbrio é muita mau». Calei-me, a conversa fora longe demais e o carro parou. Fui atrás de ti, encostei-te a uma parede e disse-te: «Livra-te de andar a falar disso», «Aha, f****** o F!», «E as muitas que tu já comeste?», «A R.? Eu não f*** a R., mas tu f****** o F.!», «Não, eu não f*** o F., e o que se passou sabes porque foi? Foi porque no dia anterior beijaste a R. na cama ao lado da minha, estava magoada.» E foi aí que tu disseste: «Então és uma PORCA, foi vingança». «Não, seria vingança se te acertasse, se te magoasse, agora tarmos aqui a falar de uma coisa de há três anos...! E eu não o f***».

Não foi vingança, meu amor, foi conforto. Quis sentir-me só um bocadinho querida por alguém, não foi sexo sem amor, não chegou a nada disso. Eu sou a mesma de sempre, podes acreditar, como acreditaste até ontem, que eu, tal como as minhas melhores amigas, somos únicas em muitas coisas, demasiado boas para acreditar que seja verdade em muitas coisas. Soa arrogante, mas é a verdade, vejo-o observando as minhas melhores amigas, tão parecidas comigo, e sentindo o orgulho que sinto por elas.

Agora, fala comigo: eu quero dizer-te que não foi vingança, foi consolo.

Porque o meu mal, continua a ser gostar demais de ti.

Love of my love, you've hurt me.
You've broken my heart and now you leave me...

PS - tenho medo que penses que sou outra pessoa e tenho medo que te vingues com alguma numa próxima oportunidade... lembra-te que o simples bater das tuas asas derruba-me.

20 abril, 2010

Diálogo

Eu e tu num lar, um dia, será algo assim:

Eu: comeste a canja toda ao almoço?
Tu: o que é que te interessa o que é que eu comi?
Eu: vá, diz lá se comeste tudo ou não.
Tu: agora não digo.
Eu: comeste o raio da canja ou não? não ouviste o médico ontem?
Tu: é evidente que ouvi, ao contrário do que pensas não sou surdo. e tu, ouviste-o dizer que ainda tenho o juízo perfeito?
Eu: só estou preocupada, comeste ou não?
Tu: não te preocupes.
Eu: não vais responder?
Tu: não vais parar de perguntar?
Eu: não. respondes?
Tu: não.
Passados cinco minutos em que as enfermeiras ponderam se devem dar-nos um Xanax a cada, viro-me para ti com naturalidade.
Eu: estava a recordar quando nos conhecemos...
Tu: ai sim? não vale a pena pensar no passado.
Eu: também dizias que não valia a pena pensar no futuro.
Tu: e então?
Eu: e então??? não estamos aqui?
Tu: e então? pensar adianta alguma coisa?
Eu: então devemos pensar sobre o quê?
Tu: sei lá, sou deficiente, não penso.
Eu: é, dás os passos com palas nos olhos, como os burros.
Tu: isso, chama-me tudo.
Eu: ainda não me respondeste se comeste a canja ou não.
Tu: nem respondo.
Eu: ai não respondes?
Tu: não.
Eu: e deixas-me aqui toda preocupada.
Tu: só te preocupas porque queres, eu cá não me preocupo.
Eu: diz lá, comeste ou não?
Tu: comi, comi, comi.
Eu: com essa ironia não entendo nada, comeste ou não?
Tu: comi, comi.
Eu: a sério?
Tu: pronto, não comi.
Eu: tão afinal comeste ou não?
Tu: oh mulher deixa-me em paz, o que é que te interessa se comi ou não?
Eu: estou preocupada!!! não ouviste o médico? estás fraco!
Tu: tu é que me deixas fraco, porra.
Eu: portanto, vais deixar-me ir dormir sem saber?
Tu: isso é que devias de estar a fazer: a dormir.
Eu: não dizes?
Tu: não.
Eu: ficamos assim.
Tu: já podias ter percebido há uma hora.
Eu: ok.
Tu: é isso.

E pronto, já somos meio assim hoje.

18 abril, 2010

Efeito Borboleta

Ainda bem que não sabes o quanto me magoas, como se o Efeito Borboleta se personalizasse nisto que ocorre entre nós. A cada vez que fazes algo, ainda que a quilómetros, esse acto evolui como um maremoto e vem atingir-me aqui. Quando dizes algo que possa destroçar o meu peito, dividi-lo em mais cacos ainda, alguém se encarrega de o trazer, ainda que sem querer, até mim. Cheguei ao ponto em que não quero saber, debrucei-me sobre ele e voltei a inquirir tudo. Qual é a solução? Saber para te esquecer, ou saber, aceitar, chorar sobre isso, acordar com mais essa bagagem e amar-te ainda mais no dia a seguir? A cada vez que bates as asas, caio mais um pouco.

Agora a tua amiga lembrou-se de colocar uma legenda numa fotografia que diz “tratas-me como uma princesa, não estou habituada a gostar disso”. És tu, o meu príncipe, quem a trata como uma princesa? Estes longos meses em que vocês os dois parecem cozinhar-se a lume branco, com um passeio, um jantar e um almoço na vossa história, será uma preparação de um futuro, quem sabe, igualmente longo? Recordo-me de te ver, de te avaliar e de te tentar adivinhar um futuro antes de me apaixonar por ti. Recordo-me na perfeição da frase que me saía com toda a naturalidade “o G. vai acabar com uma loira burra”. Nunca compreendi muito bem isto. É uma escolha que se faz na vida, se queres ter alguém à tua altura a teu lado, ou se preferes ser o melhor, o mais inteligente, o mais responsável, o que ganha melhor, o que sabe tudo. Se é isso que queres, ser bom à custa de alguém menor, acabarás com a tal loira burra certamente. Mas espero que tenhas coragem suficiente para abraçar qualquer coisa maior. Como eu (e será isto presunção) há muitas outras pessoas maiores. Pessoas que vivem de aprender e de ensinar, de evoluir. Espero que alguém como eu, um dia em que sejas mais maduro, deixe de ser um desafio tão grande. É que eu mesma, com alguém como tu, seria claramente a mais burra, a mais ingénua, a mais desajeitada. E não me importo, isso importa-me em relação ao restante mundo, mas não em relação a ti. Por ti, abdicaria da minha posição de credível, porque todos prefeririam ouvir-te a ti ao invés de escutarem-me a mim.

Gostava de conseguir escrever algo que expressasse o que sinto, o ciúme, o sentimento de injustiça por parte da ordem do universo e, simultaneamente, o que me garante sã: a certeza que eu é que estou errada, tu não tens que bater as asas de acordo com os ventos que me são favoráveis, tens que viver a tua vida. O meu ciúme é problema meu, se acho que o mundo é uma vez mais injusto e faz maus arranjos, é problema meu. Eu sei disso, mas nada disto atenua a dor com que caminho agora diariamente. Será que foram jantar juntos? Onde está ele, estará com ela? Será que ela vai aparecer-me à frente num café qualquer? Será que, a qualquer momento, na página de redes sociais dela vai surgir uma foto contigo? Uma dedicatória a ti? Palavras que podem, ou não, ser alusivas a ti?

Trata-a como uma princesa, príncipe? Ela é a tua flor, no planeta B16? Coitada de mim, pobre raposa. Às vezes esqueço-me que o principezinho prefere ser picado por uma cobra e voltar para a sua rosa a ficar com a raposa. Sou uma tola, eu. Bem me dizem «nunca mais aprendes…»

PS Eu mantenho-me sempre longe das pessoas quando não me quero envolver, como é que cometes a proeza de te aproximar das pessoas sem sentir nada, no final?