19 agosto, 2009

Amor da minha vida

Príncipe,

No outro dia estava um menino a chorar junto à fonte. Não é exactamente um menino comum, porque este resplandescia na sua tristeza, no seu olhar cabisbaixo mas, ainda assim, exultante, nas covinhas no rosto quando se ri e na sua tonalidade morena. Perguntei-lhe o que é que se passava e ele falou-me de um amigo mau com o nome do meu irmão. É claro que não é grande problema, mas reconfortei-o com energia, e não com pesar. Às tantas apareceste tu, amor, com o teu olhar curioso e o teu silêncio característico. Eu estava sentada nas escadas com ele e disse-te que ele estava a chorar quando lá cheguei. Fizeste um dos teus esboços de sorriso e partiste: ias jantar, já vinhas. Assim que viraste as costas aproximei-me do meu amiguinho:
- É o amor da minha vida - e o olhar do pequenito contrai-se em busca de compreensão - sabes o que é isso?
- Sei.
- Quer dizer que vamos casar e ter muitos filhos, assim como tu.

A minha promessa de esperar por ti ficou guardada no coração intocado de uma criança de 4 anos: imaginas-lhe esconderijo mais perfeito? Achas que o menino algum dia deixará de acreditar? Ele quer ter fé, e eu quero recuperá-la.

18 agosto, 2009

Mundo Saturado

Meu amor,
Às vezes pergunto-me se não teria sido melhor termo-nos conhecido mais tarde. Imagina que nunca tínhamos sido da mesma turma: tu conheces o mundo inteiro, toda a gente, mas eu não, por isso não me conhecerias a mim. Imagina que eu tinha seguido Artes, como ponderei seriamente, e nunca tinha vindo a conhecer-te. O que aconteceria, mais tarde, é que se nos conhecessemos talvez fossemos então um para o outro.
Sabes o que me imagino? E ao dizer isto sinto que estamos lado a lado num sofá e pouso a cabeça no teu ombro. Imagino que serás um diplomata, como queres ser e como eu quero tanto que sejas e eu uma Guia Intérprete. Falas as mesmas línguas que eu, mais introdução a alemão, mais espanhol e este ano vais ter russo. Portanto vamos fingir que eu tirarei mesmo japonês e que estava no teu grupo de políticos a traduzir as conjecturas dos japoneses. Se nunca te tivesse visto, caía por ti nesse momento. Estarás tão bonito, nessa altura, com o teu queixinho fino, o teu nariz adorável, os teus olhos como estrelas com laivos de mel, translúcios, honestos, toda a tua integridade a transparecer da tua postura íntegra, fidedigna, as tuas mãos nos bolsos e tu a aliviares o nó da gravada sempre que não te sentisses observado. E eu ia ficar encantada pela forma como o teu sorriso foge para o canto dos lábios, como os teus olhos se iluminam quando um assunto te interessa ou como irias inclinar a cabeça para me ouvir com atenção. Talvez nessa altura, se me visses composta, a falar fluentemente japonês e a traduzi-lo para ti, calmamente, e para os teus companheiros, provavelmente para inglês perfeito, pausado, me admirasses e não me soubesses a fogueira que sou, onde todo o meu fogo arde constantemente atiçado pelo vento. Se não me soubesses impaciente, apressada, insegura, talvez fosses capaz de me amar então, na inteligência que, espero, conseguisses ver em meus olhos. Talvez me admirasses aí, e me admirasses ainda mais quando um dia nos sentássemos e eu te contasse o meu passado. Quando fosse à tua casa, ou tu à minha, ias espantar-te com os motivos orientais e o jogo de cores, sabores e cheiros. Ias achar-me maleável, fluída como as correntes marítimas e as massas de ar globais. Ias achar-me omnipresente e ias ficar surpreendido. Quando te sentasses no meu sofá, eu ia pedir-te que esperasses. Depois, voltava com uma roupa de algodão velho, puído, invulgar e desactualizada, uma bandeja com chá de qualquer coisa exótica e ia sorrir-te. Ias notar que estava descalça e isso havia de ser refrescante para ti, meu amor, num mundo saturado. Talvez então me quisesses na tua cozinha, a dançar Frank Sinatra e, se agora não sei cozinhar, podia ser que na altura fosse uma cozinheira de mão cheia e me quisesses também por isso. Porque, quanto mais leio sobre pessoas que nasceram quando tu nasceste, mais me falam em segurança. Dizem que o que precisas é disso.
Mas o universo, por algum motivo, quis que nos encontrássemos agora. Que eu te visse na sala de aula, como eras com 16 anos. Ninguém me contou; o destino mostrou-me, eu vi. Quis que te admirasse como suposto adolescente mas extraordinariamente adulto aos 18 anos, participativo em referendos, voluntariado, questões políticas e sociais. Devoto religioso, de olhar aceso quando uma convicção te anima ou quando a tua ideologia é posta em causa. As estrelas quiseram que eu te visse, com 20 anos, a discursar para um grupo de homens mais velhos, tu elevado na fonte, o braço no ar, o olhar inflamado pela crença no que transmitias, as palavras firmes, convictas, e os homens, de cabelos brancos e olhar farto de viver, a ouvir-te silenciosos, como peixes e tu como padre. Meu amor, como te admiro.
O universo quis, consequentemente, que tu me conhecesses também. Por isso eu não sou novidade para ti quando seguro a saia e rodo no meio da rua, quando me descalço e sinto a terra a meus pés, quando canto debaixo da lua ou corro sem destino. Não sou refrescante neste mundo saturado, porque tu já conheces os meus limites e padrões, eu já faço parte do teu mundo. Não cheguei a ser inovadora, porque fui eu que inovei, tu abarcaste as inovações e eu caí na rotina dos teus dias e das tuas noites. Sabes que vou estar a ouvir Edith Piaf na cozinha, descalça e com um avental, e que cozinho mal mas sujo-me muito. Sabes que, num acesso de carinho, vou pendurar-me no teu pescoço e encher-to de beijos. Sabes que vou reparar se deixares o bigode por aparar ou se levares aquela sweat tua que adoro. Sabes que reparo se cortares o cabelo ou se surgires com o rosto arranhado. E agora começo a reparar no modo embaraçado, deleitado (?) como te ris quando te provoco. Queres que me afaste, dizes tu, queres que te dê espaço, que não te afogue. Mas eu sorrio-te, bloqueio a tua visão do mundo com a minha cara, abro os olhos, fixo-os nos teus. O meu espelho é um riso do teu. Os meus olhos dizem «amo-te, fica comigo para sempre, eu dou-te a segurança que queres».
Quem me dera que os teus falassem e,
se não fossem estrofes nem poesia,
que ao menos fossem amor silencioso.

17 agosto, 2009

O Principezinho


Cativaste-me, amor,

Mas não assumiste a responsabilidade de me teres cativado. De alguma forma, não tens culpa se a magia se desprende de ti. Parece que nunca nos iriamos entender, mas eu só precisava de uma ferramenta para arrancar com as nossas engrenagens e nos por ao mesmo ritmo, lado a lado: amor. Se eu tivesse o teu amor, os teus olhos como estrelas a fixarem-me, e se isso não partisse da tua inconstância como humano, mas da tua luz de apaixonado, eu unia-nos com laços de seda e beijos de cetim. Se eu soubesse que, se estendesse os meus lábios para os teus, tu não me deixarias cair no vazio do abandono, o meu rosto estaria sempre colado ao teu e eu teria desenhado estradas de amor e ternura em ti. Terias a minha marca em toda a tua pele, e a minha mão na tua a suspender-te do vácuo. Teria a tua mão na minha, a trazer-me à terra, e os braços abertos a flutuar no espaço. Se eu soubesse que o brilho do teu olhar era amor, e que a forma como o sorriso te foge para o canto dos lábios é gostar, é embaraço, é querer, eu abraçava-te para não mais te soltar. Prendia-me a teu lado para me deixar arrastar para onde quer que fosses, meu amor. As cartas que te vou dedicar seriam cartas de amor, e não cartas de amizade. Podia inverter o pretérito perfeito para um presente duradouro e repetir-te, por folha, cem vezes que te quero e cem mil vezes que te prometo ficar. Porque eu ficava contigo até ao último dia das nossas vidas, meu príncipe. Sou a raposa, não sou? A falar-te de sentimentos enquanto tu me falas das tuas viagens e da tua inconstância. No final tens de partir e eu que ficar, no final sou eu que sofro com a tua partida, porque tu desmantelas-te para não ficar. O principezinho tem lógica no mover-se, no correr universos e planetas e no aprender. A raposa tem lógica no amar, no sofrer, no prender-se. Somos eu e tu, príncipe e raposa, eu a querer-te e tu a explicares-me que motivos maiores te fazem partir. Se ao menos não fosses tão brusco, não recearia tanto abraçar-te. Se me olhasses daquela forma quando me aproximo, em vez de receares cativar-me mais ainda, as nossas almas estavam agora entrelaçadas com um infinito de lições a ensinar ao outro. Eu falava-te de amor, fala-me do mundo, porque eu não o conheço nem tãopouco compreendo. Eu a sussurar-te ao ouvido que te amo e nós a dormirmos abraçados. Abraça-me, porque ainda imagino, a cada vez que me deito, que é em teus braços que me refugio. Finjo que a minha pele é a tua e que a minha respiração é a tua, no meu ouvido. Finjo que a minha almofada é o teu peito, que segura dentro tudo o que tu és, o diamante em bruto que és. Melhor pessoa, melhor essência, melhor Homem.

Melhor tudo,
Meu amor.

15 agosto, 2009

Problema de expressão; tempo verbal

Príncipe,

Eu e tu nunca nos vamos entender, pois não? Nem como amigos nem, se o mundo virasse enfim, como um casal. Agora estou a pensar aquelas coisas todas que podes estar a fazer e que me magoariam mais, como estares ao telefone com ela. Estás sozinho em casa e, não estivesse ela em CB, receava que a convidasses para ficar contigo. Veio uma recém-licenciada em psicologia dizer que pensa que gostas de mim mas não tens equilíbrio interior para me receber. Eu também não teria equilíbrio para te receber a ti. Nós não teríamos maneira de nos receber mutuamente, apesar de ficares de rosto fechado quando estou mal, e de nos rirmos juntos quando queremos estar sérios um para o outro. Repenso o que a rapariga disse: será possível que nos amemos sem conseguirmos encontrar um entendimento? Será possível que, para compôr o nosso presente, eu tenha que utilizar o pretérito imperfeito do verbo amar? Será que só assim podemos respirar fundo ao lado um do outro? Quando é que vou poder dizer-te que ainda te amo, que foste e serás o amor da minha vida porque me ensinaste tanto... Ensinaste-me a sentir coisas que não tive tempo de me perguntar se existiam:

Existiria um amor tão grande que a pessoa em questão aceitasse a outra sem reservas, mesmo como melhor amigo, só para a ter a seu lado, ainda que a amasse como te amo? Antes de me colocar esta questão, já tu me tinhas ensinado que sim.

07 agosto, 2009

Quand il me prend dans ses bras...

No futuro, o idealizado que tinha e que às vezes me visita na imaginação, seria assim: eu descalça enquanto cozinho, de costas para o restante mundo, a ouvir Edith Piaf no rádio, de preferência no gira-discos. Enquanto enfrento a tarefa fastidiosa de cortar cebola, os meus olhos escorrem lágrimas que eu queria que fossem de felicidade. Se não forem, ao menos que não sejam de saudade. Que sejam só por estar a cortar cebola, com os pés descalços, um vestido e um avental, o cabelo preso e os óculos postos. Essa sou eu, em casa. Sou eu mal vestida, sou eu suada e não tão perfumada como quando saio, com o cabelo colado à testa a cada vez que me aproximo da panela. A comida pode sair mal, não te prometo que saia bem. Mas sairá tanto melhor como mais fundo em mim penetrar a voz da Edith.
Et ça me fait quelquechose...
(...) C'est toi pour lui pour moi, moi pour lui dans la vie.... il me l'a dit, m'a juré pour la vie...

05 agosto, 2009

Ciúmes

Os ciúmes não me tornam feia nem obsessiva,
ou pelo menos não é isso que importa.
Em vez, matam-me.

Os ciúmes não fazem de mim pior pessoa,
ou pelo menos não incomodam assim tanto os outros,
Em vez, destroem-me.

Quando sinto ciúmes não quero mudar as tuas circunstâncias,
não quero ser eu a teu lado,
Em vez, quero que vás ser feliz noutro lugar.

Os ciúmes não me tornam rancorosa ou vingativa,
nem tão pouco me fazem desejar-te mal,
Em vez, corroem-me por dentro.

Não me testes fazendo-me ciúmes,
desta sobrevivi,
para a próxima posso não sobreviver.

Desconfiada

Tu matas-me. Se não me matas queres-me matar. Se nem sequer me queres matar, o universo quer que tu sejas responsável pela minha morte.

Hoje vou falar contigo na internet e a conversa desenrola-se mais ou menos da seguinte forma:

Eu: tens trabalhos para hoje? é para saber se levo os óculos.
Tu: é isso tudo aí, não percebo nada do que dizes.
Eu: não percebes nada do que digo ou do italiano no ponto em que está agora?
Tu: continuo sem entender nada do que dizes
Eu: bem, estou a falar com o G. N. ou é engano?
Tu: é engano
Eu: então é o fantasma da coelha?
Tu: lol
Eu: então se não és tu é quem?
Tu: namorada
(Por esta altura a respiração começa a fugir-me e os dedos a tremer)
Eu: ai é? estás muito espirituoso hoje
Tu: ele não tá aki (tu não escreves com k) tá a tomar banho
(Cai-me tudo, não quero acreditar, no entanto aos poucos, vou acreditando)
Eu: tá bem
(15 min depois)
Tu: yo, não estava aqui
Eu: pois não, estava a tua namorada
Tu: não era namorada nenhuma
Eu: disse que era
Tu: disse? falou contigo? vá, vou descer, passamos aí?
Eu: não.

E pronto, foi assim que começou o meu pesadelo hoje. Depois fico a pensar que todos me querem esconder alguma coisa. Depois fico a pensar que devia ter controlo sobre mim própria nestes assuntos mas não tenho. Não tenho, não tenho.
Depois dizes-me que estavas a gozar comigo, que foste tu o tempo todo, que tenho de me controlar, riste, disseste que é para eu aprender que não há pessoas previsíveis.

E eu não consigo deixar de pensar... é melhor não saberes o que penso.

04 agosto, 2009

Amore mio

Como és bonito, amor. Ontem sentámo-nos juntos na Tasca, e ajudei-te a terminar os trabalhos de casa de italiano. Agora dividimos o italiano, como é bella a vida. Juro-te que quando o meu peito tocou o teu braço foi sem querer. Tão sem querer que, se sentiste, não me envergonho. Quando me apercebi afastei-me. Juro-te que não foi de propósito, não gosto dessas artimanhas. Desculpa, príncipe. Depois, o teu cheiro invade-me e sou tão apaixonada por ti... Ontem abriste-te um bocadinho, emocionei-me tanto a ouvir-te falar da tua infância, da tua família, da tua mãe, amor. Como estava feliz, a ouvir-te falar. A determinada altura pensei: eu realmente ficava com ele até ao último dia da minha vida, de tão bom que é ouvir-te falar, de tão bom que é ter o conforto da tua voz a entreter-me, a animar-me, a dar-te a conhecer, e de tão bom que é olhar para o lado e descobrir os teus olhos, tão sinceros, tão honestos, a olharem nos meus. Antigamente, quando o meu amor era egoísmo e imaturidade, a cada pausa tua eu entraria com argumentos meus. Eu queria dar-me a conhecer, não tanto ouvir-te. À medida que fui amadurecendo, eu deixei de ser importante e és tu tudo. Deixa-me ouvir-te durante horas, amor, porque eu respeito-te tanto, admiro-te tanto, orgulho-me tanto das voltinhas da tua cabecinha perfeita e das tuas conclusões - ainda que não possa adoptá-las todas como minhas, reconheço o mérito de lá chegares. Como é bom ouvir-te falar comigo sem desviar o olhar. Talvez te esforces por manter as lágrimas longe dos olhos, quando te vêm aquelas recordações que, por menos ou mais felizes, te podem desfocar a vista. Talvez eu me tenha esforçado para não ficar de olhos marejados enquanto me contavas um pouco mais de ti. Estamos a ir tão bem, e tu vais-te embora. Mas eu estou feliz de estar a ajudar-te com o italiano, estou feliz, é como se te ajudasse a fazer a mala. É como se, uma vez mais, pusesse o meu egoísmo de lado para te ver bem e feliz. Porque é assim que agora gosto de ti. Longe dos meus receios em relação a essas piranhas que podem vir e levar-te para longe, temos uma coisa só nossa que é preciosa.
Esta amizade, que amo tanto quanto te amo a ti,
amore mio,
quanto sei bello.

03 agosto, 2009

Nuvens

G,

Como me sinto bem quando me inclino sobre os teus compiti contigo a meu lado e foco a visão para entender o que está escrito. Depois tenho-te, a meu lado, a tagarelar o que vais lendo, e fico espantada com o rápido que assimilaste a língua, em especial o sotaque. Fazes batota permanentemente, principezinho, a ir ver à página anterior qual é o verbo. Não gostas de errar, pois não? Não gostas de ser apanhado em falta. Não sei explicar o quanto acho bonito o facto de apareceres no café com os trabalhos para te ajudar. Gosto tanto de ti e do teu cheiro. Mudaste tanto, desde o G que comia ranho na escola...
Quanto a mim conheci ontem alguém invulgar num situação surreal. Mas esse será outra entrada, foi demasiado especial para ser aqui "anexada".
Baci, amore mio, ti voglio tanto bene...

02 agosto, 2009

Amor

Olha só o tamanho da minha ingratidão. Por muito que diga, o que prevalece sempre é o facto de gostar de ti como o pacote completo que és. O que prevalece é que tento convencer-me vergonhosamente, para mim e para quem me conhece, de que não te quero, não preciso de ti, de que só me atrapalharias, quando a verdade é o inverso perfeito disto.

Se não sabes, eu sei pelos dois que te amo.

01 agosto, 2009

Please yourself at the same time and leave

G,

Aí está, saiu. «A tua amiguinha», saiu. Dói-me a cabeça, tenho o corpo adormecido por analgésicos, tinha acabado de acordar e estavamos a falar mais ou menos normalmente e eu disparo-te isso. Desculpa, desculpa, desculpa, não me quero meter na tua vida. Não quero, G, Mas eu precisava que tu soubesses que eu sei.

C.