29 maio, 2010

Moonlight walk

Ontem estivémos em A., no nosso cantinho habitual, e tu com o teu amigo "Viriato", aquele bêbebo incorrigível e mulherengo. Das poucas vezes que o vi estava a dar em cima de alguém. Ontem foi em cima de mim. Nós num cantinho, tu numas escadas e eu a um lugar de ti, sentada num muro, e o teu amigo inconveniente a apalpar-me uma e outra vez as pernas, e eu a passar-me, a gritar-lhe, a desejar que o mandasses parar. E tu nada. Até que a tua voz, séria como ela sabe se ser, se virou para mim baixo:
- Já está a ser demais, C.?
- Está, G. - respondi, incomodada.
E tu disseste, meu amor de vinho quente e de noites de luar:
- Então senta-te aqui ao pé de mim.
E eu fui sentar-me ao teu lado, no espacinho entre o teu degrau de escada e o muro onde estava anteriormente sentada. A minha anca na tua, as nossas pernas a tocarem-se ocasionalmente, e o teu amigo a ir lá ainda assim, uma e outra vez, só para me irritar. Mas ele não interessa para nada, o que interessa és tu ali sentado, eu voltar a cara e ter a tua a centímetros da minha, saber que me ouves, sentir o calor do teu corpo ao lado do meu, saber que te preocupas discretamente, todo o teu verdadeiro «eu» é discreto, e que me quiseste a teu lado para me protegeres à tua maneira. A cada vez que olhava sobre o ombro tinha-te ali, as tuas rugas à luz pardacenta dos candeeiros que chega àquele canto, o teu sorriso a acentuá-las.
Depois fomos a um bar qualquer, todo chique, e tu a beber vinho de copo ao balcão, e tu a ir à porta, e tu a fumar um cigarro e eu a pedir-te uma baforada nele, e tu a negar-me, a alegar que ando com tosse, que me faz mal, mas para beber um golinho do vinho. E eu a ver-te, uma vez mais, preocupado comigo, e a ocultar a felicidade no orgulho e a insistir até que me cedes o cigarro já tocado pelos teus lábios.
Por fim, enquanto o casal nosso amigo discutia, decidiste que estava na hora de irmos para casa. Puxaste-me a mão, por um instante demos mãos e demos até três passos de mão dada, e devias saber que contigo vou a qualquer lugar. Desviaste o caminho para a minha casa, através daquelas escadinhas que levam ao coração de A.V., e despedimo-nos dos outros, que não nos quiseram acompanhar. Eu disse-te: «não tens que me levar a casa» e tu fizeste a tua expressão de «mas quem é que manda? Mas quem é que sabe aqui?», e eu calei-me, graças ao teu deus, vieste meu amor. E eu sabia que tínhamos uma curta caminhada pela frente, com uma subida íngreme e uma descida acentuada no final da qual tens a minha casa. Enquanto subíamos, fomos falando de outras pessoas. Enquanto descíamos, falámos de nós. Ias parando, perguntei-te se estás bem, perguntei-te umas quantas coisas e tu ias respondendo calmamente. Como desejei que, num daqueles becos e recantos que conheço tão bem, me tivesses encurralado… Na curva antes de chegarmos à minha casa, imaginei a nossa despedida: decidi que não te deixaria ir só com um aperto de mão, ia dar-te, ao menos, um beijo no rosto. Tenho saudades dele. E, como diz a minha irmã, aconteceu algo que julgava que só acontece nas novelas ta TVI: um conhecido nosso, às três da manhã, a passar na minha rua. Lá se foi o nosso momento, mesmo à filme. Ele foi inconveniente o suficiente para nos perguntar, espantado por nos ver ali sozinhos, se andamos a «comer-nos». E nós respondemos em coro que sim. É curioso que ninguém desconfie dos que se comem realmente, e tenhamos todos os olhos em nós a julgar que nos comemos. Péssima expressão.

Entrei em casa e segui a luz leitosa da lua até à marquise, ao fundo. Através da janela de vidros foscos, vi a redondez da lua lá fora e o círculo de luz em seu redor. E deixei-me escorregar pela parede até me sentar no chão de azulejos, até ser só uma sombra negra, tosca, no chão, a ouvir Maria Bethânia às três da manhã, a abraçar-me a mim própria e a imaginar que eras tu. E a sorrir, a sorrir porque é o amor que mexe com a minha cabeça e me deixa assim, que faz eu pensar em ti e esquecer de mim, que faz eu esquecer que a vida é feita para viver. Foi como um tiro certo no meu coração, e eu a saber que, ainda não foi desta que nos beijámos, ainda não foi desta que te disse, uma vez mais, pela terceira vez, e à terceira é de vez, que te amo. Por algum motivo o destino tem adiado tanto esta terceira vez. Mas mesmo comigo a obrigar-me a ocultar o que sinto, por deitar abaixo as pequenas coisas que nos vão acontecendo e por achar que são ilusões, pequenos tesouros que fabrico, não vou negar que me passaste o braço pelo ombro, que me deste a mão, que me protegeste, que te amo e que acho, talvez estupidamente, que há a possibilidade de já não estar sozinha nisto. Acordei algumas vezes durante a noite, embriagada de felicidade, a recordar-me do nosso passeio sob as estrelas.

Eu amo-te, príncipe. Eu amo-te.

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