Eu olho para a minha fotografia de bebé durante mais tempo do que seria necessário. E concluo: devia ter ficado assim. Devia ter ficado para sempre com uma camisolinha de lã com gola de olhos fechados e expressão incomodada - males de bebé, mais nada. Porque é que o tempo não parou ali? Se tivesse parado eu nunca teria assistido a crises familiares. Nunca teria estudado a minha família e as outras. Nunca me teria decepcionado uma, e outra, e outra, e outra vez com as pessoas que mais amo. Não tenho ilusões sobre o facto de que gostar de alguém é exactamente aceitar-lhe os defeitos. Mas não há ninguém para lidar com os meus males, parecem ser demais até para os outros. As minhas horas são passadas em nada, são um insulto ao meu intelecto que, a mal ou a bem, é melhor do que o que me é pedido. Passo-as a olhar para um computador e a inventar palavras para acrescentar às outras. Quando saio, tenho obrigações que confundo com pequenos prazeres. Gostava de ser menos insegura, até porque gostava de alguém que ficasse ao meu lado, aceitasse todos os meus defeitos - e são tantos que eu me pergunto se eu própria conseguiria entender-me com alguém como eu. De repente as conversas surgem e é a mostrar o meu ponto de vista que sou mais feliz. No instante a seguir, fica-me o sabor agridoce a ser a única. Quem não tem tempo para mim, tem-no para os outros e vou-me reduzindo à minha insignificância. Depois, o meu orgulho próprio, sem chegar à arrogância, diz-me: és melhor do que isso. E eu quero acreditar, quero tanto acreditar que não compreendo como me podem dizer que sou pessimista quando eu passo a vida a projectar, mentalmente, um mundo melhor. E tu, princípe, estás farto de mim? E tu, és como todos os outros? E tu, que pareço não conseguir descartar de papel de meu salvador, amas-me metade do que te amo numa dimensão qualquer? Farias algum sacrifício, alguma cedência, por mim? Não amor, nem tu na tua grandeza te desvias do teu caminho para me vir apanhar, para me pôr de pé, para me levar a bom porto. Nem tu, quando te peço que olhes por mim, tens capacidade ou vontade de o fazer.
Os dias arrastam-se e sou obrigada a tomar decisões. Devia tanto juntar-me às pessoas que gostam realmente de mim, àquelas cujo egoísmo nunca me excluíria de um desses pequenos prazeres tornados obrigações. E força? A mal ou a bem, são esses pequenos prazeres que dão cor à minha vida. Daí que receie tanto deixá-los. Os momentos bons intercalam-se com outros, piores. Não te amo. Digo-me, uma e outra vez. Amo-me a mim. Amo-me a mim que estou sozinha e que não posso contar contigo nem com ninguém. Se ao menos conhecesse alguém com metade da minha consciência e da minha boa vontade... Nunca me custou devolver sorrisos à cara das pessoas, mesmo que tivessem que ser pagos em troca dos meus pequenos prazeres.
Estou cansada de egoísmos, de dores que não saram, de constatações que soam como avisos e que, com o tempo, me obrigo a esquecer para poder viver sobre um chão habitável; que não cheire mal, que não se afunde a cada passo, que não me revele mais egoísmo e mais desconsideração.
De todos os erros que cometo, aprender tarde é sempre o pior. De todos os que cometi, gostar de ti talvez tenha sido o pior: aquele que me catapultou para esta estrada onde os maus momentos e desconfortos se sucedem repetidamente.
Do pior que podia ter feito a mim mesmo, não há nada como estas recaídas que vou tendo e que me roubam a minha vida para a tornar vivida em função de ti.
Sendo o amor o oposto antagónico de ódio,
Odeio-te neste momento, como há meses receava odiar.
Os dias arrastam-se e sou obrigada a tomar decisões. Devia tanto juntar-me às pessoas que gostam realmente de mim, àquelas cujo egoísmo nunca me excluíria de um desses pequenos prazeres tornados obrigações. E força? A mal ou a bem, são esses pequenos prazeres que dão cor à minha vida. Daí que receie tanto deixá-los. Os momentos bons intercalam-se com outros, piores. Não te amo. Digo-me, uma e outra vez. Amo-me a mim. Amo-me a mim que estou sozinha e que não posso contar contigo nem com ninguém. Se ao menos conhecesse alguém com metade da minha consciência e da minha boa vontade... Nunca me custou devolver sorrisos à cara das pessoas, mesmo que tivessem que ser pagos em troca dos meus pequenos prazeres.
Estou cansada de egoísmos, de dores que não saram, de constatações que soam como avisos e que, com o tempo, me obrigo a esquecer para poder viver sobre um chão habitável; que não cheire mal, que não se afunde a cada passo, que não me revele mais egoísmo e mais desconsideração.
De todos os erros que cometo, aprender tarde é sempre o pior. De todos os que cometi, gostar de ti talvez tenha sido o pior: aquele que me catapultou para esta estrada onde os maus momentos e desconfortos se sucedem repetidamente.
Do pior que podia ter feito a mim mesmo, não há nada como estas recaídas que vou tendo e que me roubam a minha vida para a tornar vivida em função de ti.
Sendo o amor o oposto antagónico de ódio,
Odeio-te neste momento, como há meses receava odiar.

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