17 julho, 2009

Os meus olhos nos teus, deixa-me adivinhar

Amor,

Posso chamar-te assim de novo, ou tenho que continuar com mentiras para te fazer feliz? Ontem brincámos tanto, brincámos como ambos temos permitido que brincássemos num acordo mútuo e silencioso de sermos amigos - e bons amigos.
Primeiro disse-te: porque é que tens medo de estar sozinho comigo? Eu não mordo. E tu agora pareces procurar os lugares a meu lado, ou não foges se eu procuro o lugar vazio à tua direita.
Depois disse-te: estamos a cair na mais comum das vulgaridades, batemo-nos, rimos, dizemos piadas, insultamo-nos e não temos uma conversa decente. Disseste que gostas das nossas discussões, já tinhas dito que te fazem felizes, mas há tanta coisa que te faz feliz. Agora sentas-te ao meu lado no café e falamos baixo sobre o fascismo, o Alberto João Jardim, o comunismo, línguas, política, religião, amizade, amor, sexo. De repente conheço-te e tu conheces-me mais.
Ontem aconteceu umas quantas vezes estar a teu lado e sentir a tua anca na minha anca, o meu pé na tua perna, as tuas costas no meu braço, o teu cheiro nas minhas narinas. Depois provocas-me e eu provoco-te, interrompemos as conversas um do outro só para ver o outro irritado. Olhas-me nos olhos, franzes as sobrancelhas. Olho-te nos olhos, desafio-te com o olhar, ergo a sobrancelha, sorrio. Depois não temos que dizer nada, dou-te uma bofetada e fico a rir-me, mas não por muito tempo porque a seguir tu dás-me uma com o teu mínimo de força, mas é o suficiente para o meu ouvido zumbir, o cabelo esvoaçar e eu levar a mão à cara. Depois eu falo alto, mandas-me calar, falo demais, à minha maneira, fazes um bico de pato e imitas-me "blábláblá", e eu irrito-me e dou-te uma palmada no braço e tu dizes "Vêm?". Depois agarras-me nos pulsos e obrigas-me a rodar para um lado e para o outro enquanto tento libertar-me. Pelo meio sinto-te aqui e ali, rio. Ao menos não o mencionas quando a tua mão ou cotovelo toca algo que não devia, e eu não o menciono por saber que a culpa é minha, que se calhar o quis. Depois mordes-me a mão, na próxima oportunidade sabes que vou tentar morder a tua. Dou-te uma palmada no rabo, pegas em mim ao colo, de costas para todos, estou de saia, com as ancas nos teus ombros e, atrás de nós, no café, todos teriam visto o que não deviam ver, não fosse a maravilha das leggins. Depois balbucias qualquer coisa sobre "coitado do homem que se casar comigo" e sobre o facto de eu "dever ser estudada" e de ser uma "personagem de banda desenhada". Depois uma das minhas amigas diz "Quando ela se casar vai bater ao marido", e eu olho para ti e digo:
- É verdade, é por isso que queria casar contigo, para te bater a toda a hora.
E, quando regresso a casa, só carrego os teus olhos nos meus, quando estamos a centímetros de distância, e o modo como às vezes não tenho a certeza de para onde estás a olhar. Não desvio o rosto, nem o olhar. Até arrisco erguer as sobrancelhas só para te irritar. Sorrio-te e digo qualquer coisa que te faz revirar os olhos. A três quartos, o vínculo entre os teus lábios e o teu nariz é lindo. A forma dos teus lábios é linda. À luz nocturna, a tua covinha no queixo é linda. O teu olhar é lindo e a tua alma que explode com a luz de mil estrelas cadentes, é linda.
Meu amor,
és tanto.

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