04 junho, 2010

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Mataste-me.


30 maio, 2010

Sextape (Deftones)

Isto está cada vez mais complicado, não? Quando dou por mim a fazer-me demasiadas questões é porque está complicado, quando mais escrevo no blog mais complicado está. De vez em quando sou confrontada com as coisas que faço por ti, ou por gostar de ti, e bem me envergonho. Preferia expulsar isto tudo da minha vida e abrir-me ao futuro, viesse o que viesse, seria sempre melhor do que é agora.

Ter de mentir-te começou a pesar-me. Não é que tu ligues mas, em último caso, é uma mentira, a minha única mentira e, curiosamente, sobre a coisa mais importante para mim: o meu amor por ti. Dou a entender uma e outra vez que não gosto de ti, e é mentira, é tanto mentira que aqui ando, a arrastar-me novamente pelos cantos, por precisar tanto de ti. Não te preocupes, meu amor, desta vez vou seguir o teu conselho. Vou «cagar alto» para o que os outros dizem, somos só eu e tu, seja no que for. Temos uma relação que é só nossa e que não deve ser contaminada pelo que vem de fora e que eu, insegura, tantas vezes humilhada, culpada, medrosa, trago para dentro.

Envergonho-me tanto de mim...

E hoje apercebi-me de mais um gesto de amizade teu, tens-me dado tantos, e eu poderia ser feliz, se não quisesse mais. E percebo tão bem que eu, todo o eu, te faça confusão, te cause a irritação que alguma espécie de pessoas me causa, que te faça querer corrigir-me constantemente. Não sei ser fácil contigo, falo sempre demais quando é contigo, porque tenho ânsias que vejas a realidade como a vejo, que saibas a verdade, o chão que piso e o chão que pisas. Oh amor, és tããão melhor do que eu, talvez seja verdade que não te mereço, logo eu que, estupidamente, cheguei a pensar que fosse ao contrário.

Só me recordo de dizeres que tenho coisas nas quais sou «impecável», é que só te vejo a por-me defeitos intercalados com «por essa altura já serás a melhor pessoa do mundo», o que tenho eu, a mais-que-imperfeita C., de impecável? De bom? De honesto, se só a ti te minto? De recomendável? Quando o melhor de mim continuas a ser tu?

Amor,
Que o universo me ajude a conter as palavras, as mesmas tão destruidoras.

29 maio, 2010

Moonlight walk

Ontem estivémos em A., no nosso cantinho habitual, e tu com o teu amigo "Viriato", aquele bêbebo incorrigível e mulherengo. Das poucas vezes que o vi estava a dar em cima de alguém. Ontem foi em cima de mim. Nós num cantinho, tu numas escadas e eu a um lugar de ti, sentada num muro, e o teu amigo inconveniente a apalpar-me uma e outra vez as pernas, e eu a passar-me, a gritar-lhe, a desejar que o mandasses parar. E tu nada. Até que a tua voz, séria como ela sabe se ser, se virou para mim baixo:
- Já está a ser demais, C.?
- Está, G. - respondi, incomodada.
E tu disseste, meu amor de vinho quente e de noites de luar:
- Então senta-te aqui ao pé de mim.
E eu fui sentar-me ao teu lado, no espacinho entre o teu degrau de escada e o muro onde estava anteriormente sentada. A minha anca na tua, as nossas pernas a tocarem-se ocasionalmente, e o teu amigo a ir lá ainda assim, uma e outra vez, só para me irritar. Mas ele não interessa para nada, o que interessa és tu ali sentado, eu voltar a cara e ter a tua a centímetros da minha, saber que me ouves, sentir o calor do teu corpo ao lado do meu, saber que te preocupas discretamente, todo o teu verdadeiro «eu» é discreto, e que me quiseste a teu lado para me protegeres à tua maneira. A cada vez que olhava sobre o ombro tinha-te ali, as tuas rugas à luz pardacenta dos candeeiros que chega àquele canto, o teu sorriso a acentuá-las.
Depois fomos a um bar qualquer, todo chique, e tu a beber vinho de copo ao balcão, e tu a ir à porta, e tu a fumar um cigarro e eu a pedir-te uma baforada nele, e tu a negar-me, a alegar que ando com tosse, que me faz mal, mas para beber um golinho do vinho. E eu a ver-te, uma vez mais, preocupado comigo, e a ocultar a felicidade no orgulho e a insistir até que me cedes o cigarro já tocado pelos teus lábios.
Por fim, enquanto o casal nosso amigo discutia, decidiste que estava na hora de irmos para casa. Puxaste-me a mão, por um instante demos mãos e demos até três passos de mão dada, e devias saber que contigo vou a qualquer lugar. Desviaste o caminho para a minha casa, através daquelas escadinhas que levam ao coração de A.V., e despedimo-nos dos outros, que não nos quiseram acompanhar. Eu disse-te: «não tens que me levar a casa» e tu fizeste a tua expressão de «mas quem é que manda? Mas quem é que sabe aqui?», e eu calei-me, graças ao teu deus, vieste meu amor. E eu sabia que tínhamos uma curta caminhada pela frente, com uma subida íngreme e uma descida acentuada no final da qual tens a minha casa. Enquanto subíamos, fomos falando de outras pessoas. Enquanto descíamos, falámos de nós. Ias parando, perguntei-te se estás bem, perguntei-te umas quantas coisas e tu ias respondendo calmamente. Como desejei que, num daqueles becos e recantos que conheço tão bem, me tivesses encurralado… Na curva antes de chegarmos à minha casa, imaginei a nossa despedida: decidi que não te deixaria ir só com um aperto de mão, ia dar-te, ao menos, um beijo no rosto. Tenho saudades dele. E, como diz a minha irmã, aconteceu algo que julgava que só acontece nas novelas ta TVI: um conhecido nosso, às três da manhã, a passar na minha rua. Lá se foi o nosso momento, mesmo à filme. Ele foi inconveniente o suficiente para nos perguntar, espantado por nos ver ali sozinhos, se andamos a «comer-nos». E nós respondemos em coro que sim. É curioso que ninguém desconfie dos que se comem realmente, e tenhamos todos os olhos em nós a julgar que nos comemos. Péssima expressão.

Entrei em casa e segui a luz leitosa da lua até à marquise, ao fundo. Através da janela de vidros foscos, vi a redondez da lua lá fora e o círculo de luz em seu redor. E deixei-me escorregar pela parede até me sentar no chão de azulejos, até ser só uma sombra negra, tosca, no chão, a ouvir Maria Bethânia às três da manhã, a abraçar-me a mim própria e a imaginar que eras tu. E a sorrir, a sorrir porque é o amor que mexe com a minha cabeça e me deixa assim, que faz eu pensar em ti e esquecer de mim, que faz eu esquecer que a vida é feita para viver. Foi como um tiro certo no meu coração, e eu a saber que, ainda não foi desta que nos beijámos, ainda não foi desta que te disse, uma vez mais, pela terceira vez, e à terceira é de vez, que te amo. Por algum motivo o destino tem adiado tanto esta terceira vez. Mas mesmo comigo a obrigar-me a ocultar o que sinto, por deitar abaixo as pequenas coisas que nos vão acontecendo e por achar que são ilusões, pequenos tesouros que fabrico, não vou negar que me passaste o braço pelo ombro, que me deste a mão, que me protegeste, que te amo e que acho, talvez estupidamente, que há a possibilidade de já não estar sozinha nisto. Acordei algumas vezes durante a noite, embriagada de felicidade, a recordar-me do nosso passeio sob as estrelas.

Eu amo-te, príncipe. Eu amo-te.

27 maio, 2010

Meu pedacinho de céu

Antigamente,

Quando me sentava a teu lado e me punhas a rir, eu batia-te e tu fugias. Esfregavas o braço, dizias «tenho que me ir embora daqui». Agora deixas-te ficar. Agora, enquanto falo contigo, ouves-me, do início ao fim, não foges a meio. Agora, de quando em quando, pões-te de pé, não te afastas, olhas para mim, sorris, fazes piadas e contas coisas que te ocorrem no momento e que só fazem sentido para mim. Agora, quando alguém te diz algo significativo, que despoleta em ti qualquer emoção, o teu cotovelo chama o meu braço, o teu olhar reclama pelo meu, o teu sorriso quer acordar o meu. E eu fico ali, a teu lado, enquanto ficas também, meio derretida, meio noutro mundo, inebriada, embriagada de felicidade, a ouvir-te contar o que quer que seja, a sentir a tua pele roçar a minha ocasionalmente, a desejar que não fujas, que desta não vás embora, que eu não te espante, mesmo sem deixar de ser quem sou. Mas, por algum motivo, há uma voz inexplicável que, cá de dentro, me garante que desta vez não vais a lado nenhum.

E eu amo-te,

Príncipe, «você traz felicidade»


(Numa última discussão, disse-te que te aceito tal como és, pedi-te que me aceitasses da mesma forma. E tu, entre os nossos esbracejos, disseste a seguinte frase, que não têm saído da minha cabeça: «eu também posso mudar», tu, o homem do «eu não vou mudar, não preciso de mudar, não tenho que mudar para pôr ninguém feliz»).


23 maio, 2010

Haja o que houver...

G.,

Eu bem tenho estado alerta à espera do instante em que virá o sinal de que esta espécie de 'conto de fadas' de nós os dois é só a tua aproximação a mim como amiga, eu sei o quanto gostas de mim. És suficientemente boa pessoa para gostar este tanto de mim sem interesses românticoss. Mas finalmente, tive a prova que precisava de que «ainda não é desta», ou será novamente um daqueles casos em que tu és infinitamente diferente de mim? Em que planeias o futuro e guardas o melhor para mais tarde? Não sei, não quero ilusões.

O que importa é que te dei a fita na sexta-feira passada e, três noites depois, ainda não a leste.
Fazes ideia de como eu devoraria três faces de fitas académicas que tu me escrevesses no instante em que me apanhasse a sós?

Mas depois dizes-me coisas tão bonitas, meu amor, que nunca pensei ouvir de ti, como «eu também posso mudar», disseste-me agora mesmo, como te amo,

Enfim,
petit prince.

20 maio, 2010

Das 13h às 18h

Uma imagem recorrente é aquela de duas pessoas num relvado deitadas, ele com a cabeça no ventre dela. Carinhosamente, devagar, com receio de o afastar, ela afaga-lhe o cabelo para depois, mais confiante, enterrar os dedos nele. Já é um progresso, tendo em conta que ele se enfurece geralmente quando lhe mexem no cabelo. Uma vez ele confessou-lhe esse ponto fraco em tom de confidência, sorriu e piscou-lhe o olho. Ela perguntou-se várias vezes se ele saberia que essa prova de confiança da parte dele a fez amá-lo um bocadinho mais, assim como todas as outras pequenas coisas inesperadas:

aquela vez em que ele rejeitou a mão dela quando ela precisava de apoio para, ao se aperceber da importância do gesto para ela, pegar nessa mesma mão e beijá-la. ou quando a incitou a demonstrar o seu amor por ele, para evitarem brigas, e lhe sorriu uma vez mais quando ela beijou a dele. ou, talvez, daquela que disse que ela iria ser a melhor pessoa do mundo, ou aquelas em que afirmou que ela já era a melhor pessoa do mundo. ou o uso de adjectivos como «única», não importa o que viesse a seguir. ou as vezes que demonstrara que se lembrara dela a propósito de qualquer coisa sem grande importância, e é nessas coisas que uma pessoa ambiciona infiltrar-se na vida de outra, tomar-lhe conta dos pensamentos, do dia-a-dia, controlar as suas associações mentais, os seus impulsos, as suas coincidências.

Ela sabia que ele precisava de tempo e, ainda assim, um dos seus traços marcantes, a impaciência, fê-la pedir-lhe baixo, em tom de que não insiste, de quem espera se tiver de esperar, mas garante que não há necessidade de o outro se fazer esperar, que se conte. «Conta-te a mim, por favor». Deitados na relva, sob a sombra de plátanos, enquadrados por monumentos citadinos de ferro, como ombreiras sem porta, janelas abertas para a paisagem, pombas cujo desenho só é reconhecido visto do céu, ela aguarda que ele fale. Conta devagar até 10 e decide que vai falar do tempo se ele não iniciar a narrativa. Ela quer tanto ouvir relatos da sua infância, do momento exacto em que decidiu dar-lhe uma oportunidade, do que o levou até
ali...

enfim, seria uma tarde de confissões, na qual o silencioso se conta e o extrovertido se mantém calado, a escutar atentamente. o amor é muitas vezes isso: cala-se quem costuma falar, fala quem costuma estar calado. seria uma tarde em que um procura perceber porque é que ama tanto o outro, e o outro começa a desconfiar amá-lo na mesma: como é que não viu isso vir? seria, talvez, a nossa tarde.

Oh amor, como é que não vês a perfeição que somos juntos, mesmo que o nosso retrato conjunto seja feito da matéria dos sonhos, dos arco-iris, das fábulas, dos el dorados e da imaginação? Como é que não vês que temos muito mais do que tantos que vemos ao nosso redor, eu e tu juntos temos muito, e como é que não admites que pode ser suficiente?

18 maio, 2010

Smoke gets in your eyes

"All who love are blind".

Primeiro, as conversas, as palavras, as insinuações, os sorrisos, os rostos corados, os embaraçados:

P: Ouvi dizer que o G. é o amor da C., não é verdade?
G. e C. em silêncio, entreolham-se sorridentes e corados.
P: Ou é ao contrário?
C. ainda mais ruborizada, procura os olhos do G., ruborizado, e silêncio.
P: O que é que há aí? Vê-se que há aí coisa...
C, desesperada por fugir dali:
C: Claramente, nada!
G. em silêncio.
P: Com que então o G. é o amor da vida da C...
J. (pondo-se de pé e sorrindo) Eu ouvi dizer que era mais ao contrário, mas enfim...
C., A. e V. entreolham-se meio espantadas meio a sorrir.
P: G. Vocês eram um bonito casal, o G. é inteligente, a C. também é inteligente?
Assistência em silêncio, C. e G. corados, a apertar as mãos no colo e a sorrir para o tecto.
C: Os nossos filhos iam era ser anãos, somos os dois baixos.
G: Era (em tom ofendido).
P: Vocês eram um bonito par. C., se namorasses com o G. e ele apanhasse estas bebedeiras de sempre, o que é que fazias?
G. espera pacientemente, C. revira os olhos, fita o tecto, coloca-se a pergunta de sempre: deixava-o? Não. Discutia? Não. Fazia-lhe um ultimato? Não.
C: Batia-lhe, dava-lhe uma coça (embora saiba que não).
P: G., se a C. namorasse contigo deixavas a bebida?
Preparo-me para ouvir a explosão de riso sarcástico e o habitual «eu sou livre, não deixo de fazer nada por ninguém, ora essa», e oiço, ao invés, um introspectivo:
G: Eu por uma mulher destas fazia tudo.
C. sente o coração dar três piruetas extremamente perigosas e sente vertigens. "Não quer dizer nada", repete.
(Pouco depois)
G: Vou-me embora, é tarde.
P: Vais-te embora G.? Não dás um beijinho à C.? Vá, dêem lá um beijinho...
C. ignora completamente o que o G. diz a rir e, antes que ele tenha ideias, ordena-lhe que vá embora com um gesto impaciente. Com um sorriso insinuante, G. declara:
G: Eu ainda vou vê-la hoje (isto às duas da manhã).
Ao que P., com naturalidade, retribui:
Justificar completamenteP: Ah, hoje vais lá dormir a casa, C.? O que diz o pai dele disso?

Agora, oh príncipe sem coração, retira as falsas verdades daqui. Retira a brincadeira, retira o sarcasmo, a ironia, a brincadeira pura, as armadilhas, os teus testes. Tira tudo o que não é verdade, tudo o que não seria assim, tudo o que não são planos, vontades, embaraço, tudo o que não é amor, e deixa-me sem nada.

Não dês mais pontapés no meu peito, ele já não bate a um ritmo regular.

220

G,

Hoje, devido ao concurso literário no qual pretendo concorrer, lembrei-me de corrigir erros ortográficos nos meus "manuscritos". Recordei-me de um erro recorrente, o meu típico "devia de", que tu tanto criticas. Inseri no "localizar" do word o dito cujo e depois perdi alguns 10 minutos a corrigir "devias de" em cerca de 440 páginas. Curiosamente, a meio do documento, o "localizar" declara não ter mais nada a apontar. Os "devias de" pararam. Sorri: deve ter sido aí, na página 220, que entraste na minha vida.

Amor dela,

12 maio, 2010

Na tua fita, amor da minha vida, escreverei assim:

G,

É um milagre que, aos 21 anos, ainda não tenhas sido seduzido pelas facilidades do mundo e não tenhas começado a virar as costas às coisas que importam. É um milagre que estejas connosco, todos os fins-de-semana, quase todos os acontecimentos, apesar de seres um cidadão do mundo e de, como costumo dizer, estares dividido em tantos. És único em tantos aspectos que se torna difícil enumerar. Fácil? Não és, e estarias decepcionado se fosses, não é? Aprecias a complexidade porque sabes que é mais rica do que o raciocínio básico, porque sabes que és mais como pessoa por seres como és. Conheces-me o suficiente para saber tudo aquilo que acho que devias melhorar, mas talvez não saibas que só o faço porque és um diamante em bruto, porque, mesmo havendo a possibilidade de não vires a ser importante para o país, para o mundo, para uma comunidade, serás sempre um dos sóis das pessoas à tua volta. É impossível conviver contigo sem te notar, é impossível que não toques a vida da pessoa, assim como é impossível não estar atento quando os teus olhos brilham, as tuas mãos gesticulam, a tua voz se distingue das outras a elaborar um dos teus discursos, todos eles dignos de crédito. É tão bom que te dês ao trabalho de pensar, é tão bom que, horas, dias, semanas depois, vás pegar num assunto do passado, dado por encerrado, e lhe atribuas importância, e nos faças saber que as tuas ideias não dormem ali, a tua passividade perante tanta coisa é, tantas vezes, necessidade de repensar. Tal como me disseram a mim, digo-te a ti: também não pareces ser deste tempo, pareces saber mais do que qualquer pessoa à nossa volta, ter vivido mais do que qualquer um de nós e, ainda assim, tens uma paciência e uma tolerância invejáveis. És um ser humano singular, G, pessoa difícil mas em tudo merecedora. Tantas vezes dou por mim a formular teorias para tentar compreender o que te vai na cabeça, e depois dizes que não te conheço, que ninguém te conhece. Creio que, como eu, dificilmente alguém derruba todas as barreiras e chega aí dentro, dificilmente alguém ouve o G. N. falar de coração sobre algum assunto, geralmente é irónico, evasivo, ou limita-se a ficar em silêncio ou a sorrir. Não sei, como todos os outros, que caminhos percorres até chegar a uma ideia, que objectivos te movem, mas sei, geralmente, que passo vais dar a seguir. Sei o que tens a dizer de determinado assunto, ainda que a tua opinião não transborde, eu sei que, sendo o G.N. a manifestar-se, vai dizer que é do PCP: pois se o público é do PS! O G.N. vai de escadas e vai fazer um sermão sobre o facto de nós, que descemos de elevador, sermos todos uns cansados. O G.N. não te vai ajudar a cortar cenouras, a menos que não peças e que estejas a demorar. O G.N. não vai dizer-te: «anda cá, dá-me um abraço, já percebi que estás mal». Vai, ao invés, dar-te um empurrão com o ombro, rir-se de ti, dizer «otário, não te mexas que não é preciso». Será que sabe o quanto isso muda a vida de alguém? Será que sabe que a sua força de vontade é inspiradora? Será que sabe que, quando trabalhava, me levantava diariamente da cama e repetia a mim mesma «Se fosse o G.N., ia e pronto». Se estivéssemos no final das nossas vidas e eu tivesse o privilégio de escrever o prefácio da tua biografia, seria algo assim: «G. N., Homem de ideias, nem sempre claras, mas existentes e firmes, Homem que despreza a ignorância, o marasmo, a preguiça, o comodismo, a desonestidade, a mesquinhez. Homem tolerante, liberal, consciente, Homem de princípios e de valores. Homem recto, com H grande, daqueles que se preocupam sem dramas, que ajudam sem cobranças, que simplificam situações e ultrapassam obstáculos. Daqueles que, de tão lúcidos, rejeitam divagações. Amante de música e de outros vícios e prazeres, por ser igualmente amante da vida, que valoriza como hoje em dia pessoas menores valorizam casas bem situadas, carros caros e televisores LCD. Homem que, quando aos 20 anos falava num largo em A. perante um público de velhos, era atentamente ouvido. Homem cujo coração vive ali e a alma vagueia livremente pelo mundo. Homem lógico, bom, sobretudo bom, Homem de não alta estatura, mas alma imensurável. Inteligente, interessado, dado até onde considera conveniente, presente, Homem que não abandona avós, pais ou amigos, que não nega uma cerveja a quem lho peça. Motivo de orgulho e, tantas vezes, de comoção. Homem que brilha, onde quer que vá, e que carrega em si mil e uma outras vivências e lugares, e que, pensativo, desenha círculos com o fumo do cigarro». E agora, para que saibas que o teu nível de arrogância é sobretudo elucidativo, dando-te até um certo charme, concluiria: «Homem humilde, grande, grande à altura dos maiores. Nem este espaço será nunca suficiente para o abraçar na totalidade»,

Meu grande, grande, G.

(Amor da minha vida)

09 maio, 2010

Sexto Sentido

O que foi que nos aconteceu?

Preciso de gritar isto. O que foi que nos têm acontecido? Explica-me por favor, que eu já não tenho forças para continuar a tentar adivinhar. Sabes de que lembro? De ti, alguns passos atrás de mim, a dizer que estavas apaixonado. Repenso a tua expressão de surpresa mil vezes «eia chavalo, estou apaixonado». Ninguém te ligou nenhuma, como é óbvio, mas eu conheço-te. Nunca te ouvi dizê-lo em 5 anos se não aí. Caiu-me tudo naquele instante, pensei que só podia ser eu, e quanto a isso sei que não estou enganada. Tinhas feito comentários antes, andávamos meio inebriados um no outro nesses dias. Estávamos em Milfontes e as férias a acabar. Depois, chegámos, desapareceste para a terra do teu avô e nunca me ligaste, nunca perguntaste por mim. Depois, regressaste ao nosso templo, à nossa cidade, e ficaste uma semana fechado em casa. Explica-me porquê? Não consigo tirar da cabeça que tive alguma coisa a ver com isso. Querias apagar-me de ti? Querias obrigar-te a arrancar-me da tua cabeça antes de voltares a estar comigo? Ficámos algumas três semanas sem nos vermos depois de quase, quase, termos sido tudo. Fazes ideia do que isso fez em mim? Continuo a ver os três dias do regresso de Milfontes como luto. Eu estava de luto por mim, por não termos dado um passo a partir do ponto onde estávamos antes, por ter visto tanto e tudo ter dado em nada. Por julgar que podias estar a gostar de mim só um quinto do que eu gosto de ti. Depois voltamos e silêncio. Estive três dias sem almoçar nem jantar, sem tomar banho, sem sair de casa. Ao terceiro dia, a definhar, decidi dar um passeio. Queria ir à igreja perguntar se é crime amar tanto, à mesma igreja onde és escuteiro. Às vezes recordo-me desta história. Chorei, pensei em coisas péssimas, quase morri sem ti. Mas não te procurei, já viste o meu acto de bravura? Não te procurei, não chorei para ti, não te disse que estava a morrer naquele momento. Levantei-me sozinha.

Depois disso, tenho visto muito mais coisas. Há alturas em que somos ninguém um para o outro. Há outras em que me parece que o mundo virou para nós, quando estamos demasiado perto, sinto sempre que falta um único passo, só um, para sermos o tal tudo. Como em Portimão, quando me emolduraste o rosto, ambos sozinhos na noite depois de um passeio de braço dado em que fui sincera contigo sobre o contributo que tens dado para a minha aprendizagem pessoal. Quase fechei os olhos, pensei: é agora. E o que é que tu fazes? Soltas-me o rosto, recuas. Se soubesses como encolho nesses instantes. O que te falta? É coragem? É medo que tens de mim? Do que poderíamos ser? Achas que eu não tenho? A cada dia que passa e te vejo embebedar-te, falar demais, ser inconveniente e raiar a arrogância, penso que seria difícil. Seria muito difícil, mas mesmo sendo difícil seria bom. Seria o melhor que me podia acontecer, pertencer-te e tu, metaforicamente, a mim. É liberdade que queres? E crês que eu seria a tua prisão? Eu sou um pássaro, como tu, meu amor. E depois veio aquela rapariga, recém-licenciada em psicologia, chorar para uma amiga nossa e dizer que é uma pena que o mundo esteja do avesso, que é uma pena que ela leia em ti que gostas de mim - possivelmente errada, mas cada vez creio mais no oposto, e não é de ilusões que vivo - mas que não tens lugar para mim. Como é isto possível, G., se cada um de nós é tanto, se rimos juntos, se apertamos as mãos, se te desejo, se já vi desejo nos teus olhos, se te admiro, se me orgulho de ti, se já me declaraste a tua admiração tantas vezes, se dava a minha vida por ti, se creio que te preocupas igualmente comigo, se não suporto ver-te com outra pessoa, se desconfio que acontece o mesmo contigo, se o meu riso fica nervoso quando não consigo controlar ciúmes e irritação, se o teu recai no sarcasmo na mesma situação? Como é possível que não gostes de mim, não me ames, pelo menos, porque o amor é silencioso e paciente e a paixão grita de urgência, se me beijas a mão, se danças comigo à noite na rua, se fazes insinuações, se às vezes coras, se às vezes os teus olhos fogem dos meus como os meus dos teus, se me respeitas subtilmente, daquele teu modo especial de ceder não publicamente, de desviar ligeiramente as peças para que eu ganhe sem que ninguém, a não ser eu, se aperceba que decidiste dar-me a vitória numa discussão, se ultimamente as minhas mãos dificilmente se afastam de ti, e se as tuas têm estado mais do que habitualmente em mim, se as nossas se têm entrelaçado com frequência, se, quando conversas, toda eu te oiço ainda que, a meu lado, alguém se dirija a mim, se, mesmo quando não estou à espera distraída a falar com alguém, a tua voz interrompe com um sorriso irónico e as tuas observações espirituosas de habitualmente. Se toda a minha vida gira em torno da tua, se já fazes caretas às minhas amigas, encolhes ombros, dizes carinhosamente que eu não tenho remédio, se te irritas com coisas pequenas que antes te passavam ao lado, se dizes que não confio em ti, que te acho um mentiroso, que não te conheço, se te ofendes com qualquer má juízo que faça de ti quando te cagas sobre tudo o que o mundo tenha para te dizer, quando chegas por trás, encostas o teu corpo ao meu de lado, encostas a testa na minha, a minha pele na tua, o meu cabelo no teu, os nossos narizes quase juntos e dizes baboseiras que não oiço porque a tua essência, o teu calor, o teu cheiro, cega-me, hipnotiza-me, adormece a razão em mim. Se te amo tanto que o meu amor não cabe em mim e transborda, inunda tudo à minha volta, como é possível que o mundo esteja tão errado que não me ames em retorno? O que é preciso eu fazer? Já te declarei o meu amor duas vezes, no mesmo dia 23 de Dezembro. No ano anterior abstive-me, escolhi-me a mim, acalmei-me, fiz por ser apenas tua amiga, para esquecer que te quero na totalidade, como homem, como pai, como velho um dia, como companheiro de viagens, como camarada de luta, como amor da minha vida. A vida, essa que é só uma e tu continuas a andar para a frente e a recuar. Que me falta fazer? Não posso ser mais directa nas conversas ou raio o ordinário, se os meus detectores funcionam minimamente bem, metade do tempo queres-me tanto como te quero, daí que passemos a vida a discutir, daí que eu saiba qual seria a única forma de aliviar esta rivalidade constante. Se eu digo sim, tu dizes não. Branco. Preto. E rimos, rimos porque na realidade não queremos nada disso, sabemos que somos iguais. Sabemos que só queremos desafiar o outro, fazer com que nos toque, dance connosco na rua e finja que é obrigado, finja que obriga. Tu sabes que se te bato é pela tua reacção. É porque quando dizes «juro que se me tocas dispo-te toda e passas a vergonha da tua vida neste café», eu não resisto a tocar-te mesmo. Depois vingas-te, e eu estou nas nuvens a cada momento, acho que é o sorriso no teu rosto, pelo tempo passado juntos, que me deixa tão aluada. É porque quando te ameaço sem motivo, tu dizes «isso é só para ver se te bato, não é?», e eu vejo que já sabes a minha estratégia, e respondo-te com sinceridade «é verdade, é só para ver se tens iniciativa e bates primeiro». E depois eu amo-te e não quero pensar que não me ames. Quero-te tanto que dói, dói diariamente. Devias estar aqui e devíamos estar a planear o nosso futuro juntos. Estás a acabar o curso, para o ano terminei o meu. Não queres ter filhos? Não queres ficar comigo? Olha que a vida é só uma, repito: fica comigo. Eu faço-te feliz, não haveria mais ninguém se não tu para fazer-me feliz. Achas que tenho ilusões de que seria fácil? Meu amor, dizes que me conheces melhor do que a ti próprio, ouve: eu não sei o que se passa no teu interior, está sempre em silêncio, mas sei cada reacção tua, cada passo que vais dar. O porquê, não sei, mas sei que o vais dar. Tu sabes que eu sei e desvias-te propositadamente. Não vês que estamos constantemente em sintonia? Fica comigo e vamos sentar-nos à mesa a decidir onde queremos morar, o que queremos fazer para combinar embaixadas, companhias aéreas e tours turísticos, vem sentar-te comigo a traçar o plano do nosso futuro, vamos ficar juntos num lugar qualquer, já que a nossa formação até nos permite um caminho condizente. Vamos agarrar um e ser felizes. Vamos discutir, mais tarde, se os miúdos vão para os escuteiros ou não, não sejas, como prometeste, o segundo pai dos meus filhos: sê o primeiro, sê o sangue deles, a carne e os ossos neles, os olhos deles. Vamos discutir em que andar vamos morar, quantos quartos vamos ter na casa de início, vamos comprar um carro juntos já a pensar nas cadeirinhas deles. Vamos chegar a acordo quanto ao animal de estimação: eu vou discutir muito sobre querer ter um labrador amarelo, mas não te preocupes, sou alérgica e não quero ter trabalho com animais, é só para te ver argumentar. Vamos decidir se a sala fica lilás ou verde-alface. Vamos escolher um sofá e uma televisão pequena e antiga, quem sabe em segunda mão, já que tu não vês e que eu só te vejo a ti. Vamos juntar as nossas facturas, as nossas roupas num armário, os nossos chinelos ao lado da cama, as nossas contas bancárias, os nossos livros na estante, as nossas fotografias no hall, os nossos quadros na parede, os nossos discos na prateleira, os nossos gostos num espaço, as nossas bocas num beijo.

Eu amo-te,
Príncipe.

24 abril, 2010

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Meu amor,

Continuo com medo. Até há alguns dias, parece que andava adormecida. Depois de ter ido falar contigo naquele dia à tua rua, tudo mudou. Oscilamos de momentos em que estás super azedo, para momentos em que sinto carinho a emanar de ti. Orgulho-me tanto de ti... chega a ser inexplicável, são tantas coisas, devem chegar a um milhão. Tu vês tudo, tu sabes quase tudo, estudas o mundo através dos teus olhinhos semicerrados que, nessas situações, parecem estrelas cintilantes. Sabes tanto, de tanto... Pensei que não haveria um homem assim para mim, sabes? Ainda que não pertençamos um ao outro (será que alguém pertence a alguém?) continuas a ser perfeito. Percebo tão bem que vejas o limite e que, ainda assim, não evites pisá-lo, quanto sei que sou igualmente incapaz de evitá-lo.

É o ambiente entre nós que me dá medo. São as conversas, são demasiados sinais (ou não), mixed sinals. Parece, por vezes, que podemos magoar-nos mutuamente, que podemos decepcionarmos mutuamente, em coisas mínimas, em coisas cuja nossa sensibilidade, única na sua sintonia, pode compreender. Coisas que perdoaria a qualquer um, mas não a ti, e coisas que se calhar perdoarias a qualquer uma, menos a mim; porque ambos esperamos mais do outro. Como quando entrei hoje no carro e a primeira coisa que me disseste foi:
- Estás bonita, hoje - com uma voz que não deu margem para gozo.
Hoje vi o fogo-de-artifício do 25 de Abril com a tua cabeça recortada contra as luzes, o teu cabelo a encaracolar nas orelhas, a seguir em direcções opostas. Ali estavas, num momento comovente devido a todo o seu significado, e eu sentada numas escadas a cerca de dois metros de ti, a ver História a ser comemorada, a pensar que algum dia alguém ganhou coragem para por as coisas a mover, e pensar: eu e ele, quem me dera poder levantar-me, ir procurar abrigo debaixo do braço dele, beijá-lo e sorrir, e bastaria para que entendessemos a emoção mútua nesse instante.

Depois, enquanto me levavas a mim e à Ana debaixo do braço, a brincar connosco, apoiei a mão na tua, que me passava no ombro, e apertaste-a. Não o suficiente para a aleijar, como às vezes fazes, mas ainda assim, de modo tão desajeitado que não foi sinal algum. Uma vez sonhei que me apertavas a mão, num local público, e era esse o teu sinal para que ficaríamos juntos. A partir daquele instante, já me senti tua (se é que, repito, as pessoas pertencem umas às outras). A minha avó hoje disse que quem faz um biquinho na raiz do cabelo, sobre a testa, é porque vai ficar viúvo. Se ficar viúva de ti, morro no mesmo dia. Quero que a nossa vida se separe apenas pelos onze meses e quinze dias que viveste a mais que eu. Quero que, se depender de mim (atenção, se fosse eu primeiro queria que ficasses, e sei que ficarias porque tens mais juízo que eu) ficamos cá até ao mesmo dia. Depois partimos.

Já no carro, seguíamos novamente juntos atrás e, além das tuas ordinarices, começaste a falar sério:
- Gostava de ter ido ver um bocado de Oquestrada, para saber o que é.
- Porque é que não disseste? Eu disse, ninguém quis ir!
- E então? Ías para lá sozinho comigo?
- Então não tinha ido? Dançava contigo, C.
- Era hoje, então.
- Era hoje.

A tua solicitude pode ser duas coisas, tal como o teu crescente atrevimento também pode ser. Se não fosses tão difícil, seria fácil de decifrar:
Ou é um decréscimo de respeito (devido ao facto de nos julgares encarrilhados no papel de amigos, ao qual ainda não me habituei bem),
ou o incremento de amor.

Da minha parte,
não podia amar-te mais.

Pesadelo

Acho que tenho o coração partido em mais um caco. Meu amor, estou cheia de medo. Um medo irracional, um medo como vertigem, um medo que me apetece transmitir-se, se isso fizesse sentido, se tu compreendesses e me acalmasses.

Ontem vínhamos no carro, foram os anos da V. Arrisco dizer que foi dos nossos dias mais felizes, mas a culpa é minha que meto estrelas em tudo, não farias o mesmo por uma amiga qualquer tua? Eu estava sentada dentro do carro e tu a dançar lá fora, de braços no ar, o casaco largo, a camisola aberta no colarinho, os boxeres a surgirem acima das calças de ganga. Dançavas e as tuas ancas baloiçavam, os teus joelhos balançavam. A dada altura, paras do meu lado do carro, onde eu estava sentada. Abres a porta e estendes-me a mão, num convite. Olho para a tua mãe, olho para ti. Estendo-ta. Puxas-me com força para ti, és meio brusco meu amor, mas isso não te desfeia em nada, dá-te até um certo encanto. Vais-me fazendo dançar ao teu ritmo, a minha mão na tua mão, às vezes as duas. Puxas o meu braço sobre a tua cabeça e dás uma volta, ocasionalmente, fazes o teu braço dar uma volta sobre a minha. Penso: somos tão perfeitos um para o outro que o meu braço passa sem grande dificuldade sobre a cabeça dele: num homem mais alto, não seria possível. Tiro-te o penso do rosto e meto-to no nariz, tu aquiesces. O penso cai. Continuas a dançar e começa uma das músicas que gosto e que sei que também gostas: The Outfield - Your Love. Cantamos os dois e dançamos, já separados. Depois a viagem começa e eu vou no meio, contigo a lutar com o cinto e eu também, pelo que as nossas mãos se encontram no pouco espaço disponível para enganchar o cinto, peço-te desculpas por te tocar e tu, em seguida, abres a mão num gesto que abarca o meu corpo e eu estremeço e calo-me voluntariamente. Disseste alguma coisa provocativa entretanto, mas não me apercebi. Aliás, tudo já havia começado em Almada, quando, ao balcão do café, disseste qualquer coisa que me irritou, ameacei bater-te no rosto e tu disseste: C., se me bateres juro que te dispo toda à frente de toda a gente, há-de ser a vergonha da tua vida. Eu ri-me para ti, como não podia deixar de ser: G., isso é demasiado tentador, disse, e dei-te a bofetada com força suficiente apenas para te provocar. Pegaste-me ao colo, inclinaste os braços até eu ficar com a cabeça quase no chão e as pernas no ar. Não gritei alto, estavamos no café e eu, sinceramente, estava a adorar. É das melhores coisas do mundo, provocar-te. Nem vale a pena mentir, tu sabes que eu não resisto ao teu olhar semicerrado de provocação. Depois, no carro, além disso, deste-me um beliscão no mesmo sítio, desde uma palmada "ampla" nas minhas pernas e puseste-me debaixo do braço enquanto cantavas, e esse foi o melhor momento, porque enquanto o fazias tinha uma mão na tua, no teu colo, e tu agarrava-la, e eu agarrava a tua que me passou no ombro. Enfim, bem sabes que, infelizmente, ainda te amo. O nosso amigo J. bem disse, quando te vi em cima do caixote do lixo e te implorei que descesses: O teu problema é ainda te importares com ele. Mas o momento «alto» da noite, o que me deixou com este peso que tenho hoje, foi aquele em que voltaste a mencionar um gajo que a V. «comeu», segundo palavras tuas, íamos os cinco no carro, ao que ela respondeu: Oh, eles falavam de tudo. O teu nome também andou pelo meio, C. E eu acrescentei: de certeza que não andou. E ela continuou: olha que acho que sim. E tu apanhaste a deixa, e começaste com o teu histerismo de coscuvilheiro: AHHHH, quem é que a C. comeu? Aha, diz lá. Claro que não to disse, ao que tu disseste: vou ligar ao R. que ele diz-me já, e encenaste uma chamada que eu não desconfiei, com falsidades como «Sim, sim, estou a vir agora de Lisboa, fomos a Santos chavalo... olha... QUEM É QUE A C. COMEU?» seguido de risadas (que excelente actor és) «A sério chavalo? Aha». E desligas a comer com uma chuvada de chapadas minhas no braço «Desgraçado!!!! O que é que ele te disse?». «Disse-me». «Diz lá a primeira letra?». «Começa... olha o sobrenome começa com F.» Encho-te de porrada e tu gritas, triunfante «Ahaaaaaaaa enterraste-te agora!!! É ele? Eia a C. comeu o F.!!!! Eu não lhe liguei».

Depois, começas a gritar que o «f***» (odeio a palavra) - A C. f**** o F.!!! Tavas bêbeda». «Não, não tinha bebido uma gota de álcool». «Eia isso é muita mau, sexo sem amor e sóbrio é muita mau». Calei-me, a conversa fora longe demais e o carro parou. Fui atrás de ti, encostei-te a uma parede e disse-te: «Livra-te de andar a falar disso», «Aha, f****** o F!», «E as muitas que tu já comeste?», «A R.? Eu não f*** a R., mas tu f****** o F.!», «Não, eu não f*** o F., e o que se passou sabes porque foi? Foi porque no dia anterior beijaste a R. na cama ao lado da minha, estava magoada.» E foi aí que tu disseste: «Então és uma PORCA, foi vingança». «Não, seria vingança se te acertasse, se te magoasse, agora tarmos aqui a falar de uma coisa de há três anos...! E eu não o f***».

Não foi vingança, meu amor, foi conforto. Quis sentir-me só um bocadinho querida por alguém, não foi sexo sem amor, não chegou a nada disso. Eu sou a mesma de sempre, podes acreditar, como acreditaste até ontem, que eu, tal como as minhas melhores amigas, somos únicas em muitas coisas, demasiado boas para acreditar que seja verdade em muitas coisas. Soa arrogante, mas é a verdade, vejo-o observando as minhas melhores amigas, tão parecidas comigo, e sentindo o orgulho que sinto por elas.

Agora, fala comigo: eu quero dizer-te que não foi vingança, foi consolo.

Porque o meu mal, continua a ser gostar demais de ti.

Love of my love, you've hurt me.
You've broken my heart and now you leave me...

PS - tenho medo que penses que sou outra pessoa e tenho medo que te vingues com alguma numa próxima oportunidade... lembra-te que o simples bater das tuas asas derruba-me.

20 abril, 2010

Diálogo

Eu e tu num lar, um dia, será algo assim:

Eu: comeste a canja toda ao almoço?
Tu: o que é que te interessa o que é que eu comi?
Eu: vá, diz lá se comeste tudo ou não.
Tu: agora não digo.
Eu: comeste o raio da canja ou não? não ouviste o médico ontem?
Tu: é evidente que ouvi, ao contrário do que pensas não sou surdo. e tu, ouviste-o dizer que ainda tenho o juízo perfeito?
Eu: só estou preocupada, comeste ou não?
Tu: não te preocupes.
Eu: não vais responder?
Tu: não vais parar de perguntar?
Eu: não. respondes?
Tu: não.
Passados cinco minutos em que as enfermeiras ponderam se devem dar-nos um Xanax a cada, viro-me para ti com naturalidade.
Eu: estava a recordar quando nos conhecemos...
Tu: ai sim? não vale a pena pensar no passado.
Eu: também dizias que não valia a pena pensar no futuro.
Tu: e então?
Eu: e então??? não estamos aqui?
Tu: e então? pensar adianta alguma coisa?
Eu: então devemos pensar sobre o quê?
Tu: sei lá, sou deficiente, não penso.
Eu: é, dás os passos com palas nos olhos, como os burros.
Tu: isso, chama-me tudo.
Eu: ainda não me respondeste se comeste a canja ou não.
Tu: nem respondo.
Eu: ai não respondes?
Tu: não.
Eu: e deixas-me aqui toda preocupada.
Tu: só te preocupas porque queres, eu cá não me preocupo.
Eu: diz lá, comeste ou não?
Tu: comi, comi, comi.
Eu: com essa ironia não entendo nada, comeste ou não?
Tu: comi, comi.
Eu: a sério?
Tu: pronto, não comi.
Eu: tão afinal comeste ou não?
Tu: oh mulher deixa-me em paz, o que é que te interessa se comi ou não?
Eu: estou preocupada!!! não ouviste o médico? estás fraco!
Tu: tu é que me deixas fraco, porra.
Eu: portanto, vais deixar-me ir dormir sem saber?
Tu: isso é que devias de estar a fazer: a dormir.
Eu: não dizes?
Tu: não.
Eu: ficamos assim.
Tu: já podias ter percebido há uma hora.
Eu: ok.
Tu: é isso.

E pronto, já somos meio assim hoje.

18 abril, 2010

Efeito Borboleta

Ainda bem que não sabes o quanto me magoas, como se o Efeito Borboleta se personalizasse nisto que ocorre entre nós. A cada vez que fazes algo, ainda que a quilómetros, esse acto evolui como um maremoto e vem atingir-me aqui. Quando dizes algo que possa destroçar o meu peito, dividi-lo em mais cacos ainda, alguém se encarrega de o trazer, ainda que sem querer, até mim. Cheguei ao ponto em que não quero saber, debrucei-me sobre ele e voltei a inquirir tudo. Qual é a solução? Saber para te esquecer, ou saber, aceitar, chorar sobre isso, acordar com mais essa bagagem e amar-te ainda mais no dia a seguir? A cada vez que bates as asas, caio mais um pouco.

Agora a tua amiga lembrou-se de colocar uma legenda numa fotografia que diz “tratas-me como uma princesa, não estou habituada a gostar disso”. És tu, o meu príncipe, quem a trata como uma princesa? Estes longos meses em que vocês os dois parecem cozinhar-se a lume branco, com um passeio, um jantar e um almoço na vossa história, será uma preparação de um futuro, quem sabe, igualmente longo? Recordo-me de te ver, de te avaliar e de te tentar adivinhar um futuro antes de me apaixonar por ti. Recordo-me na perfeição da frase que me saía com toda a naturalidade “o G. vai acabar com uma loira burra”. Nunca compreendi muito bem isto. É uma escolha que se faz na vida, se queres ter alguém à tua altura a teu lado, ou se preferes ser o melhor, o mais inteligente, o mais responsável, o que ganha melhor, o que sabe tudo. Se é isso que queres, ser bom à custa de alguém menor, acabarás com a tal loira burra certamente. Mas espero que tenhas coragem suficiente para abraçar qualquer coisa maior. Como eu (e será isto presunção) há muitas outras pessoas maiores. Pessoas que vivem de aprender e de ensinar, de evoluir. Espero que alguém como eu, um dia em que sejas mais maduro, deixe de ser um desafio tão grande. É que eu mesma, com alguém como tu, seria claramente a mais burra, a mais ingénua, a mais desajeitada. E não me importo, isso importa-me em relação ao restante mundo, mas não em relação a ti. Por ti, abdicaria da minha posição de credível, porque todos prefeririam ouvir-te a ti ao invés de escutarem-me a mim.

Gostava de conseguir escrever algo que expressasse o que sinto, o ciúme, o sentimento de injustiça por parte da ordem do universo e, simultaneamente, o que me garante sã: a certeza que eu é que estou errada, tu não tens que bater as asas de acordo com os ventos que me são favoráveis, tens que viver a tua vida. O meu ciúme é problema meu, se acho que o mundo é uma vez mais injusto e faz maus arranjos, é problema meu. Eu sei disso, mas nada disto atenua a dor com que caminho agora diariamente. Será que foram jantar juntos? Onde está ele, estará com ela? Será que ela vai aparecer-me à frente num café qualquer? Será que, a qualquer momento, na página de redes sociais dela vai surgir uma foto contigo? Uma dedicatória a ti? Palavras que podem, ou não, ser alusivas a ti?

Trata-a como uma princesa, príncipe? Ela é a tua flor, no planeta B16? Coitada de mim, pobre raposa. Às vezes esqueço-me que o principezinho prefere ser picado por uma cobra e voltar para a sua rosa a ficar com a raposa. Sou uma tola, eu. Bem me dizem «nunca mais aprendes…»

PS Eu mantenho-me sempre longe das pessoas quando não me quero envolver, como é que cometes a proeza de te aproximar das pessoas sem sentir nada, no final?

30 março, 2010

Devolve-me a sanidade, meu amor

Devolve-me a felicidade,

Desapareceste. Há dois dias, segundo os meus cálculos. Como deves imaginar, já ponderei todos os sítios onde podes estar. Entre eles, desejo que estejas a visitar o teu avô nos confins do país, e que ela não esteja lá, nos confins do seu distrito, ou que estejas num festival qualquer na Bélgica, ou que estejas trancado em casa a estudar. Até já me ocorreu que estejas a fazer isto para saber o quanto me afecta. Já brincaste a isto antes, recordas-te? Seria tão fácil para ti dizer que imagino coisas, que sou eu que estou doida e a ver coisas. Com a mesma facilidade poderias dizer «a minha vida não gira ao teu redor». Pois não, meu amor traiçoeiro, mas a verdade é que escolheste a única semana em que estive fora para ir jantar com ela. Sabes o que é mais engraçado? Vocês ficam bem, ficam bem demais, lado a lado. Ela a tombar, bêbeda, ela a rir alto, ela a saltar, ela a reformular «sou peixeira, gosto de peixeiradas e de gente peixeira», ela, loira, duma altura adequada à tua, a rir-se, tão bêbeda quanto tu. Se funcionavam? Não, não duvido que não. Qual dos dois estaria mais bêbedo ao final da noite? E o que fazer quando és tão livre quanto és e, ainda assim, ela é, de longe, mais livre que tu? Encantaste-te por ela? Porquê, quando o que vejo nela poderia ser, tão facilmente, eu? O falar alto, a facilidade de puxar o assunto que quer, a inconveniência (sublinho que não tenho hábito de me exibir alcoolizada), a extravagância. Depois, metes a tua gravata e o teu fatinho e vais jantar com ela, com uma rapariga formatada para idas ao McDonald's, sim, ao meu querido restaurante de fastfood. E porque é que és assim? Diz lá? Porque é que, por trás da máscara de durão, de insensível, de sei lá que merda finges ser, metes a gravata e, arrisco, a camisa azul? Para ir jantar com ela? Enfim, vai. A minha nova brincadeira consiste num sorriso, num breve olhar à noite que cai e ao comentário, sorridente: está uma bela noite para ele ir jantar com ela.

Vai, vai todos os dias daqui para a frente, faz amor com ela de manhã à noite, até já não distinguires o teu cheiro do dela, fala-lhe baixo ao ouvido, de manhã, e convence-te que ela é o melhor que podias ter. Mas pára de te esconder de mim, de me desviar a cara quando falo contigo, és transparente, não preciso dos comentários de ninguém ao teu fato bonito para saber que fizeste alguma coisa que, se eu soubesse, me destroçaria. A verdade está no teu olhar, na tua mão gelada, com suor frio, quando me cumprimentaste. Está na tua distância. Está no «peso», como tu declaraste, quando te disse que queria oferecer-te um quadro. Sabes o que farei ao quadro? Ou melhor, o que farei com o quadro? Uma bonita fogueira no meu quintal, num dia em que tenha frio, ao cair de uma dessas noites perfeitas em que podes, muito bem, estar a jantar com ela.

Deixa a minha vida,
fecha a porta.

18 março, 2010

Omnipresente

Está mais calor,
Está mais calor e a minha cidade é calma, é como se o vapor aquecido que há-de vir com a primavera já pairasse nas ruas. Quando desço do metro, vou a pensar que estás no estádio de Alvalade a ver o jogo, vou a pensar que, se eu ligasse a futebol e não tivesse tantas obrigações, estaria lá contigo. E, do outro lado da rua, passa um carro com o rádio vários decibéis acima do normal. É ao ouvir o relato do jogo, que sei que estás a ver, que sorrio e que sei: haja o que houver, hás-de estar sempre em todo o lado.

Meu amor,

09 março, 2010

Prisão

Aqui estou.

Acendo um cigarro e rezo para que, no dia seguinte, as paredes não me denunciem. O meu coração já se partiu tantas vezes e em tantos cacos, o centro do meu gostar e tu, surpreendentemente, consegues reparti-lo em ainda mais cacos. Não queria admiti-lo, mas é a verdade: divertes-te a magoar-me, a testar-me, a ver se gosto mesmo, se tenho mesmo ciúmes, se me afectas mesmo. Sim, mesmo. Podes parar de tentar, já fui marioneta ao sabor da tua curiosidade muitas vezes. Sentes-te bem por saber que és tão amado? Mesmo por alguém que sofre como eu sofro por estar do outro lado?

O meu irmão vai ser pai aos 18 anos, e tu empenhado em por canções de amor no teu facebook. Quem é que te anda a dar a volta ao miolo, G. N.?

Desculpa-me da minha parte, se queria que me tivesses perguntado se estou feliz por ser tia, se queria que estivesses interessado se eu, como pessoa pragmática que sou, aspirante a mãe um dia, vi isto como um milagre ou uma desgraça. Gostava que tivesses querido saber, mas não queres, como nunca quiseste.

Houve momentos de encantamento entre nós? Acho que houve e que até nisso fingiste: sabias que, se me tocasses na mão, prendias-me por mais uma semana. Se me disses que sou "a melhor do mundo", prendias-me por mais um mês. E eu contente por estar presa a ti, ao menos tinha alguma coisa contigo, nem que fosse escravidão.

Pois bem, a liberdade já não é um desejo meu, é uma necessidade vital, direito natural.

Adeus, chave de cadeia...




C diz (01:13):
*tive a discutir co g
*estupido
V diz (01:15):
*entao?
C diz (01:15):
*oh, as discussoes de sempre
*dá-me raiva
*principalmente no rescaldo de tudo o q se anda a passar na minha vida
*querer tanto ser livre
*nao depender de ninguem
C diz (01:16):
*ir sozinha onde tiver de ir
*tê-lo como âncora
*como pessoa que, por me dispensar, é-me indispensável
*quando há quem goste de mim
*e faça por mim o q eu faço por poucos
*e é sempre ele q falha aí
*e parece q é ele q eu queria q tivesse sempre lá
*ao ponto de eu um dia poder dispensá-lo também
*pedir-lhe espaço a ele também
*estúpido de merda
*odeio-o
V diz (01:17):
*:S
*sufoco
C diz (01:17):
*prisão

é isso.