12 maio, 2010

Na tua fita, amor da minha vida, escreverei assim:

G,

É um milagre que, aos 21 anos, ainda não tenhas sido seduzido pelas facilidades do mundo e não tenhas começado a virar as costas às coisas que importam. É um milagre que estejas connosco, todos os fins-de-semana, quase todos os acontecimentos, apesar de seres um cidadão do mundo e de, como costumo dizer, estares dividido em tantos. És único em tantos aspectos que se torna difícil enumerar. Fácil? Não és, e estarias decepcionado se fosses, não é? Aprecias a complexidade porque sabes que é mais rica do que o raciocínio básico, porque sabes que és mais como pessoa por seres como és. Conheces-me o suficiente para saber tudo aquilo que acho que devias melhorar, mas talvez não saibas que só o faço porque és um diamante em bruto, porque, mesmo havendo a possibilidade de não vires a ser importante para o país, para o mundo, para uma comunidade, serás sempre um dos sóis das pessoas à tua volta. É impossível conviver contigo sem te notar, é impossível que não toques a vida da pessoa, assim como é impossível não estar atento quando os teus olhos brilham, as tuas mãos gesticulam, a tua voz se distingue das outras a elaborar um dos teus discursos, todos eles dignos de crédito. É tão bom que te dês ao trabalho de pensar, é tão bom que, horas, dias, semanas depois, vás pegar num assunto do passado, dado por encerrado, e lhe atribuas importância, e nos faças saber que as tuas ideias não dormem ali, a tua passividade perante tanta coisa é, tantas vezes, necessidade de repensar. Tal como me disseram a mim, digo-te a ti: também não pareces ser deste tempo, pareces saber mais do que qualquer pessoa à nossa volta, ter vivido mais do que qualquer um de nós e, ainda assim, tens uma paciência e uma tolerância invejáveis. És um ser humano singular, G, pessoa difícil mas em tudo merecedora. Tantas vezes dou por mim a formular teorias para tentar compreender o que te vai na cabeça, e depois dizes que não te conheço, que ninguém te conhece. Creio que, como eu, dificilmente alguém derruba todas as barreiras e chega aí dentro, dificilmente alguém ouve o G. N. falar de coração sobre algum assunto, geralmente é irónico, evasivo, ou limita-se a ficar em silêncio ou a sorrir. Não sei, como todos os outros, que caminhos percorres até chegar a uma ideia, que objectivos te movem, mas sei, geralmente, que passo vais dar a seguir. Sei o que tens a dizer de determinado assunto, ainda que a tua opinião não transborde, eu sei que, sendo o G.N. a manifestar-se, vai dizer que é do PCP: pois se o público é do PS! O G.N. vai de escadas e vai fazer um sermão sobre o facto de nós, que descemos de elevador, sermos todos uns cansados. O G.N. não te vai ajudar a cortar cenouras, a menos que não peças e que estejas a demorar. O G.N. não vai dizer-te: «anda cá, dá-me um abraço, já percebi que estás mal». Vai, ao invés, dar-te um empurrão com o ombro, rir-se de ti, dizer «otário, não te mexas que não é preciso». Será que sabe o quanto isso muda a vida de alguém? Será que sabe que a sua força de vontade é inspiradora? Será que sabe que, quando trabalhava, me levantava diariamente da cama e repetia a mim mesma «Se fosse o G.N., ia e pronto». Se estivéssemos no final das nossas vidas e eu tivesse o privilégio de escrever o prefácio da tua biografia, seria algo assim: «G. N., Homem de ideias, nem sempre claras, mas existentes e firmes, Homem que despreza a ignorância, o marasmo, a preguiça, o comodismo, a desonestidade, a mesquinhez. Homem tolerante, liberal, consciente, Homem de princípios e de valores. Homem recto, com H grande, daqueles que se preocupam sem dramas, que ajudam sem cobranças, que simplificam situações e ultrapassam obstáculos. Daqueles que, de tão lúcidos, rejeitam divagações. Amante de música e de outros vícios e prazeres, por ser igualmente amante da vida, que valoriza como hoje em dia pessoas menores valorizam casas bem situadas, carros caros e televisores LCD. Homem que, quando aos 20 anos falava num largo em A. perante um público de velhos, era atentamente ouvido. Homem cujo coração vive ali e a alma vagueia livremente pelo mundo. Homem lógico, bom, sobretudo bom, Homem de não alta estatura, mas alma imensurável. Inteligente, interessado, dado até onde considera conveniente, presente, Homem que não abandona avós, pais ou amigos, que não nega uma cerveja a quem lho peça. Motivo de orgulho e, tantas vezes, de comoção. Homem que brilha, onde quer que vá, e que carrega em si mil e uma outras vivências e lugares, e que, pensativo, desenha círculos com o fumo do cigarro». E agora, para que saibas que o teu nível de arrogância é sobretudo elucidativo, dando-te até um certo charme, concluiria: «Homem humilde, grande, grande à altura dos maiores. Nem este espaço será nunca suficiente para o abraçar na totalidade»,

Meu grande, grande, G.

(Amor da minha vida)

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