09 maio, 2010

Sexto Sentido

O que foi que nos aconteceu?

Preciso de gritar isto. O que foi que nos têm acontecido? Explica-me por favor, que eu já não tenho forças para continuar a tentar adivinhar. Sabes de que lembro? De ti, alguns passos atrás de mim, a dizer que estavas apaixonado. Repenso a tua expressão de surpresa mil vezes «eia chavalo, estou apaixonado». Ninguém te ligou nenhuma, como é óbvio, mas eu conheço-te. Nunca te ouvi dizê-lo em 5 anos se não aí. Caiu-me tudo naquele instante, pensei que só podia ser eu, e quanto a isso sei que não estou enganada. Tinhas feito comentários antes, andávamos meio inebriados um no outro nesses dias. Estávamos em Milfontes e as férias a acabar. Depois, chegámos, desapareceste para a terra do teu avô e nunca me ligaste, nunca perguntaste por mim. Depois, regressaste ao nosso templo, à nossa cidade, e ficaste uma semana fechado em casa. Explica-me porquê? Não consigo tirar da cabeça que tive alguma coisa a ver com isso. Querias apagar-me de ti? Querias obrigar-te a arrancar-me da tua cabeça antes de voltares a estar comigo? Ficámos algumas três semanas sem nos vermos depois de quase, quase, termos sido tudo. Fazes ideia do que isso fez em mim? Continuo a ver os três dias do regresso de Milfontes como luto. Eu estava de luto por mim, por não termos dado um passo a partir do ponto onde estávamos antes, por ter visto tanto e tudo ter dado em nada. Por julgar que podias estar a gostar de mim só um quinto do que eu gosto de ti. Depois voltamos e silêncio. Estive três dias sem almoçar nem jantar, sem tomar banho, sem sair de casa. Ao terceiro dia, a definhar, decidi dar um passeio. Queria ir à igreja perguntar se é crime amar tanto, à mesma igreja onde és escuteiro. Às vezes recordo-me desta história. Chorei, pensei em coisas péssimas, quase morri sem ti. Mas não te procurei, já viste o meu acto de bravura? Não te procurei, não chorei para ti, não te disse que estava a morrer naquele momento. Levantei-me sozinha.

Depois disso, tenho visto muito mais coisas. Há alturas em que somos ninguém um para o outro. Há outras em que me parece que o mundo virou para nós, quando estamos demasiado perto, sinto sempre que falta um único passo, só um, para sermos o tal tudo. Como em Portimão, quando me emolduraste o rosto, ambos sozinhos na noite depois de um passeio de braço dado em que fui sincera contigo sobre o contributo que tens dado para a minha aprendizagem pessoal. Quase fechei os olhos, pensei: é agora. E o que é que tu fazes? Soltas-me o rosto, recuas. Se soubesses como encolho nesses instantes. O que te falta? É coragem? É medo que tens de mim? Do que poderíamos ser? Achas que eu não tenho? A cada dia que passa e te vejo embebedar-te, falar demais, ser inconveniente e raiar a arrogância, penso que seria difícil. Seria muito difícil, mas mesmo sendo difícil seria bom. Seria o melhor que me podia acontecer, pertencer-te e tu, metaforicamente, a mim. É liberdade que queres? E crês que eu seria a tua prisão? Eu sou um pássaro, como tu, meu amor. E depois veio aquela rapariga, recém-licenciada em psicologia, chorar para uma amiga nossa e dizer que é uma pena que o mundo esteja do avesso, que é uma pena que ela leia em ti que gostas de mim - possivelmente errada, mas cada vez creio mais no oposto, e não é de ilusões que vivo - mas que não tens lugar para mim. Como é isto possível, G., se cada um de nós é tanto, se rimos juntos, se apertamos as mãos, se te desejo, se já vi desejo nos teus olhos, se te admiro, se me orgulho de ti, se já me declaraste a tua admiração tantas vezes, se dava a minha vida por ti, se creio que te preocupas igualmente comigo, se não suporto ver-te com outra pessoa, se desconfio que acontece o mesmo contigo, se o meu riso fica nervoso quando não consigo controlar ciúmes e irritação, se o teu recai no sarcasmo na mesma situação? Como é possível que não gostes de mim, não me ames, pelo menos, porque o amor é silencioso e paciente e a paixão grita de urgência, se me beijas a mão, se danças comigo à noite na rua, se fazes insinuações, se às vezes coras, se às vezes os teus olhos fogem dos meus como os meus dos teus, se me respeitas subtilmente, daquele teu modo especial de ceder não publicamente, de desviar ligeiramente as peças para que eu ganhe sem que ninguém, a não ser eu, se aperceba que decidiste dar-me a vitória numa discussão, se ultimamente as minhas mãos dificilmente se afastam de ti, e se as tuas têm estado mais do que habitualmente em mim, se as nossas se têm entrelaçado com frequência, se, quando conversas, toda eu te oiço ainda que, a meu lado, alguém se dirija a mim, se, mesmo quando não estou à espera distraída a falar com alguém, a tua voz interrompe com um sorriso irónico e as tuas observações espirituosas de habitualmente. Se toda a minha vida gira em torno da tua, se já fazes caretas às minhas amigas, encolhes ombros, dizes carinhosamente que eu não tenho remédio, se te irritas com coisas pequenas que antes te passavam ao lado, se dizes que não confio em ti, que te acho um mentiroso, que não te conheço, se te ofendes com qualquer má juízo que faça de ti quando te cagas sobre tudo o que o mundo tenha para te dizer, quando chegas por trás, encostas o teu corpo ao meu de lado, encostas a testa na minha, a minha pele na tua, o meu cabelo no teu, os nossos narizes quase juntos e dizes baboseiras que não oiço porque a tua essência, o teu calor, o teu cheiro, cega-me, hipnotiza-me, adormece a razão em mim. Se te amo tanto que o meu amor não cabe em mim e transborda, inunda tudo à minha volta, como é possível que o mundo esteja tão errado que não me ames em retorno? O que é preciso eu fazer? Já te declarei o meu amor duas vezes, no mesmo dia 23 de Dezembro. No ano anterior abstive-me, escolhi-me a mim, acalmei-me, fiz por ser apenas tua amiga, para esquecer que te quero na totalidade, como homem, como pai, como velho um dia, como companheiro de viagens, como camarada de luta, como amor da minha vida. A vida, essa que é só uma e tu continuas a andar para a frente e a recuar. Que me falta fazer? Não posso ser mais directa nas conversas ou raio o ordinário, se os meus detectores funcionam minimamente bem, metade do tempo queres-me tanto como te quero, daí que passemos a vida a discutir, daí que eu saiba qual seria a única forma de aliviar esta rivalidade constante. Se eu digo sim, tu dizes não. Branco. Preto. E rimos, rimos porque na realidade não queremos nada disso, sabemos que somos iguais. Sabemos que só queremos desafiar o outro, fazer com que nos toque, dance connosco na rua e finja que é obrigado, finja que obriga. Tu sabes que se te bato é pela tua reacção. É porque quando dizes «juro que se me tocas dispo-te toda e passas a vergonha da tua vida neste café», eu não resisto a tocar-te mesmo. Depois vingas-te, e eu estou nas nuvens a cada momento, acho que é o sorriso no teu rosto, pelo tempo passado juntos, que me deixa tão aluada. É porque quando te ameaço sem motivo, tu dizes «isso é só para ver se te bato, não é?», e eu vejo que já sabes a minha estratégia, e respondo-te com sinceridade «é verdade, é só para ver se tens iniciativa e bates primeiro». E depois eu amo-te e não quero pensar que não me ames. Quero-te tanto que dói, dói diariamente. Devias estar aqui e devíamos estar a planear o nosso futuro juntos. Estás a acabar o curso, para o ano terminei o meu. Não queres ter filhos? Não queres ficar comigo? Olha que a vida é só uma, repito: fica comigo. Eu faço-te feliz, não haveria mais ninguém se não tu para fazer-me feliz. Achas que tenho ilusões de que seria fácil? Meu amor, dizes que me conheces melhor do que a ti próprio, ouve: eu não sei o que se passa no teu interior, está sempre em silêncio, mas sei cada reacção tua, cada passo que vais dar. O porquê, não sei, mas sei que o vais dar. Tu sabes que eu sei e desvias-te propositadamente. Não vês que estamos constantemente em sintonia? Fica comigo e vamos sentar-nos à mesa a decidir onde queremos morar, o que queremos fazer para combinar embaixadas, companhias aéreas e tours turísticos, vem sentar-te comigo a traçar o plano do nosso futuro, vamos ficar juntos num lugar qualquer, já que a nossa formação até nos permite um caminho condizente. Vamos agarrar um e ser felizes. Vamos discutir, mais tarde, se os miúdos vão para os escuteiros ou não, não sejas, como prometeste, o segundo pai dos meus filhos: sê o primeiro, sê o sangue deles, a carne e os ossos neles, os olhos deles. Vamos discutir em que andar vamos morar, quantos quartos vamos ter na casa de início, vamos comprar um carro juntos já a pensar nas cadeirinhas deles. Vamos chegar a acordo quanto ao animal de estimação: eu vou discutir muito sobre querer ter um labrador amarelo, mas não te preocupes, sou alérgica e não quero ter trabalho com animais, é só para te ver argumentar. Vamos decidir se a sala fica lilás ou verde-alface. Vamos escolher um sofá e uma televisão pequena e antiga, quem sabe em segunda mão, já que tu não vês e que eu só te vejo a ti. Vamos juntar as nossas facturas, as nossas roupas num armário, os nossos chinelos ao lado da cama, as nossas contas bancárias, os nossos livros na estante, as nossas fotografias no hall, os nossos quadros na parede, os nossos discos na prateleira, os nossos gostos num espaço, as nossas bocas num beijo.

Eu amo-te,
Príncipe.

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