Meu amor,
Às vezes pergunto-me se não teria sido melhor termo-nos conhecido mais tarde. Imagina que nunca tínhamos sido da mesma turma: tu conheces o mundo inteiro, toda a gente, mas eu não, por isso não me conhecerias a mim. Imagina que eu tinha seguido Artes, como ponderei seriamente, e nunca tinha vindo a conhecer-te. O que aconteceria, mais tarde, é que se nos conhecessemos talvez fossemos então um para o outro.
Sabes o que me imagino? E ao dizer isto sinto que estamos lado a lado num sofá e pouso a cabeça no teu ombro. Imagino que serás um diplomata, como queres ser e como eu quero tanto que sejas e eu uma Guia Intérprete. Falas as mesmas línguas que eu, mais introdução a alemão, mais espanhol e este ano vais ter russo. Portanto vamos fingir que eu tirarei mesmo japonês e que estava no teu grupo de políticos a traduzir as conjecturas dos japoneses. Se nunca te tivesse visto, caía por ti nesse momento. Estarás tão bonito, nessa altura, com o teu queixinho fino, o teu nariz adorável, os teus olhos como estrelas com laivos de mel, translúcios, honestos, toda a tua integridade a transparecer da tua postura íntegra, fidedigna, as tuas mãos nos bolsos e tu a aliviares o nó da gravada sempre que não te sentisses observado. E eu ia ficar encantada pela forma como o teu sorriso foge para o canto dos lábios, como os teus olhos se iluminam quando um assunto te interessa ou como irias inclinar a cabeça para me ouvir com atenção. Talvez nessa altura, se me visses composta, a falar fluentemente japonês e a traduzi-lo para ti, calmamente, e para os teus companheiros, provavelmente para inglês perfeito, pausado, me admirasses e não me soubesses a fogueira que sou, onde todo o meu fogo arde constantemente atiçado pelo vento. Se não me soubesses impaciente, apressada, insegura, talvez fosses capaz de me amar então, na inteligência que, espero, conseguisses ver em meus olhos. Talvez me admirasses aí, e me admirasses ainda mais quando um dia nos sentássemos e eu te contasse o meu passado. Quando fosse à tua casa, ou tu à minha, ias espantar-te com os motivos orientais e o jogo de cores, sabores e cheiros. Ias achar-me maleável, fluída como as correntes marítimas e as massas de ar globais. Ias achar-me omnipresente e ias ficar surpreendido. Quando te sentasses no meu sofá, eu ia pedir-te que esperasses. Depois, voltava com uma roupa de algodão velho, puído, invulgar e desactualizada, uma bandeja com chá de qualquer coisa exótica e ia sorrir-te. Ias notar que estava descalça e isso havia de ser refrescante para ti, meu amor, num mundo saturado. Talvez então me quisesses na tua cozinha, a dançar Frank Sinatra e, se agora não sei cozinhar, podia ser que na altura fosse uma cozinheira de mão cheia e me quisesses também por isso. Porque, quanto mais leio sobre pessoas que nasceram quando tu nasceste, mais me falam em segurança. Dizem que o que precisas é disso.
Mas o universo, por algum motivo, quis que nos encontrássemos agora. Que eu te visse na sala de aula, como eras com 16 anos. Ninguém me contou; o destino mostrou-me, eu vi. Quis que te admirasse como suposto adolescente mas extraordinariamente adulto aos 18 anos, participativo em referendos, voluntariado, questões políticas e sociais. Devoto religioso, de olhar aceso quando uma convicção te anima ou quando a tua ideologia é posta em causa. As estrelas quiseram que eu te visse, com 20 anos, a discursar para um grupo de homens mais velhos, tu elevado na fonte, o braço no ar, o olhar inflamado pela crença no que transmitias, as palavras firmes, convictas, e os homens, de cabelos brancos e olhar farto de viver, a ouvir-te silenciosos, como peixes e tu como padre. Meu amor, como te admiro.
O universo quis, consequentemente, que tu me conhecesses também. Por isso eu não sou novidade para ti quando seguro a saia e rodo no meio da rua, quando me descalço e sinto a terra a meus pés, quando canto debaixo da lua ou corro sem destino. Não sou refrescante neste mundo saturado, porque tu já conheces os meus limites e padrões, eu já faço parte do teu mundo. Não cheguei a ser inovadora, porque fui eu que inovei, tu abarcaste as inovações e eu caí na rotina dos teus dias e das tuas noites. Sabes que vou estar a ouvir Edith Piaf na cozinha, descalça e com um avental, e que cozinho mal mas sujo-me muito. Sabes que, num acesso de carinho, vou pendurar-me no teu pescoço e encher-to de beijos. Sabes que vou reparar se deixares o bigode por aparar ou se levares aquela sweat tua que adoro. Sabes que reparo se cortares o cabelo ou se surgires com o rosto arranhado. E agora começo a reparar no modo embaraçado, deleitado (?) como te ris quando te provoco. Queres que me afaste, dizes tu, queres que te dê espaço, que não te afogue. Mas eu sorrio-te, bloqueio a tua visão do mundo com a minha cara, abro os olhos, fixo-os nos teus. O meu espelho é um riso do teu. Os meus olhos dizem «amo-te, fica comigo para sempre, eu dou-te a segurança que queres».
Quem me dera que os teus falassem e,
se não fossem estrofes nem poesia,
que ao menos fossem amor silencioso.