Eu e tu num lar, um dia, será algo assim:
Eu: comeste a canja toda ao almoço?
Tu: o que é que te interessa o que é que eu comi?
Eu: vá, diz lá se comeste tudo ou não.
Tu: agora não digo.
Eu: comeste o raio da canja ou não? não ouviste o médico ontem?
Tu: é evidente que ouvi, ao contrário do que pensas não sou surdo. e tu, ouviste-o dizer que ainda tenho o juízo perfeito?
Eu: só estou preocupada, comeste ou não?
Tu: não te preocupes.
Eu: não vais responder?
Tu: não vais parar de perguntar?
Eu: não. respondes?
Tu: não.
Passados cinco minutos em que as enfermeiras ponderam se devem dar-nos um Xanax a cada, viro-me para ti com naturalidade.
Eu: estava a recordar quando nos conhecemos...
Tu: ai sim? não vale a pena pensar no passado.
Eu: também dizias que não valia a pena pensar no futuro.
Tu: e então?
Eu: e então??? não estamos aqui?
Tu: e então? pensar adianta alguma coisa?
Eu: então devemos pensar sobre o quê?
Tu: sei lá, sou deficiente, não penso.
Eu: é, dás os passos com palas nos olhos, como os burros.
Tu: isso, chama-me tudo.
Eu: ainda não me respondeste se comeste a canja ou não.
Tu: nem respondo.
Eu: ai não respondes?
Tu: não.
Eu: e deixas-me aqui toda preocupada.
Tu: só te preocupas porque queres, eu cá não me preocupo.
Eu: diz lá, comeste ou não?
Tu: comi, comi, comi.
Eu: com essa ironia não entendo nada, comeste ou não?
Tu: comi, comi.
Eu: a sério?
Tu: pronto, não comi.
Eu: tão afinal comeste ou não?
Tu: oh mulher deixa-me em paz, o que é que te interessa se comi ou não?
Eu: estou preocupada!!! não ouviste o médico? estás fraco!
Tu: tu é que me deixas fraco, porra.
Eu: portanto, vais deixar-me ir dormir sem saber?
Tu: isso é que devias de estar a fazer: a dormir.
Eu: não dizes?
Tu: não.
Eu: ficamos assim.
Tu: já podias ter percebido há uma hora.
Eu: ok.
Tu: é isso.
E pronto, já somos meio assim hoje.
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