Continuo com medo. Até há alguns dias, parece que andava adormecida. Depois de ter ido falar contigo naquele dia à tua rua, tudo mudou. Oscilamos de momentos em que estás super azedo, para momentos em que sinto carinho a emanar de ti. Orgulho-me tanto de ti... chega a ser inexplicável, são tantas coisas, devem chegar a um milhão. Tu vês tudo, tu sabes quase tudo, estudas o mundo através dos teus olhinhos semicerrados que, nessas situações, parecem estrelas cintilantes. Sabes tanto, de tanto... Pensei que não haveria um homem assim para mim, sabes? Ainda que não pertençamos um ao outro (será que alguém pertence a alguém?) continuas a ser perfeito. Percebo tão bem que vejas o limite e que, ainda assim, não evites pisá-lo, quanto sei que sou igualmente incapaz de evitá-lo.
É o ambiente entre nós que me dá medo. São as conversas, são demasiados sinais (ou não), mixed sinals. Parece, por vezes, que podemos magoar-nos mutuamente, que podemos decepcionarmos mutuamente, em coisas mínimas, em coisas cuja nossa sensibilidade, única na sua sintonia, pode compreender. Coisas que perdoaria a qualquer um, mas não a ti, e coisas que se calhar perdoarias a qualquer uma, menos a mim; porque ambos esperamos mais do outro. Como quando entrei hoje no carro e a primeira coisa que me disseste foi:
- Estás bonita, hoje - com uma voz que não deu margem para gozo.
Hoje vi o fogo-de-artifício do 25 de Abril com a tua cabeça recortada contra as luzes, o teu cabelo a encaracolar nas orelhas, a seguir em direcções opostas. Ali estavas, num momento comovente devido a todo o seu significado, e eu sentada numas escadas a cerca de dois metros de ti, a ver História a ser comemorada, a pensar que algum dia alguém ganhou coragem para por as coisas a mover, e pensar: eu e ele, quem me dera poder levantar-me, ir procurar abrigo debaixo do braço dele, beijá-lo e sorrir, e bastaria para que entendessemos a emoção mútua nesse instante.
Depois, enquanto me levavas a mim e à Ana debaixo do braço, a brincar connosco, apoiei a mão na tua, que me passava no ombro, e apertaste-a. Não o suficiente para a aleijar, como às vezes fazes, mas ainda assim, de modo tão desajeitado que não foi sinal algum. Uma vez sonhei que me apertavas a mão, num local público, e era esse o teu sinal para que ficaríamos juntos. A partir daquele instante, já me senti tua (se é que, repito, as pessoas pertencem umas às outras). A minha avó hoje disse que quem faz um biquinho na raiz do cabelo, sobre a testa, é porque vai ficar viúvo. Se ficar viúva de ti, morro no mesmo dia. Quero que a nossa vida se separe apenas pelos onze meses e quinze dias que viveste a mais que eu. Quero que, se depender de mim (atenção, se fosse eu primeiro queria que ficasses, e sei que ficarias porque tens mais juízo que eu) ficamos cá até ao mesmo dia. Depois partimos.
Já no carro, seguíamos novamente juntos atrás e, além das tuas ordinarices, começaste a falar sério:
- Gostava de ter ido ver um bocado de Oquestrada, para saber o que é.
- Porque é que não disseste? Eu disse, ninguém quis ir!
- E então? Ías para lá sozinho comigo?
- Então não tinha ido? Dançava contigo, C.
- Era hoje, então.
- Era hoje.
A tua solicitude pode ser duas coisas, tal como o teu crescente atrevimento também pode ser. Se não fosses tão difícil, seria fácil de decifrar:
Ou é um decréscimo de respeito (devido ao facto de nos julgares encarrilhados no papel de amigos, ao qual ainda não me habituei bem),
ou o incremento de amor.
Da minha parte,
não podia amar-te mais.
É o ambiente entre nós que me dá medo. São as conversas, são demasiados sinais (ou não), mixed sinals. Parece, por vezes, que podemos magoar-nos mutuamente, que podemos decepcionarmos mutuamente, em coisas mínimas, em coisas cuja nossa sensibilidade, única na sua sintonia, pode compreender. Coisas que perdoaria a qualquer um, mas não a ti, e coisas que se calhar perdoarias a qualquer uma, menos a mim; porque ambos esperamos mais do outro. Como quando entrei hoje no carro e a primeira coisa que me disseste foi:
- Estás bonita, hoje - com uma voz que não deu margem para gozo.
Hoje vi o fogo-de-artifício do 25 de Abril com a tua cabeça recortada contra as luzes, o teu cabelo a encaracolar nas orelhas, a seguir em direcções opostas. Ali estavas, num momento comovente devido a todo o seu significado, e eu sentada numas escadas a cerca de dois metros de ti, a ver História a ser comemorada, a pensar que algum dia alguém ganhou coragem para por as coisas a mover, e pensar: eu e ele, quem me dera poder levantar-me, ir procurar abrigo debaixo do braço dele, beijá-lo e sorrir, e bastaria para que entendessemos a emoção mútua nesse instante.
Depois, enquanto me levavas a mim e à Ana debaixo do braço, a brincar connosco, apoiei a mão na tua, que me passava no ombro, e apertaste-a. Não o suficiente para a aleijar, como às vezes fazes, mas ainda assim, de modo tão desajeitado que não foi sinal algum. Uma vez sonhei que me apertavas a mão, num local público, e era esse o teu sinal para que ficaríamos juntos. A partir daquele instante, já me senti tua (se é que, repito, as pessoas pertencem umas às outras). A minha avó hoje disse que quem faz um biquinho na raiz do cabelo, sobre a testa, é porque vai ficar viúvo. Se ficar viúva de ti, morro no mesmo dia. Quero que a nossa vida se separe apenas pelos onze meses e quinze dias que viveste a mais que eu. Quero que, se depender de mim (atenção, se fosse eu primeiro queria que ficasses, e sei que ficarias porque tens mais juízo que eu) ficamos cá até ao mesmo dia. Depois partimos.
Já no carro, seguíamos novamente juntos atrás e, além das tuas ordinarices, começaste a falar sério:
- Gostava de ter ido ver um bocado de Oquestrada, para saber o que é.
- Porque é que não disseste? Eu disse, ninguém quis ir!
- E então? Ías para lá sozinho comigo?
- Então não tinha ido? Dançava contigo, C.
- Era hoje, então.
- Era hoje.
A tua solicitude pode ser duas coisas, tal como o teu crescente atrevimento também pode ser. Se não fosses tão difícil, seria fácil de decifrar:
Ou é um decréscimo de respeito (devido ao facto de nos julgares encarrilhados no papel de amigos, ao qual ainda não me habituei bem),
ou o incremento de amor.
Da minha parte,
não podia amar-te mais.

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