Não me apetece chamar-te príncipe, porque para mim perdeste o encanto. Tenho uma capacidade única de me auto-convencer que algo está errado e que tem que mudar. Com a devida insistência, muda de tal forma que não há retorno. A partir daí, aquele caminho é caminho a não pisar. Não nasci, muito provavelmente, para a família e para o lar. Nasci para passar as noites a escrever ou a ver séries ou filmes com um cão ou um gato ao colo num ambiente místico, com budas, incenso, almofadas, verdes alface e vermelhos aconchegantes. Pensei que por ti podia mudar a minha natureza, que os quilómetros de estrada percorrida terminariam em paz de espírito e liberdade, mas é bem mentira. Terminam em mim presa a ti, a achar que preciso de ti para ser feliz, e tu, solto como és, talvez até mais preso a mim, mas eu nunca me sentiria segura contigo, porque eu preciso que me mostrem e que me falem de segurança, e tu enfadas-te com quem não entende isso em silêncio. Pensava que ficaria contigo pelo resto da minha vida, mas cada vez tenho mais vontade de fugir dessas perspectivas, contigo e com qualquer um. Não digo que acordar e não ter a cama ao lado vazia não seja bom, mas não merece o esforço. Vejo-me antes em capitais, por aí, dedicada às artes, a viver romances nos que escrevo e nos que leio e a ser assim feliz. Achas que é uma vida vazia? Não acho. Acho que terei imensas dimensões na minha mente e que, só por isso, poderei saciar as minhas necessidades de felicidade e também as de lágrimas, que as tenho. Olha eu em Praga, em Florença, em Viena, em Genebra? Olha eu no Egipto, no Quénia, no Peru! Olha só para mim em Nova Iorque, Toquio, Bombaim? Serei feliz por aí, com a máquina fotográfica a coleccionar bustos egípcios, t-shirts a dizer "I Love NY", máscaras africanas, pequenos budas, um sari indiano, um alcorão. Uma biblioteca internacional, nas minhas estantes e fotografias da minha fluidez nas paredes: eu aqui, eu ali. Eu em todo o lado. Não saberei viver num só espaço nem estar fechada o dia inteiro. O meu trabalho não pode ser uma forma de ganhar dinheiro, mas de viver a vida. Este meu trabalho é um milagre porque foi ele que me encontrou. Hei de viver muitas vidas, não só a minha. Talvez me apaixone pelo exotismo de um israelita, pela sensualidade de um italiano, pela nobreza de um médico em serviço pela ONU na Namíbia, por um guia egípcio e um motorista ou transfer irlandês. Cada um há-de chegar no momento certo e espero que, ainda assim, seja uma surpresa. Que quando eu vá à Sardenha tenha lá o Giuseppe e que quando chegue à Suiça tenha o Jean-Pierre à minha espera. Tudo muito decente, tudo muito claro.
«Adeus, até para o ano!»
Ontem fizeste-me a seguinte pergunta:
«Quando as coisas vêm tarde, ou não vieram quando querias, achas que já não é bom? Já não vale a pena?»
E eu respondi-te com sinceridade:
«Acho que vêm fora de prazo, tarde demais. Só vêm perturbar-me, já não as quero».
Nem eu sei do que falávamos.

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