04 junho, 2010

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Mataste-me.


30 maio, 2010

Sextape (Deftones)

Isto está cada vez mais complicado, não? Quando dou por mim a fazer-me demasiadas questões é porque está complicado, quando mais escrevo no blog mais complicado está. De vez em quando sou confrontada com as coisas que faço por ti, ou por gostar de ti, e bem me envergonho. Preferia expulsar isto tudo da minha vida e abrir-me ao futuro, viesse o que viesse, seria sempre melhor do que é agora.

Ter de mentir-te começou a pesar-me. Não é que tu ligues mas, em último caso, é uma mentira, a minha única mentira e, curiosamente, sobre a coisa mais importante para mim: o meu amor por ti. Dou a entender uma e outra vez que não gosto de ti, e é mentira, é tanto mentira que aqui ando, a arrastar-me novamente pelos cantos, por precisar tanto de ti. Não te preocupes, meu amor, desta vez vou seguir o teu conselho. Vou «cagar alto» para o que os outros dizem, somos só eu e tu, seja no que for. Temos uma relação que é só nossa e que não deve ser contaminada pelo que vem de fora e que eu, insegura, tantas vezes humilhada, culpada, medrosa, trago para dentro.

Envergonho-me tanto de mim...

E hoje apercebi-me de mais um gesto de amizade teu, tens-me dado tantos, e eu poderia ser feliz, se não quisesse mais. E percebo tão bem que eu, todo o eu, te faça confusão, te cause a irritação que alguma espécie de pessoas me causa, que te faça querer corrigir-me constantemente. Não sei ser fácil contigo, falo sempre demais quando é contigo, porque tenho ânsias que vejas a realidade como a vejo, que saibas a verdade, o chão que piso e o chão que pisas. Oh amor, és tããão melhor do que eu, talvez seja verdade que não te mereço, logo eu que, estupidamente, cheguei a pensar que fosse ao contrário.

Só me recordo de dizeres que tenho coisas nas quais sou «impecável», é que só te vejo a por-me defeitos intercalados com «por essa altura já serás a melhor pessoa do mundo», o que tenho eu, a mais-que-imperfeita C., de impecável? De bom? De honesto, se só a ti te minto? De recomendável? Quando o melhor de mim continuas a ser tu?

Amor,
Que o universo me ajude a conter as palavras, as mesmas tão destruidoras.

29 maio, 2010

Moonlight walk

Ontem estivémos em A., no nosso cantinho habitual, e tu com o teu amigo "Viriato", aquele bêbebo incorrigível e mulherengo. Das poucas vezes que o vi estava a dar em cima de alguém. Ontem foi em cima de mim. Nós num cantinho, tu numas escadas e eu a um lugar de ti, sentada num muro, e o teu amigo inconveniente a apalpar-me uma e outra vez as pernas, e eu a passar-me, a gritar-lhe, a desejar que o mandasses parar. E tu nada. Até que a tua voz, séria como ela sabe se ser, se virou para mim baixo:
- Já está a ser demais, C.?
- Está, G. - respondi, incomodada.
E tu disseste, meu amor de vinho quente e de noites de luar:
- Então senta-te aqui ao pé de mim.
E eu fui sentar-me ao teu lado, no espacinho entre o teu degrau de escada e o muro onde estava anteriormente sentada. A minha anca na tua, as nossas pernas a tocarem-se ocasionalmente, e o teu amigo a ir lá ainda assim, uma e outra vez, só para me irritar. Mas ele não interessa para nada, o que interessa és tu ali sentado, eu voltar a cara e ter a tua a centímetros da minha, saber que me ouves, sentir o calor do teu corpo ao lado do meu, saber que te preocupas discretamente, todo o teu verdadeiro «eu» é discreto, e que me quiseste a teu lado para me protegeres à tua maneira. A cada vez que olhava sobre o ombro tinha-te ali, as tuas rugas à luz pardacenta dos candeeiros que chega àquele canto, o teu sorriso a acentuá-las.
Depois fomos a um bar qualquer, todo chique, e tu a beber vinho de copo ao balcão, e tu a ir à porta, e tu a fumar um cigarro e eu a pedir-te uma baforada nele, e tu a negar-me, a alegar que ando com tosse, que me faz mal, mas para beber um golinho do vinho. E eu a ver-te, uma vez mais, preocupado comigo, e a ocultar a felicidade no orgulho e a insistir até que me cedes o cigarro já tocado pelos teus lábios.
Por fim, enquanto o casal nosso amigo discutia, decidiste que estava na hora de irmos para casa. Puxaste-me a mão, por um instante demos mãos e demos até três passos de mão dada, e devias saber que contigo vou a qualquer lugar. Desviaste o caminho para a minha casa, através daquelas escadinhas que levam ao coração de A.V., e despedimo-nos dos outros, que não nos quiseram acompanhar. Eu disse-te: «não tens que me levar a casa» e tu fizeste a tua expressão de «mas quem é que manda? Mas quem é que sabe aqui?», e eu calei-me, graças ao teu deus, vieste meu amor. E eu sabia que tínhamos uma curta caminhada pela frente, com uma subida íngreme e uma descida acentuada no final da qual tens a minha casa. Enquanto subíamos, fomos falando de outras pessoas. Enquanto descíamos, falámos de nós. Ias parando, perguntei-te se estás bem, perguntei-te umas quantas coisas e tu ias respondendo calmamente. Como desejei que, num daqueles becos e recantos que conheço tão bem, me tivesses encurralado… Na curva antes de chegarmos à minha casa, imaginei a nossa despedida: decidi que não te deixaria ir só com um aperto de mão, ia dar-te, ao menos, um beijo no rosto. Tenho saudades dele. E, como diz a minha irmã, aconteceu algo que julgava que só acontece nas novelas ta TVI: um conhecido nosso, às três da manhã, a passar na minha rua. Lá se foi o nosso momento, mesmo à filme. Ele foi inconveniente o suficiente para nos perguntar, espantado por nos ver ali sozinhos, se andamos a «comer-nos». E nós respondemos em coro que sim. É curioso que ninguém desconfie dos que se comem realmente, e tenhamos todos os olhos em nós a julgar que nos comemos. Péssima expressão.

Entrei em casa e segui a luz leitosa da lua até à marquise, ao fundo. Através da janela de vidros foscos, vi a redondez da lua lá fora e o círculo de luz em seu redor. E deixei-me escorregar pela parede até me sentar no chão de azulejos, até ser só uma sombra negra, tosca, no chão, a ouvir Maria Bethânia às três da manhã, a abraçar-me a mim própria e a imaginar que eras tu. E a sorrir, a sorrir porque é o amor que mexe com a minha cabeça e me deixa assim, que faz eu pensar em ti e esquecer de mim, que faz eu esquecer que a vida é feita para viver. Foi como um tiro certo no meu coração, e eu a saber que, ainda não foi desta que nos beijámos, ainda não foi desta que te disse, uma vez mais, pela terceira vez, e à terceira é de vez, que te amo. Por algum motivo o destino tem adiado tanto esta terceira vez. Mas mesmo comigo a obrigar-me a ocultar o que sinto, por deitar abaixo as pequenas coisas que nos vão acontecendo e por achar que são ilusões, pequenos tesouros que fabrico, não vou negar que me passaste o braço pelo ombro, que me deste a mão, que me protegeste, que te amo e que acho, talvez estupidamente, que há a possibilidade de já não estar sozinha nisto. Acordei algumas vezes durante a noite, embriagada de felicidade, a recordar-me do nosso passeio sob as estrelas.

Eu amo-te, príncipe. Eu amo-te.

27 maio, 2010

Meu pedacinho de céu

Antigamente,

Quando me sentava a teu lado e me punhas a rir, eu batia-te e tu fugias. Esfregavas o braço, dizias «tenho que me ir embora daqui». Agora deixas-te ficar. Agora, enquanto falo contigo, ouves-me, do início ao fim, não foges a meio. Agora, de quando em quando, pões-te de pé, não te afastas, olhas para mim, sorris, fazes piadas e contas coisas que te ocorrem no momento e que só fazem sentido para mim. Agora, quando alguém te diz algo significativo, que despoleta em ti qualquer emoção, o teu cotovelo chama o meu braço, o teu olhar reclama pelo meu, o teu sorriso quer acordar o meu. E eu fico ali, a teu lado, enquanto ficas também, meio derretida, meio noutro mundo, inebriada, embriagada de felicidade, a ouvir-te contar o que quer que seja, a sentir a tua pele roçar a minha ocasionalmente, a desejar que não fujas, que desta não vás embora, que eu não te espante, mesmo sem deixar de ser quem sou. Mas, por algum motivo, há uma voz inexplicável que, cá de dentro, me garante que desta vez não vais a lado nenhum.

E eu amo-te,

Príncipe, «você traz felicidade»


(Numa última discussão, disse-te que te aceito tal como és, pedi-te que me aceitasses da mesma forma. E tu, entre os nossos esbracejos, disseste a seguinte frase, que não têm saído da minha cabeça: «eu também posso mudar», tu, o homem do «eu não vou mudar, não preciso de mudar, não tenho que mudar para pôr ninguém feliz»).


23 maio, 2010

Haja o que houver...

G.,

Eu bem tenho estado alerta à espera do instante em que virá o sinal de que esta espécie de 'conto de fadas' de nós os dois é só a tua aproximação a mim como amiga, eu sei o quanto gostas de mim. És suficientemente boa pessoa para gostar este tanto de mim sem interesses românticoss. Mas finalmente, tive a prova que precisava de que «ainda não é desta», ou será novamente um daqueles casos em que tu és infinitamente diferente de mim? Em que planeias o futuro e guardas o melhor para mais tarde? Não sei, não quero ilusões.

O que importa é que te dei a fita na sexta-feira passada e, três noites depois, ainda não a leste.
Fazes ideia de como eu devoraria três faces de fitas académicas que tu me escrevesses no instante em que me apanhasse a sós?

Mas depois dizes-me coisas tão bonitas, meu amor, que nunca pensei ouvir de ti, como «eu também posso mudar», disseste-me agora mesmo, como te amo,

Enfim,
petit prince.

20 maio, 2010

Das 13h às 18h

Uma imagem recorrente é aquela de duas pessoas num relvado deitadas, ele com a cabeça no ventre dela. Carinhosamente, devagar, com receio de o afastar, ela afaga-lhe o cabelo para depois, mais confiante, enterrar os dedos nele. Já é um progresso, tendo em conta que ele se enfurece geralmente quando lhe mexem no cabelo. Uma vez ele confessou-lhe esse ponto fraco em tom de confidência, sorriu e piscou-lhe o olho. Ela perguntou-se várias vezes se ele saberia que essa prova de confiança da parte dele a fez amá-lo um bocadinho mais, assim como todas as outras pequenas coisas inesperadas:

aquela vez em que ele rejeitou a mão dela quando ela precisava de apoio para, ao se aperceber da importância do gesto para ela, pegar nessa mesma mão e beijá-la. ou quando a incitou a demonstrar o seu amor por ele, para evitarem brigas, e lhe sorriu uma vez mais quando ela beijou a dele. ou, talvez, daquela que disse que ela iria ser a melhor pessoa do mundo, ou aquelas em que afirmou que ela já era a melhor pessoa do mundo. ou o uso de adjectivos como «única», não importa o que viesse a seguir. ou as vezes que demonstrara que se lembrara dela a propósito de qualquer coisa sem grande importância, e é nessas coisas que uma pessoa ambiciona infiltrar-se na vida de outra, tomar-lhe conta dos pensamentos, do dia-a-dia, controlar as suas associações mentais, os seus impulsos, as suas coincidências.

Ela sabia que ele precisava de tempo e, ainda assim, um dos seus traços marcantes, a impaciência, fê-la pedir-lhe baixo, em tom de que não insiste, de quem espera se tiver de esperar, mas garante que não há necessidade de o outro se fazer esperar, que se conte. «Conta-te a mim, por favor». Deitados na relva, sob a sombra de plátanos, enquadrados por monumentos citadinos de ferro, como ombreiras sem porta, janelas abertas para a paisagem, pombas cujo desenho só é reconhecido visto do céu, ela aguarda que ele fale. Conta devagar até 10 e decide que vai falar do tempo se ele não iniciar a narrativa. Ela quer tanto ouvir relatos da sua infância, do momento exacto em que decidiu dar-lhe uma oportunidade, do que o levou até
ali...

enfim, seria uma tarde de confissões, na qual o silencioso se conta e o extrovertido se mantém calado, a escutar atentamente. o amor é muitas vezes isso: cala-se quem costuma falar, fala quem costuma estar calado. seria uma tarde em que um procura perceber porque é que ama tanto o outro, e o outro começa a desconfiar amá-lo na mesma: como é que não viu isso vir? seria, talvez, a nossa tarde.

Oh amor, como é que não vês a perfeição que somos juntos, mesmo que o nosso retrato conjunto seja feito da matéria dos sonhos, dos arco-iris, das fábulas, dos el dorados e da imaginação? Como é que não vês que temos muito mais do que tantos que vemos ao nosso redor, eu e tu juntos temos muito, e como é que não admites que pode ser suficiente?

18 maio, 2010

Smoke gets in your eyes

"All who love are blind".

Primeiro, as conversas, as palavras, as insinuações, os sorrisos, os rostos corados, os embaraçados:

P: Ouvi dizer que o G. é o amor da C., não é verdade?
G. e C. em silêncio, entreolham-se sorridentes e corados.
P: Ou é ao contrário?
C. ainda mais ruborizada, procura os olhos do G., ruborizado, e silêncio.
P: O que é que há aí? Vê-se que há aí coisa...
C, desesperada por fugir dali:
C: Claramente, nada!
G. em silêncio.
P: Com que então o G. é o amor da vida da C...
J. (pondo-se de pé e sorrindo) Eu ouvi dizer que era mais ao contrário, mas enfim...
C., A. e V. entreolham-se meio espantadas meio a sorrir.
P: G. Vocês eram um bonito casal, o G. é inteligente, a C. também é inteligente?
Assistência em silêncio, C. e G. corados, a apertar as mãos no colo e a sorrir para o tecto.
C: Os nossos filhos iam era ser anãos, somos os dois baixos.
G: Era (em tom ofendido).
P: Vocês eram um bonito par. C., se namorasses com o G. e ele apanhasse estas bebedeiras de sempre, o que é que fazias?
G. espera pacientemente, C. revira os olhos, fita o tecto, coloca-se a pergunta de sempre: deixava-o? Não. Discutia? Não. Fazia-lhe um ultimato? Não.
C: Batia-lhe, dava-lhe uma coça (embora saiba que não).
P: G., se a C. namorasse contigo deixavas a bebida?
Preparo-me para ouvir a explosão de riso sarcástico e o habitual «eu sou livre, não deixo de fazer nada por ninguém, ora essa», e oiço, ao invés, um introspectivo:
G: Eu por uma mulher destas fazia tudo.
C. sente o coração dar três piruetas extremamente perigosas e sente vertigens. "Não quer dizer nada", repete.
(Pouco depois)
G: Vou-me embora, é tarde.
P: Vais-te embora G.? Não dás um beijinho à C.? Vá, dêem lá um beijinho...
C. ignora completamente o que o G. diz a rir e, antes que ele tenha ideias, ordena-lhe que vá embora com um gesto impaciente. Com um sorriso insinuante, G. declara:
G: Eu ainda vou vê-la hoje (isto às duas da manhã).
Ao que P., com naturalidade, retribui:
Justificar completamenteP: Ah, hoje vais lá dormir a casa, C.? O que diz o pai dele disso?

Agora, oh príncipe sem coração, retira as falsas verdades daqui. Retira a brincadeira, retira o sarcasmo, a ironia, a brincadeira pura, as armadilhas, os teus testes. Tira tudo o que não é verdade, tudo o que não seria assim, tudo o que não são planos, vontades, embaraço, tudo o que não é amor, e deixa-me sem nada.

Não dês mais pontapés no meu peito, ele já não bate a um ritmo regular.