13 dezembro, 2009

Recanto perfeito

P,

Quero fugir desta realidade de tigelas sujas ao final da noite e lenços amachucados ao meu redor e ao redor do computador, que é onde me mantenho o dia inteiro. Quero fugir a garrafas de água na mesa de cabeceira e livros empilhados. Ando a imaginar-nos um momento perfeito.

Por essa altura, estarei no Algarve, não muito longe de ti. Pedi à V. que me levasse até ti, e sei que ela era capaz disso. Assim sendo, andarei às voltas numa casa com um número de pessoas indefinido ainda. Mas pode ser que, ao invés, termine perto da Serra da Estrela e nada disso se concretize. Se andar às voltas nessa casa, posso amanhecer radiante e vasculhar na mala à procura do que vestir. Provavelmente, ainda não terei decidido. Posso vestir o pull over vermelho com renas brancas que ando a perseguir. Ou posso ir com uma camisola de algodão cinzenta e uma camisa vermelha por cima, larga, com riscas azuis a formarem quadrados e as mangas dobradas até ao cotovelo. Posso ir de botas e camisola de gola alta cor-de-rosa, brincos de pérola, cabelo solto com badolete. Ou posso ir de ténis casuais e a tal camisola de lã ou a camisa vermelha. Posso ser uma princesa, ou a mulher solta e avulsa que sou. O que importa, é que quando entrasse naquele carro, ia ouvir Coldplay a cada um dos 60km até ti. Ia ouvir as músicas que ouvi nesses verões passados, quando me sentava no último degrau de escadas a admirar o cosmos, ou quando via a ponta laranja do teu cigarro a mover-se quase imperceptivelmente perto da tua casa. Ia ouvir a Trouble, a The Scientist, a In My Place e todas as outras que nos fizeram jus, a seu tempo. Ia apertar as mãos no colo, possivelmente geladas, possivelmente suadas, enquanto os quilómetros fossem diminuindo e os medos atirando-se, como farpas, para o nosso caminho: «E se ele não estiver lá? E se está noutro lugar? E se foi trabalhar? E se estiver a dormir? E se estiver no campo, no momento exacto em que o for visitar? E se, depois, a mãe esconder que apareci?». Seriam tantos os receios, que seria pouco provável encontrar-te. O caminho, desconfio, seria sempre a subir e estaria sempre nublado. Passaríamos a barragem de Odeleite e, por esta altura, estaria lívida, com o estômago às voltas e o olhar incapaz de se pousar num só ponto, ou completamente fixo no nada.

Depois, começa a tal cena bonita. Na recta final, naquela subida que é como rampa para um pedacinho de céu, o sol espreitava por entre as colinas. Ia estar calada, gelada, a perguntar-me se estaria doida. A V., a meu lado, estaria silenciosa. Coldplay soaria perfeito, como sempre soou naquela paisagem. Nesse momento específico em que vemos a tabuleta «Tenência», começaria a tocar a The Scientist. Ia dizer à V. que a casa era aquela, logo a primeira, e o quintal aquele, logo o primeiro à direita. Ia dizer-lhe «podes parar aqui», logo no largo e, imagino, o teu carro estaria também logo alí, o mesmo carro cinzento, ao alcance da minha vista. Se o universo fosse generoso, o velho Renault de ir ao campo também estaria estacionado no largo, no lugar de sempre junto ao forno colectivo. Ia descer do carro a passos trôpegos, e faria tanto frio que ninguém sairia de casa para ver o forasteiro que chegara à aldeia num dia tão impensado. Ia olhar demoradamente para a fachada da tua casa, para o teu pátio, para o movimento ao seu redor e ia tentar inalar o cheiro a café no ar. O meu plano seria, mesmo que os teus pais tivessem o café fechado, bater à porta da tua mãe. A conversa seria banal, se sucedesse o milagre de ela abrir «Dona L., olá, olha estava aqui por perto, a minha amiga está de carro. Tenho tantas saudades que decidi aparecer». Se tudo corresse bem, não ia ver nos olhos dela a pergunta «Mas porquê bater à minha porta, se comigo nunca conversou?». Ela ia abrir-nos o café, iamos beber cada uma um, iamos falar da passagem de ano, da minha escola, ia perguntar-lhe da aldeia, de quem pereceu entretanto, ia falhar-lhe do estado da minha tia. Sempre com o cuidado de dar a melhor acústica possível à minha voz. Se decorresse um milagre maior ainda, podias aparecer tu no café, atraído pela minha voz, a perguntar-te «Será possível? Tanto tempo depois?», mas não estarias descalço como no verão. Espero que a expansão da tua barriga tenha cessado, entretanto. Ou teríamos 10 anos entre nós e um fosso físico embaraçoso.

Mas, a imagem mais bonita que vejo, é a de mim de camisola de gola alta cor-de-rosa, a imagem do doce e do maduro articuladas, a chegar por entre os raios de sol à porta da casa da tua mãe, a V. no carro, e bater firmemente. Quando a tua mãe abrisse, estaria tão petrificada que só conseguiria articular «Ele está?», e talvez nesse momento ela entendesse o tempo que passou, os pequenos gestos que passaram e os sentimentos grandes que, escondidos, foram ficando para trás mas se arrastaram sempre connosco. Talvez fizesse um gesto na direcção do teu quintal, onde a luz batia e onde cuidavas dos animais, e dissesse: «Está lá atrás». Eu não ia ter de ouvir mais nada, contornava o pátio, enveredava pela trilha pequena junto à casa que leva ao quintal, e virava uma esquina caiada para te descobrir absorto nos animais, de camisolão de lã, calças de ganga e botas de lavoura. Ia parar, emocionada, como se soubesse que desafiava o destino, que nos separou, e nesse momento recebia a vitória. Quando me visses, ias pensar que era uma visão - não de beleza, mas de improbabilidade. Ias pensar que não podia ser eu ali, quase quatro anos depois, com 20 anos, quase igual, mas com uma expressão muito mais dura no rosto. Ias pensar que eu não teria motivo para estar ali, oito anos depois de dizer que gostava de ti. Ias pensar que amores de criança não se arrastam tanto tempo. E eu ia caminhar ao teu encontro, iluminada pelos tais raios do sol de inverno, e tu na minha direcção. Iamos, como não podia deixar de ser, encontrar-nos a meio. Eu ia estender-te a mão, perante a inutilidade das palavras, e tu ias segurá-la na tua, como se dessemos as mãos por um momento, a um passo um do outro. Não havia palavras, como nunca houveram, sempre amámos em silêncio e, por ti, sempre soube que se pode amar duas pessoas simultaneamente. O que dissessemo, seria mentalmente, em sussurros e embargos de voz. Eu dir-te-ia «Estou aqui, cheguei, consegui. Estou no mesmo sítio onde sempre estive, está tudo igual em mim, ainda gosto de ti, viveste sempre aqui. Toma conta de mim». Tu, e quem me dera que ainda me amasses, irias olhar-me nos olhos e ler essas mesmas palavras, sem poder acreditar que fosse verdade. Depois, sem disser nada como nunca dissémos - que amor é este que se alimentou de silêncios? - podias cair de joelhos em frente a mim. Gosto e o imaginar assim, podias cair sem que os teus olhos se desviassem dos meus, e pedir-me que nunca mais partisse. Eu ia sorrir, de lágrimas nos olhos, e remexer-te no cabelo, como se fosses uma criança. Perante a tua própria emoção, eu diria «Não sejas tolo, achas que vou a algum lado?», e seria a primeira vez que ouvirias a minha voz em quase quatro anos. Depois, punhas-te de pé e abraçavas-me. A tua mãe estaria a roer-se, mas a saber que era o melhor para ti. A minha amiga estaria de lágrimas nos olhos, no carro, a ouvir «It's such a shame for us to part». E, se fosse um filme, uma peça de teatro, um conto ou uma novela, o pano cairia sobre nós aí, com a inscrição "Fim - e viveram felizes para sempre".

E eu, aqui sozinha, sem ti,
Aí não sei como.

10 dezembro, 2009

Espectro

Três meses e poucos dias depois, faço o balanço do que ficou de nós dois. Meu querido, eu punha-me em bicos de pés e beijava-te o rosto. Durante este tempo, tantas vezes me trouxeste um sorriso ao rosto enquanto passeava de mãos nos bolsos... Quantas vezes, mesmo sem estares aqui, evoquei memórias dos nossos bons momentos e fiz disso o meu alimento, o meu ar? Não tantas como imaginei que faria, agora que falta uma semana certa para te ter de volta, sabendo que nunca mais te terei.

A imagem de mim, em bicos de pés, a beijar-te o rosto, foi o produto de dois anos de trabalho árduo a aproximar-nos, a criar-nos história, a escrever-nos recantos em tempo e lugares que, estes três meses e alguns deslizes teus - perfeitamente humanos - dizimaram. Pequenas decepções que hoje me roubam as forças, ou que obrigam a minha consciência a ordenar-me que não canalize mais energias para a causa que foste tu. Como me envergonho de mim, e do que desperdicei em mim para nos criar aos dois...

Enquanto estiveste fora, poucas foram as palavras. Enviei-te cartas e soube que não responderias, nem sequer um postal - sabendo-te sobre as pedras da calçada que mais ambiciono - pudeste endereçar-me. Andas assim tão ocupado? Aparentemente, conseguiste cultivar algumas amizades, nomeadamente aquela que mais desprezo. Aquela com a rapariga oca, a rapariga que troça dos outros, a rapariga que se veste igual a todas, que queria deixar a escola para ser modelo e que se considera igual a ti só porque são ambos "extrovertidos". Se te conhecesse, saberia que não há ninguém menos extrovertido que tu, ou mais introvertido. "Extrovertido" era a pontuação 10 nas compatibilidades amorosas quanto tínhamos 14, 15 anos. Se eram ambos extrovertidos, parecia haver futuro juntos. Futuro de poucos meses ou de um ano lectivo, mas entretanto iam rir e fazer rir os outros à vossa volta. Meu querido, como podes ponderar para teu par uma rapariga que mostra a mesma cara em todas as fotos? Que nunca sorri? Que faz figura de tola, de histérica, de criança quando estás nas imediações e que denuncia de imediato as suas intenções para contigo aos teus amigos? Aquela vaidosa inconveniente e vazia...

Se te conhecesse, não diria que são iguais. Depois pergunto-me: será que lhe revelas os teus segredos? As tuas dores? Aqueles que nunca revelaste a mim? Estou cansada de suportar as mesmas dores. Quis que doessem, para nunca deixar de te dar valor. Quis que as dores que te dilaceram a alma fossem as mesmas que me fazem lembrar quem és. Agora quero que sarem, que deixem a minha pele.

Portanto, quando chegares desta longa ausência é com ela que vais jantar? Deus, se existes, dá-me forças. Dá-me forças para que eu me comporte dignamente, para que aguente um serão completo com os teus amigos a fazerem suposições de onde estás, conclusões de onde dormirás nessa noite. Dá-me forças para que não chore, para que não saia a meio, para que não traia os meus sentimentos e não mostre a minha dor. Dá-me forças para fingir que não me importo...

Que mudado estás, meu querido. Tu, que um dia julguei conhecer... vamos apagar-nos mutuamente, ou não vou deixar de incomodar-te e tu de me magoar...

Dói tanto, meu amor...
Não te conhecer mais...

19 novembro, 2009

Sparks

P,

Hoje sentei-me no Largo do Carmo com a minha colega mais querida, a M. Atrás de nós, uma rapariga de gorro tocava viola. De início, apenas meneei a cabeça ao som dos acordes indefenidos, até que a M. os identificou: "É a No Woman No Cry", e fiquei rendida. Que momento bonito, de frente para um convento do séc. XIV, de frente para as luzes que o iluminavam, sentadas num banco de pedra. O Natal este ano em Lisboa será lilás e branco, a ti ainda não to disse. P., quando é que vens buscar-me? Quando é que te vou falar de Coldplay? Quando é que vamos percorrer as ruas de Lisboa - Rua do Carmo, Rua do Alecrim, Rua Augusta, Rua do Arsenal, de mãos dadas? Quando é que serei tua guia, porque deves conhecer ainda menos de Lisboa que eu? Quando poderemos sentar-nos no Largo do Carmo, no do Camões ou no Rossio, comigo a recitar-te livros? Comigo a dançar à chuva e a fazer-te rir?

O sol que tem iluminado Lisboa comove-me. Passeio no paredão no Estoril, sento-me e escrevo. Não a ti, mas ao meu querido G. O tempo passa e, por muitos anos que se sobreponham, nunca apaguei realmente ninguém do meu passado. Parecem estar todos aí, como portas entreabertas que nunca tive coragem de fechar. As luzes nocturnas da cidade... sinto-me tão boémia a subir a rua do Alecrim de mão dada com a M., a ver o Teatro da Trindade, as igrejas: Mártires, Loreto, Sagrado Sacramento (seria isto?), e dizer-lhe "Ahhh, é por isso que se diz cair o Carmo e a Trindade, são perto uma da outra!". Onde estás, para ouvirmos Coldplay juntos, nas docas, até ao amanhecer... eu com a cabeça no teu ombro, eu a dizer-te:

"Esta já era a nossa música em 2002...", ou maktub.
Seria...

Coldplay - Sparks

05 novembro, 2009

Agosto 2008

«Amor,

Só sei que queria estar de mãos dadas contigo agora, beijar-te as pestanas e esse bigodinho por fazer, dizer-te que tens que deixar de roer as unhas, alisar-te os caracóis com os dedos até adormecermos. (…) Eu ia ter tanto cuidado para não pisar nada demasiado frágil, para nunca te assustar ou afastar… ia ser tão difícil conciliar os nossos ideais, as nossas crenças, as coisas que respeitamos, aquelas a que damos importância, as minhas frases mal pensadas e a tua preferência pelo silêncio… mas havia de funcionar, se me amasses tanto como eu te amo, ia funcionar até ao último dia

02 novembro, 2009

Nem por um segundo largo mão da perfeição do teu desenho

Meu amor,

Quero ser grande ao ponto
de estar impressa nas fotografias que tiro,
de estar entrelaçada nos textos que escrevo,
de ser facilmente lida num poema que faça,
de ser lida em cada linha dos romances que tento acabar.

Meu amor,

Nem por ums segundo largo mão da perfeição do teu desenho,
meu príncipe.
Valeu a pena voar,
estava escrito...

Toranja, Fogo e Noite

01 novembro, 2009

You and I

Príncipe,

Descobri que a You and I que tanto adoro não é Michael Buble, é antes Stevie Wonder. Gosto mais dela agora, podíamos dançá-la na tal sala na penumbra, só iluminada pela luz da lua e da electricidade do exterior. Mas hoje fui visitar a Casa das Histórias da Paula Rego e percebi que não é o teu ambiente. Eu iria sair com pessoas que têm os mesmos interesses que eu e tu ficarias em casa, enterrado em trabalho ou a ver futebol ou política na televisão.

Meu amor,
(Não) Fomos feitos um para o outro.

07 outubro, 2009

O Regresso ao Ideal

Quero alguém que me leve à ópera. Quero alguém que traduza, ao meu ouvido, cada fala, cada linha das canções, antes que eu abra o folheto e leia a tradução. Quero alguém que me aperte a mão no momento em que começar a soluçar de emoção, e quero que me olhe e sorria, assim como também eu serei capaz de sorrir. Quero que, nos momentos mais inesperados, me fale do seu passado, de pequenos recantos da sua juventude, da sua infância, pequenas glórias e pequenos traumas. Quero que me dê a versão parcial e subjectiva de cada elemento da sua família, e que eu saiba todas as piadas privadas sobre cada um deles quando nos apresentar. Quero que me sugira livros para ler e me chame inculta por ter passado ao lado da maioria deles. Não, quero que vá mais longe e diga que só tenho lido "romances de caca". Quero que faça pouco do meu romantismo, mas lhe dê o devido valor nos momentos certos. Ainda que não me acompanhe à chuva, esteja lá comigo, ainda que debaixo dum resguardo. Quero alguém que compreenda que eu só sei amar nas notas mais altas duma composição musical. Naqueles instantes em que se grita, em que os instrumentos se exaltam, em que a música, como a vida, passa a introdução e o desenvolvimento e se precipita dorida, vivida, para uma conclusão irremediável. Por muito bela ou triste que seja, quero que seja digna de lágrimas de desolação ou felicidade. Quero alguém que me estenda o guardanapo quando sujo os lábios ao comer, ou alguém que aceite que eu limpe os seus, quando se distrai. Quero alguém que partilhe uma biblioteca comigo, ainda que dispersemos em direcções opostas uma vez lá dentro. Alguém cujos livros, na estante, completem os meus - pelo menos, que esses livros falem dos mesmos espaços físicos ou do mesmo lugar ou da mesma época. Quero alguém que dance comigo, quando a noite já caiu lá fora, no mais absoluto silêncio, e que nesse silêncio digamos tudo o que seria ridículo dizer em voz alta. Quando a mim, quero ser capaz de o ler, sem cair em neuroses e sem o arrastar para discussões. Com a mesma naturalidade com que respiramos, quero que tenhamos outras coisas indispensáveis em comum. Tem de gostar de campo, tem de querer terminar os dias a ver as estrelas sob os bosques inquietantes duma aldeia isolada qualquer. Tem de estar aberto à ideia de um cão ou um gato, pois só assim eu nunca irei insistir em ter nenhum. Tem de saber ler os meus humores, arrancar-me à melancolia e desencadear avalanches de riso em mim. Tem que saber fingir, brincar, simular. Tem que saber rir e fazer rir. Tem que saber curar-me com abraços e despertar-me com beijos. Tem que gostar de músicas doutras décadas, por compreender que marcaram épocas, pessoas, imortalizaram lugares e histórias. Tem que saber apreciar um bom filme antigo e, ainda que o esconda, emocionar-se nas partes que me arrancam lágrimas. Tem que ser imprevisível, por favor, que seja imprevisível, para que eu esteja certa de que o vou ver às 19h mas ele às 18h já esteja em casa. Para que pense que foi alugar o filme que quer ver há semanas e regresse com aquele que, há meses atrás, lhe mencionei. Para que julgue que nas férias vamos para a praia e me surpreenda com um destino qualquer de quietude na montanha. Para que eu já me imagine de biquini e ele me aconselhe, ao invés, gorros e cachecóis. Tem de ser volátil, aprender e mostrar que aprende ou, pelo menos, deixe essa aprendizagem transparecer. E quero que diga que me ama, o menos possível, embora esteja autorizado a mostrá-lo diariamente. Se o fizer mensalmente, contudo, quero que seja no momento exacto em que viro o café sobre a roupa que já tinha vestido e quando são 7h da manhã, ainda mal abri os olhos, e amaldiçoo o tempo, o meu desmazelo e o malfadado café. Quero que seja nesse momento, em que tudo me irrita, tudo parece correr mal, que ele esteja recostado no outro lado da cozinha, apoiado na bancada, com a própria caneca na mão e um sorriso no rosto. Quero que seja uma aparição matinal, ao obrigar-me a olhá-lo com olhos de ver, e que diga com a mesma naturalidade que diz «acho-te piada»:
- Amo-te, miúda.
E nesse preciso instante, vou abençoar o café, os atrasos e as manchas inesperadas. Até o meu mau jeito será louvado porque, do outro lado da cozinha, vai estar o meu Mr. Perfeição, com um sorriso do tamanho do mundo no rosto e olhos benevolentes que, espero, nunca perderão a confiança em mim e terão sempre paciência comigo.

Menos que isto, não poderei aceitar.

21 setembro, 2009

Direita ou Esquerda?

Eu, que sempre disse que quero viver sozinha com o meu gato num local remoto onde ninguém me encontre, terei descoberto o precioso da minha vida num instante em que os meus pensamentos não tinham exactamente o fundamento de ser poéticos nem de me levar a epifânias?

Será que o precioso da minha é, exactamente, o facto de quando estou em baixo, stressada, furiosa, poder encontrar a minha prima numa noite de Dezembro a meio caminho - na mesma rua - entre a casa dela e a minha, ambas de robe, ambas a respirar em nuvens, ambas a fumar um cigarro solitário?

Ou será o precioso da minha vida eu a, daqui a alguns segundos, perguntar ao meu pai se tem um cigarro e ir fumar sozinha para o quintal enquanto oiço a Thumbing my way, Pearl Jam?

IV - Poema

«Podíamos ter caído os dois
Pelas notas da guitarra,
Pelas entrelinhas do tempo,
Da vida, enfim.
Podíamos ter estendido a mão ao outro
A cada vez que tropeçasse
Num obstáculo,
Ou noutra coisa tal.
Podíamos ter conhecido os mesmos becos
Sem nos perdermos um do outro,
Nem por instantes,
Nem pela eternidade»

Nunca te esqueci, nem quando te garanti que o tinha feito.

20 setembro, 2009

Slow Time Love

Caro G,

«A paixão arde na pele,
feridas em carne viva
O amor faz doer na alma,
desilusão»

Eu disse que te aceitava como um pacote inteiro, não disse? Neste momento, é dos teus defeitos que sinto mais saudades. Traziam ao de cima o meu lado humano que perdoa, desculpa, e reconhece a imperfeição como um facto natural nos outros, tanto como em mim,

Com amor,

C.

17 setembro, 2009

II - Enquanto não chegas

Olha meu amor, a atmosfera está duma tonalidade indefenida. Entre a cor de areia e um amarelo indescritível. Os meus melhores momentos, passei-os à beira mar, com música a animar-me os saltos sobre as ondas e o vento a dar ritmo ao meu cabelo. Não estavas lá. Gritei às ondas - não sei se te ouvem - o quanto sou feliz por entre as suas águas. «Tempos estranhos», digo. «O tempo, parece estar estranho». Parece ter abrandado, parece estar numa frequência lenta, carregado de acontecimentos que não têm lugar, de noites que sobem ao céu apenas físicamente, de luares que não contemplo e de amanheceres que só existem no plano da ciência. Não vejo beleza nas ruas. Estas mesmas estão vazias. Não vejo beleza noutro olhar que não no teu, esse mesmo, tão distante. Já não ando, meu amor. Ao invés, deambulo. Arrasto-me, passo em revista o meu corpo e as suas mazelas, sabendo que não poderei nunca ver as da alma. Olho-me no espelho e não me reconheço. Sou outra pessoa, e têm que passar outros vinte anos até que aprenda a conhecer-me como já me conhecia. Regavas-me. Agora que sequei, tenho que aprender a viver na aridez que ficou de ti. Nos solos secos e gretados da minha saudade, procuro-me sem me ter ainda encontrado. Estou descalça, meu querido, numa cama de espinhos que fiz para me deitar. Nela tento descansar, sabendo que, para onde quer que me vire, me vais faltar. Sabendo que, a cada vez que me faltas, esses mesmos espinhos se cravam mais fundo na minha pele. O tempo vai passando e a saudade agrava. O pico máximo será na véspera de te ver e, quando te vir, vou fingir que não me faltaste. Vou fingir que não deixei de ser eu, só porque partiste. Já não sei quem sou, meu mar nocturno. Como por comer e vivo por viver, enquanto te imagino invadido por outros odores, outras cores, outras temperaturas a aflorarem-te a pele e a garantirem-te que estás vivo, a gritarem-te para que vivas mais. Olha para ti, tão jovem, com tanta avidez de experimentar, de correr riscos, de conhecer o novo e o improvável; e olha para mim, que te conheci a ti e que desfiz a mala nessa estação. Era suposto andar muito mais, experienciar muito mais, mas vi-te nessa paragem, com o teu sorriso inconfundível e ambíguo e a tua alma a transbordar dos limites do teu corpo terrestre. Está a anoitecer - e é um evento físico, acima de tudo - porque não me volto para observar o cair da noite através das vidraças. Está lá e sei que está. Sei que amanhã voltará a ser dia. Sei até a data do teu retorno. Mas neste instante preciso de registar a profunda letargia em que mergulho, enquanto não chegas.

Comptine d'un autre été , Yann Tiersen

10 setembro, 2009

I - Day III

«Ele está a viver a vida dele. Eu desejo-lhe felicidade, desejo que nunca ninguém o magoe tanto como me magoou. E também desejo, se ele é uma pessoa tão capaz como cheguei a julgar que era, que um dia dê um concerto e se aperceba que eu não estou lá, na fila da frente, de lágrimas nos olhos. Desejo que, enquanto passeia nas ruas de Itália onde desejo viver, feliz a tirar os seus seis meses de Erasmus, se lembre de coisas para me dizer. Que, a meio dum diálogo numa taberna de lá, lhe falte uma palavra e pense 'ela tem italiano, se lhe ligasse ela saberia que palavra é'. Que se lembre, enquanto conversa lá, das palavras que EU lhe ensinei enquanto estudávamos juntos. Que, quando tiver a comer uma das suas amigas cujo nome esquece daí a umas horas e a cara também, ainda mais depressa, pense: que coisa vazia é esta, que faço? que vida vazia é esta, que vivo? que caminho vazio é este, que escolhi? e que pessoa vazia é esta, que fodo?»

comentário que senti, sobre ti.

02 setembro, 2009

O passarinho

Viste, amor?

Eu receava dizer-te: cansei-me, porque achava que nunca me ia cansar. Eu disse sempre: quando há amor, não há motivo para as pessoas não se entenderem. Mas eu andava a segurar a casa às costas sozinha outra vez. Tu afastavas-me, começavas a ficar irritado e possivelmente a sentir-te oprimido. Não quero que te sintas assim, mas não sei ser eu sem te repreender e sem te puxar pelo braço. Não sei ser sem te pedir que fiques quando queres ir. No fim vou ajudar-te a fazer a mala, tu sabes, mas entretanto vou implorar-te, em silêncio, que fiques.

Quando te fores embora vou saber que estás livre, no auge da tua vitalidade, num casulo a passar por uma metamorfose que vai fazer de ti um homem enorme, um homem admirável. Quando regressares, provavelmente a esperança também vai voltar a mim. Espero que não, a esperança é um sentimento destrutivo. Vou pensar «voltou mais adulto, talvez agora me veja e me compreenda melhor». Isso não vai acontecer, eu não fui feita para ti nem tu para mim. Se me esforçar um bocadinho, talvez consiga imaginar alguém melhor do que tu. O vazio onde me deixas é insuportável. Nós nunca nos íamos mesmo entender, seria perfeito, se fosse mútuo, lá isso seria. Mas enquanto eu vivo a vida numa frequência e tu noutra, seria um pequeno inferno que eu cultivaria com amor.

Adeus, meu passarinho, voas já na próxima terça-feira. Espero ao menos conseguir dar-te um abraço, calar as palavras, espero isso.

És a pessoa de quem gosto mais no mundo.




01 setembro, 2009

Fim ou Precipitação?

Conforme oscilam as horas num novo estado de energias, oscila a minha percepção do mundo. Como a cada vez que a percepção muda, eu mudo o meu mundo inteiro, há três dias que somos estranhos e eu já remodelei tudo: já me vejo sem ti nos próximos dias e nos próximos meses. Já imagino que as cartas que seriam o meu consolo nesses mesmos tempos já não vão despregar-se da caneta porque já não me sinto capaz. Já decidi que, uma vez que sinto que descarrilaste, e, contigo, nós os dois, vou aprender a viver sem ti. Mas a verdade é que, só três dias depois, já me fazes falta. Fazes-me tanta falta...

Quando estou distraída a ser eu, e algum dos milhentos assuntos que pisámos se enterpõe pelo meio de qualquer conversa, olhava para ti, encontrava no teu olhar a compreensão, e o mundo acordava todo ao meu redor. Já não podia estar distraída. Punha as ideias todas sobre rodas, não fosses tu ouvi-las e procurar a integridade delas, a estruturação. Quem sabe, não encontrasses tu falhas: ontem disseste b e hoje estás a dizer c. E eu dizia-te: Tens razão, mas... E repensava tudo.

Amor, falei-te no passado. Fechei portas, teve de ser. Apetecia-me gritar:

ERRO DE COMUNICAÇÃO

AMO-TE, AMO-TE, AMO-TE

Isto sou eu a fechar portas porque sei que não vais passar por elas durante seis meses.

19 agosto, 2009

Amor da minha vida

Príncipe,

No outro dia estava um menino a chorar junto à fonte. Não é exactamente um menino comum, porque este resplandescia na sua tristeza, no seu olhar cabisbaixo mas, ainda assim, exultante, nas covinhas no rosto quando se ri e na sua tonalidade morena. Perguntei-lhe o que é que se passava e ele falou-me de um amigo mau com o nome do meu irmão. É claro que não é grande problema, mas reconfortei-o com energia, e não com pesar. Às tantas apareceste tu, amor, com o teu olhar curioso e o teu silêncio característico. Eu estava sentada nas escadas com ele e disse-te que ele estava a chorar quando lá cheguei. Fizeste um dos teus esboços de sorriso e partiste: ias jantar, já vinhas. Assim que viraste as costas aproximei-me do meu amiguinho:
- É o amor da minha vida - e o olhar do pequenito contrai-se em busca de compreensão - sabes o que é isso?
- Sei.
- Quer dizer que vamos casar e ter muitos filhos, assim como tu.

A minha promessa de esperar por ti ficou guardada no coração intocado de uma criança de 4 anos: imaginas-lhe esconderijo mais perfeito? Achas que o menino algum dia deixará de acreditar? Ele quer ter fé, e eu quero recuperá-la.

18 agosto, 2009

Mundo Saturado

Meu amor,
Às vezes pergunto-me se não teria sido melhor termo-nos conhecido mais tarde. Imagina que nunca tínhamos sido da mesma turma: tu conheces o mundo inteiro, toda a gente, mas eu não, por isso não me conhecerias a mim. Imagina que eu tinha seguido Artes, como ponderei seriamente, e nunca tinha vindo a conhecer-te. O que aconteceria, mais tarde, é que se nos conhecessemos talvez fossemos então um para o outro.
Sabes o que me imagino? E ao dizer isto sinto que estamos lado a lado num sofá e pouso a cabeça no teu ombro. Imagino que serás um diplomata, como queres ser e como eu quero tanto que sejas e eu uma Guia Intérprete. Falas as mesmas línguas que eu, mais introdução a alemão, mais espanhol e este ano vais ter russo. Portanto vamos fingir que eu tirarei mesmo japonês e que estava no teu grupo de políticos a traduzir as conjecturas dos japoneses. Se nunca te tivesse visto, caía por ti nesse momento. Estarás tão bonito, nessa altura, com o teu queixinho fino, o teu nariz adorável, os teus olhos como estrelas com laivos de mel, translúcios, honestos, toda a tua integridade a transparecer da tua postura íntegra, fidedigna, as tuas mãos nos bolsos e tu a aliviares o nó da gravada sempre que não te sentisses observado. E eu ia ficar encantada pela forma como o teu sorriso foge para o canto dos lábios, como os teus olhos se iluminam quando um assunto te interessa ou como irias inclinar a cabeça para me ouvir com atenção. Talvez nessa altura, se me visses composta, a falar fluentemente japonês e a traduzi-lo para ti, calmamente, e para os teus companheiros, provavelmente para inglês perfeito, pausado, me admirasses e não me soubesses a fogueira que sou, onde todo o meu fogo arde constantemente atiçado pelo vento. Se não me soubesses impaciente, apressada, insegura, talvez fosses capaz de me amar então, na inteligência que, espero, conseguisses ver em meus olhos. Talvez me admirasses aí, e me admirasses ainda mais quando um dia nos sentássemos e eu te contasse o meu passado. Quando fosse à tua casa, ou tu à minha, ias espantar-te com os motivos orientais e o jogo de cores, sabores e cheiros. Ias achar-me maleável, fluída como as correntes marítimas e as massas de ar globais. Ias achar-me omnipresente e ias ficar surpreendido. Quando te sentasses no meu sofá, eu ia pedir-te que esperasses. Depois, voltava com uma roupa de algodão velho, puído, invulgar e desactualizada, uma bandeja com chá de qualquer coisa exótica e ia sorrir-te. Ias notar que estava descalça e isso havia de ser refrescante para ti, meu amor, num mundo saturado. Talvez então me quisesses na tua cozinha, a dançar Frank Sinatra e, se agora não sei cozinhar, podia ser que na altura fosse uma cozinheira de mão cheia e me quisesses também por isso. Porque, quanto mais leio sobre pessoas que nasceram quando tu nasceste, mais me falam em segurança. Dizem que o que precisas é disso.
Mas o universo, por algum motivo, quis que nos encontrássemos agora. Que eu te visse na sala de aula, como eras com 16 anos. Ninguém me contou; o destino mostrou-me, eu vi. Quis que te admirasse como suposto adolescente mas extraordinariamente adulto aos 18 anos, participativo em referendos, voluntariado, questões políticas e sociais. Devoto religioso, de olhar aceso quando uma convicção te anima ou quando a tua ideologia é posta em causa. As estrelas quiseram que eu te visse, com 20 anos, a discursar para um grupo de homens mais velhos, tu elevado na fonte, o braço no ar, o olhar inflamado pela crença no que transmitias, as palavras firmes, convictas, e os homens, de cabelos brancos e olhar farto de viver, a ouvir-te silenciosos, como peixes e tu como padre. Meu amor, como te admiro.
O universo quis, consequentemente, que tu me conhecesses também. Por isso eu não sou novidade para ti quando seguro a saia e rodo no meio da rua, quando me descalço e sinto a terra a meus pés, quando canto debaixo da lua ou corro sem destino. Não sou refrescante neste mundo saturado, porque tu já conheces os meus limites e padrões, eu já faço parte do teu mundo. Não cheguei a ser inovadora, porque fui eu que inovei, tu abarcaste as inovações e eu caí na rotina dos teus dias e das tuas noites. Sabes que vou estar a ouvir Edith Piaf na cozinha, descalça e com um avental, e que cozinho mal mas sujo-me muito. Sabes que, num acesso de carinho, vou pendurar-me no teu pescoço e encher-to de beijos. Sabes que vou reparar se deixares o bigode por aparar ou se levares aquela sweat tua que adoro. Sabes que reparo se cortares o cabelo ou se surgires com o rosto arranhado. E agora começo a reparar no modo embaraçado, deleitado (?) como te ris quando te provoco. Queres que me afaste, dizes tu, queres que te dê espaço, que não te afogue. Mas eu sorrio-te, bloqueio a tua visão do mundo com a minha cara, abro os olhos, fixo-os nos teus. O meu espelho é um riso do teu. Os meus olhos dizem «amo-te, fica comigo para sempre, eu dou-te a segurança que queres».
Quem me dera que os teus falassem e,
se não fossem estrofes nem poesia,
que ao menos fossem amor silencioso.

17 agosto, 2009

O Principezinho


Cativaste-me, amor,

Mas não assumiste a responsabilidade de me teres cativado. De alguma forma, não tens culpa se a magia se desprende de ti. Parece que nunca nos iriamos entender, mas eu só precisava de uma ferramenta para arrancar com as nossas engrenagens e nos por ao mesmo ritmo, lado a lado: amor. Se eu tivesse o teu amor, os teus olhos como estrelas a fixarem-me, e se isso não partisse da tua inconstância como humano, mas da tua luz de apaixonado, eu unia-nos com laços de seda e beijos de cetim. Se eu soubesse que, se estendesse os meus lábios para os teus, tu não me deixarias cair no vazio do abandono, o meu rosto estaria sempre colado ao teu e eu teria desenhado estradas de amor e ternura em ti. Terias a minha marca em toda a tua pele, e a minha mão na tua a suspender-te do vácuo. Teria a tua mão na minha, a trazer-me à terra, e os braços abertos a flutuar no espaço. Se eu soubesse que o brilho do teu olhar era amor, e que a forma como o sorriso te foge para o canto dos lábios é gostar, é embaraço, é querer, eu abraçava-te para não mais te soltar. Prendia-me a teu lado para me deixar arrastar para onde quer que fosses, meu amor. As cartas que te vou dedicar seriam cartas de amor, e não cartas de amizade. Podia inverter o pretérito perfeito para um presente duradouro e repetir-te, por folha, cem vezes que te quero e cem mil vezes que te prometo ficar. Porque eu ficava contigo até ao último dia das nossas vidas, meu príncipe. Sou a raposa, não sou? A falar-te de sentimentos enquanto tu me falas das tuas viagens e da tua inconstância. No final tens de partir e eu que ficar, no final sou eu que sofro com a tua partida, porque tu desmantelas-te para não ficar. O principezinho tem lógica no mover-se, no correr universos e planetas e no aprender. A raposa tem lógica no amar, no sofrer, no prender-se. Somos eu e tu, príncipe e raposa, eu a querer-te e tu a explicares-me que motivos maiores te fazem partir. Se ao menos não fosses tão brusco, não recearia tanto abraçar-te. Se me olhasses daquela forma quando me aproximo, em vez de receares cativar-me mais ainda, as nossas almas estavam agora entrelaçadas com um infinito de lições a ensinar ao outro. Eu falava-te de amor, fala-me do mundo, porque eu não o conheço nem tãopouco compreendo. Eu a sussurar-te ao ouvido que te amo e nós a dormirmos abraçados. Abraça-me, porque ainda imagino, a cada vez que me deito, que é em teus braços que me refugio. Finjo que a minha pele é a tua e que a minha respiração é a tua, no meu ouvido. Finjo que a minha almofada é o teu peito, que segura dentro tudo o que tu és, o diamante em bruto que és. Melhor pessoa, melhor essência, melhor Homem.

Melhor tudo,
Meu amor.

15 agosto, 2009

Problema de expressão; tempo verbal

Príncipe,

Eu e tu nunca nos vamos entender, pois não? Nem como amigos nem, se o mundo virasse enfim, como um casal. Agora estou a pensar aquelas coisas todas que podes estar a fazer e que me magoariam mais, como estares ao telefone com ela. Estás sozinho em casa e, não estivesse ela em CB, receava que a convidasses para ficar contigo. Veio uma recém-licenciada em psicologia dizer que pensa que gostas de mim mas não tens equilíbrio interior para me receber. Eu também não teria equilíbrio para te receber a ti. Nós não teríamos maneira de nos receber mutuamente, apesar de ficares de rosto fechado quando estou mal, e de nos rirmos juntos quando queremos estar sérios um para o outro. Repenso o que a rapariga disse: será possível que nos amemos sem conseguirmos encontrar um entendimento? Será possível que, para compôr o nosso presente, eu tenha que utilizar o pretérito imperfeito do verbo amar? Será que só assim podemos respirar fundo ao lado um do outro? Quando é que vou poder dizer-te que ainda te amo, que foste e serás o amor da minha vida porque me ensinaste tanto... Ensinaste-me a sentir coisas que não tive tempo de me perguntar se existiam:

Existiria um amor tão grande que a pessoa em questão aceitasse a outra sem reservas, mesmo como melhor amigo, só para a ter a seu lado, ainda que a amasse como te amo? Antes de me colocar esta questão, já tu me tinhas ensinado que sim.

07 agosto, 2009

Quand il me prend dans ses bras...

No futuro, o idealizado que tinha e que às vezes me visita na imaginação, seria assim: eu descalça enquanto cozinho, de costas para o restante mundo, a ouvir Edith Piaf no rádio, de preferência no gira-discos. Enquanto enfrento a tarefa fastidiosa de cortar cebola, os meus olhos escorrem lágrimas que eu queria que fossem de felicidade. Se não forem, ao menos que não sejam de saudade. Que sejam só por estar a cortar cebola, com os pés descalços, um vestido e um avental, o cabelo preso e os óculos postos. Essa sou eu, em casa. Sou eu mal vestida, sou eu suada e não tão perfumada como quando saio, com o cabelo colado à testa a cada vez que me aproximo da panela. A comida pode sair mal, não te prometo que saia bem. Mas sairá tanto melhor como mais fundo em mim penetrar a voz da Edith.
Et ça me fait quelquechose...
(...) C'est toi pour lui pour moi, moi pour lui dans la vie.... il me l'a dit, m'a juré pour la vie...

05 agosto, 2009

Ciúmes

Os ciúmes não me tornam feia nem obsessiva,
ou pelo menos não é isso que importa.
Em vez, matam-me.

Os ciúmes não fazem de mim pior pessoa,
ou pelo menos não incomodam assim tanto os outros,
Em vez, destroem-me.

Quando sinto ciúmes não quero mudar as tuas circunstâncias,
não quero ser eu a teu lado,
Em vez, quero que vás ser feliz noutro lugar.

Os ciúmes não me tornam rancorosa ou vingativa,
nem tão pouco me fazem desejar-te mal,
Em vez, corroem-me por dentro.

Não me testes fazendo-me ciúmes,
desta sobrevivi,
para a próxima posso não sobreviver.

Desconfiada

Tu matas-me. Se não me matas queres-me matar. Se nem sequer me queres matar, o universo quer que tu sejas responsável pela minha morte.

Hoje vou falar contigo na internet e a conversa desenrola-se mais ou menos da seguinte forma:

Eu: tens trabalhos para hoje? é para saber se levo os óculos.
Tu: é isso tudo aí, não percebo nada do que dizes.
Eu: não percebes nada do que digo ou do italiano no ponto em que está agora?
Tu: continuo sem entender nada do que dizes
Eu: bem, estou a falar com o G. N. ou é engano?
Tu: é engano
Eu: então é o fantasma da coelha?
Tu: lol
Eu: então se não és tu é quem?
Tu: namorada
(Por esta altura a respiração começa a fugir-me e os dedos a tremer)
Eu: ai é? estás muito espirituoso hoje
Tu: ele não tá aki (tu não escreves com k) tá a tomar banho
(Cai-me tudo, não quero acreditar, no entanto aos poucos, vou acreditando)
Eu: tá bem
(15 min depois)
Tu: yo, não estava aqui
Eu: pois não, estava a tua namorada
Tu: não era namorada nenhuma
Eu: disse que era
Tu: disse? falou contigo? vá, vou descer, passamos aí?
Eu: não.

E pronto, foi assim que começou o meu pesadelo hoje. Depois fico a pensar que todos me querem esconder alguma coisa. Depois fico a pensar que devia ter controlo sobre mim própria nestes assuntos mas não tenho. Não tenho, não tenho.
Depois dizes-me que estavas a gozar comigo, que foste tu o tempo todo, que tenho de me controlar, riste, disseste que é para eu aprender que não há pessoas previsíveis.

E eu não consigo deixar de pensar... é melhor não saberes o que penso.

04 agosto, 2009

Amore mio

Como és bonito, amor. Ontem sentámo-nos juntos na Tasca, e ajudei-te a terminar os trabalhos de casa de italiano. Agora dividimos o italiano, como é bella a vida. Juro-te que quando o meu peito tocou o teu braço foi sem querer. Tão sem querer que, se sentiste, não me envergonho. Quando me apercebi afastei-me. Juro-te que não foi de propósito, não gosto dessas artimanhas. Desculpa, príncipe. Depois, o teu cheiro invade-me e sou tão apaixonada por ti... Ontem abriste-te um bocadinho, emocionei-me tanto a ouvir-te falar da tua infância, da tua família, da tua mãe, amor. Como estava feliz, a ouvir-te falar. A determinada altura pensei: eu realmente ficava com ele até ao último dia da minha vida, de tão bom que é ouvir-te falar, de tão bom que é ter o conforto da tua voz a entreter-me, a animar-me, a dar-te a conhecer, e de tão bom que é olhar para o lado e descobrir os teus olhos, tão sinceros, tão honestos, a olharem nos meus. Antigamente, quando o meu amor era egoísmo e imaturidade, a cada pausa tua eu entraria com argumentos meus. Eu queria dar-me a conhecer, não tanto ouvir-te. À medida que fui amadurecendo, eu deixei de ser importante e és tu tudo. Deixa-me ouvir-te durante horas, amor, porque eu respeito-te tanto, admiro-te tanto, orgulho-me tanto das voltinhas da tua cabecinha perfeita e das tuas conclusões - ainda que não possa adoptá-las todas como minhas, reconheço o mérito de lá chegares. Como é bom ouvir-te falar comigo sem desviar o olhar. Talvez te esforces por manter as lágrimas longe dos olhos, quando te vêm aquelas recordações que, por menos ou mais felizes, te podem desfocar a vista. Talvez eu me tenha esforçado para não ficar de olhos marejados enquanto me contavas um pouco mais de ti. Estamos a ir tão bem, e tu vais-te embora. Mas eu estou feliz de estar a ajudar-te com o italiano, estou feliz, é como se te ajudasse a fazer a mala. É como se, uma vez mais, pusesse o meu egoísmo de lado para te ver bem e feliz. Porque é assim que agora gosto de ti. Longe dos meus receios em relação a essas piranhas que podem vir e levar-te para longe, temos uma coisa só nossa que é preciosa.
Esta amizade, que amo tanto quanto te amo a ti,
amore mio,
quanto sei bello.

03 agosto, 2009

Nuvens

G,

Como me sinto bem quando me inclino sobre os teus compiti contigo a meu lado e foco a visão para entender o que está escrito. Depois tenho-te, a meu lado, a tagarelar o que vais lendo, e fico espantada com o rápido que assimilaste a língua, em especial o sotaque. Fazes batota permanentemente, principezinho, a ir ver à página anterior qual é o verbo. Não gostas de errar, pois não? Não gostas de ser apanhado em falta. Não sei explicar o quanto acho bonito o facto de apareceres no café com os trabalhos para te ajudar. Gosto tanto de ti e do teu cheiro. Mudaste tanto, desde o G que comia ranho na escola...
Quanto a mim conheci ontem alguém invulgar num situação surreal. Mas esse será outra entrada, foi demasiado especial para ser aqui "anexada".
Baci, amore mio, ti voglio tanto bene...

02 agosto, 2009

Amor

Olha só o tamanho da minha ingratidão. Por muito que diga, o que prevalece sempre é o facto de gostar de ti como o pacote completo que és. O que prevalece é que tento convencer-me vergonhosamente, para mim e para quem me conhece, de que não te quero, não preciso de ti, de que só me atrapalharias, quando a verdade é o inverso perfeito disto.

Se não sabes, eu sei pelos dois que te amo.

01 agosto, 2009

Please yourself at the same time and leave

G,

Aí está, saiu. «A tua amiguinha», saiu. Dói-me a cabeça, tenho o corpo adormecido por analgésicos, tinha acabado de acordar e estavamos a falar mais ou menos normalmente e eu disparo-te isso. Desculpa, desculpa, desculpa, não me quero meter na tua vida. Não quero, G, Mas eu precisava que tu soubesses que eu sei.

C.

31 julho, 2009

G

Insistes em te meter comigo. Quando digo a todos que já não te posso aturar, que já não te posso ouvir, que estou esgotada e saturada, vens tu e cativas-me. Estás tu, sozinho, inclinado de lado num balcão, o rosto apoiado nos braços lá pousados e a intensidade do teu olhar pousado em mim. Estás tu a pensar o que hás-de dizer para me moer o juízo, ou talvez não penses em nada e eu julgue que, tal como eu, pensas em tudo. Depois estás tu a dizer "Vais dormir na rua", e eu a controlar-me para não te responder e para não encurtar a distância de sensivelmente dois metros que nos separa. Continuas a embirrar comigo até eu me dirigir a ti "Estás a gozar com a minha cara?", pergunto-te, depois de mencionares o episódio de ontem "Então, foste dar uma volta?". Pois fui, e hei de ir sempre, e tu não tens nada com isso. Fica com a tua amiga oca, com aquela exibicionista, oca de alma, nua de valores. Fica com ela, ela fica-te melhor.

30 julho, 2009

Perfect Timing

G,

Não me apetece chamar-te príncipe, porque para mim perdeste o encanto. Tenho uma capacidade única de me auto-convencer que algo está errado e que tem que mudar. Com a devida insistência, muda de tal forma que não há retorno. A partir daí, aquele caminho é caminho a não pisar. Não nasci, muito provavelmente, para a família e para o lar. Nasci para passar as noites a escrever ou a ver séries ou filmes com um cão ou um gato ao colo num ambiente místico, com budas, incenso, almofadas, verdes alface e vermelhos aconchegantes. Pensei que por ti podia mudar a minha natureza, que os quilómetros de estrada percorrida terminariam em paz de espírito e liberdade, mas é bem mentira. Terminam em mim presa a ti, a achar que preciso de ti para ser feliz, e tu, solto como és, talvez até mais preso a mim, mas eu nunca me sentiria segura contigo, porque eu preciso que me mostrem e que me falem de segurança, e tu enfadas-te com quem não entende isso em silêncio. Pensava que ficaria contigo pelo resto da minha vida, mas cada vez tenho mais vontade de fugir dessas perspectivas, contigo e com qualquer um. Não digo que acordar e não ter a cama ao lado vazia não seja bom, mas não merece o esforço. Vejo-me antes em capitais, por aí, dedicada às artes, a viver romances nos que escrevo e nos que leio e a ser assim feliz. Achas que é uma vida vazia? Não acho. Acho que terei imensas dimensões na minha mente e que, só por isso, poderei saciar as minhas necessidades de felicidade e também as de lágrimas, que as tenho. Olha eu em Praga, em Florença, em Viena, em Genebra? Olha eu no Egipto, no Quénia, no Peru! Olha só para mim em Nova Iorque, Toquio, Bombaim? Serei feliz por aí, com a máquina fotográfica a coleccionar bustos egípcios, t-shirts a dizer "I Love NY", máscaras africanas, pequenos budas, um sari indiano, um alcorão. Uma biblioteca internacional, nas minhas estantes e fotografias da minha fluidez nas paredes: eu aqui, eu ali. Eu em todo o lado. Não saberei viver num só espaço nem estar fechada o dia inteiro. O meu trabalho não pode ser uma forma de ganhar dinheiro, mas de viver a vida. Este meu trabalho é um milagre porque foi ele que me encontrou. Hei de viver muitas vidas, não só a minha. Talvez me apaixone pelo exotismo de um israelita, pela sensualidade de um italiano, pela nobreza de um médico em serviço pela ONU na Namíbia, por um guia egípcio e um motorista ou transfer irlandês. Cada um há-de chegar no momento certo e espero que, ainda assim, seja uma surpresa. Que quando eu vá à Sardenha tenha lá o Giuseppe e que quando chegue à Suiça tenha o Jean-Pierre à minha espera. Tudo muito decente, tudo muito claro.
«Adeus, até para o ano!»
Ontem fizeste-me a seguinte pergunta:
«Quando as coisas vêm tarde, ou não vieram quando querias, achas que já não é bom? Já não vale a pena?»
E eu respondi-te com sinceridade:
«Acho que vêm fora de prazo, tarde demais. Só vêm perturbar-me, já não as quero».
Nem eu sei do que falávamos.

27 julho, 2009

Fogo

Aqui o fogo volta a desistir de ti, terra. Estás a deixar de ser estimulante.
Image and video hosting by TinyPic

Manual de Instruções?

Nunca pensei chegar ao ponto de agradecer por algumas dicas em relação a ti. É só que, frequentemente me pergunto, em relação às minhas paixões, se devo virar à direita ou à esquerda e se essa decisão tem consequências, contigo parece ter consequências muito maiores. Sem querer, e parecendo completamente inconsciente disso, desencadeias em mim tempestades que lanço sobre ti, discutimos até mais não e no fim tu ficas a dizer piadas, a tentar que o meu mau humor passe, e a reparar em todos os meus gestos e a imitar a minha voz - numa tua muito mais irritante - com os teus 'blábláblás'. Por outro lado, coisas pequenas às quais nem eu, que procuro dar significado a tudo, reparo, surgem de ti mais tarde, aquela conversa que tivémos há meses e que tu agora desenterras, por meias palavras, e me piscas o olho porque é coisa só nossa. E os teus silêncios inexplicáveis.

Gosto tanto de ti, raposinha.
Tu, que leste o Principezinho.

26 julho, 2009

Meu pequeno grande amor

Há isto que é novo, que é o teu sorriso, que é o nosso sorriso quando olhamos um para o outro. E há o facto de, quando vou sentada a teu lado, nos joelhos de alguém, ambos encolhidos noutro carro com outra gente a mais, reparar em como és pequenino no teu canto... Como as tuas mãozinhas são pequeninas unidas no colo, como o teu rosto é pequenino visto de cima, como o teu corpinho, encolhido, é tão pequeno.

E em como os teus olhos, eles mesmos pequeninos, transparecem a tua alma,
essa sim, tão grande.

24 julho, 2009

O que é certo

Príncipe,

Já não estou habituada a não falarmos. Já não estou habituada a estar um bocadinho mais afastada de ti uma noite. Ontem foste o último a chegar ao carro, como sempre. Éramos seis. Mandaram-me sentar-me ao teu colo. Pergunto-me como é que ando a conseguir, por uma vez, fazer o que é correcto: correcto para mim, para nós e não aos olhos dos outros. Para eles, que até o estavam a incitar, estava tudo bem. Para mim não podia ser. É claro que ainda não parei de pensar que piadas terias dito, o que é que teria acontecido, se a viagem me teria parecido maior ou mais pequena. Quando chegámos ao destino foste para o teu concerto e eu fiquei a jogar à sueca. Espero que esteja tudo bem entre nós, meu amor. Espero não te magoar e que não me magoes, e que as minhas pequenas rejeições não te magoem, como amigo que és, só porque eu comecei a conseguir dizer que «não» às coisas que outrora me fariam tão feliz.

Amo-te, meu amigo.

23 julho, 2009

Assim sim

Príncipe,

Agora sim. Agora não tenho ilusões, agora não acho que estou a ver coisas boas onde elas não estão. Agora até é bem o contrário. Agora tenho uma relação quase priveligiada contigo. Agora, gritamos até terem de nos separar na Tasca e, à noite, quando chegas a casa estou a pedir-te desculpas, depois estás tu a chamar-me «Tontinha» e a dizer que não fiz «nada de mal». Depois eu digo-te que tenho dificuldades em mostrar-te amor, penso sempre que ou estou a exagerar, ou que vais evitar-me. E tu dizes «não tenhas medo de ti». Então, no dia seguinte descemos do carro e eu apanho-nos uns metros afastados dos outros. Não tenho medo de mim: encosto-me a ti, pego-te na mão discretamente e levo-a aos lábios. Como não sei ficar calada, quando a beijo penso que te disse «principezinho». Depois olho para ti, sorrio-te, e tu sorris-me, piscas-me o olho e dizes:
«Assim sim».

20 julho, 2009

Coisas que teria feito

Amor,

Eu teria posto uma mochila aos ombros
e cruzado o mundo,
por ti,
porque o poço do meu amor não tem fundo.

Eu teria escrito o teu nome em todas as paredes
até dez milhões o decorarem,
por ti,
até essas palavras te encontrarem.

Eu teria nadado até onde os meus braços pudessem
e atravessado qualquer mar,
por ti,
tantos quantos fosse preciso até te alcançar.

Eu teria posto o meu corpo à frente do teu
se viesse ao teu encontro a morte
por ti,
para que não te falhe a sorte.

Eu ter-te-ia escrito 565 cartas
se alguma te tocasse
por ti,
para que o meu amor te chegasse.

Eu teria desistido dos meus sonhos
se não partilhasses nenhum
por ti,
para que o nosso caminho fosse um.

Eu ter-me-ia desviado da minha trilha
posto tudo de lado
por ti,
para te mostrar que estavas errado,
e que amor é mudança,
é dar e receber,
é ser e não ser
e enquanto há esperança
não há meio de ele morrer.

Para ti,
20 de Julho de '09

Abraço

Amor,

Finalmente tenho à-vontade suficiente para me aproximar de ti quando estás de costas, introduzir as mãos no teu pólo e abraçar-te contra mim, acariciar a tua barriguinha e sorrir. Sorrir...
O que é que isto quer dizer?
Se não foges e eu não me sinto na corda bamba?

17 julho, 2009

Os meus olhos nos teus, deixa-me adivinhar

Amor,

Posso chamar-te assim de novo, ou tenho que continuar com mentiras para te fazer feliz? Ontem brincámos tanto, brincámos como ambos temos permitido que brincássemos num acordo mútuo e silencioso de sermos amigos - e bons amigos.
Primeiro disse-te: porque é que tens medo de estar sozinho comigo? Eu não mordo. E tu agora pareces procurar os lugares a meu lado, ou não foges se eu procuro o lugar vazio à tua direita.
Depois disse-te: estamos a cair na mais comum das vulgaridades, batemo-nos, rimos, dizemos piadas, insultamo-nos e não temos uma conversa decente. Disseste que gostas das nossas discussões, já tinhas dito que te fazem felizes, mas há tanta coisa que te faz feliz. Agora sentas-te ao meu lado no café e falamos baixo sobre o fascismo, o Alberto João Jardim, o comunismo, línguas, política, religião, amizade, amor, sexo. De repente conheço-te e tu conheces-me mais.
Ontem aconteceu umas quantas vezes estar a teu lado e sentir a tua anca na minha anca, o meu pé na tua perna, as tuas costas no meu braço, o teu cheiro nas minhas narinas. Depois provocas-me e eu provoco-te, interrompemos as conversas um do outro só para ver o outro irritado. Olhas-me nos olhos, franzes as sobrancelhas. Olho-te nos olhos, desafio-te com o olhar, ergo a sobrancelha, sorrio. Depois não temos que dizer nada, dou-te uma bofetada e fico a rir-me, mas não por muito tempo porque a seguir tu dás-me uma com o teu mínimo de força, mas é o suficiente para o meu ouvido zumbir, o cabelo esvoaçar e eu levar a mão à cara. Depois eu falo alto, mandas-me calar, falo demais, à minha maneira, fazes um bico de pato e imitas-me "blábláblá", e eu irrito-me e dou-te uma palmada no braço e tu dizes "Vêm?". Depois agarras-me nos pulsos e obrigas-me a rodar para um lado e para o outro enquanto tento libertar-me. Pelo meio sinto-te aqui e ali, rio. Ao menos não o mencionas quando a tua mão ou cotovelo toca algo que não devia, e eu não o menciono por saber que a culpa é minha, que se calhar o quis. Depois mordes-me a mão, na próxima oportunidade sabes que vou tentar morder a tua. Dou-te uma palmada no rabo, pegas em mim ao colo, de costas para todos, estou de saia, com as ancas nos teus ombros e, atrás de nós, no café, todos teriam visto o que não deviam ver, não fosse a maravilha das leggins. Depois balbucias qualquer coisa sobre "coitado do homem que se casar comigo" e sobre o facto de eu "dever ser estudada" e de ser uma "personagem de banda desenhada". Depois uma das minhas amigas diz "Quando ela se casar vai bater ao marido", e eu olho para ti e digo:
- É verdade, é por isso que queria casar contigo, para te bater a toda a hora.
E, quando regresso a casa, só carrego os teus olhos nos meus, quando estamos a centímetros de distância, e o modo como às vezes não tenho a certeza de para onde estás a olhar. Não desvio o rosto, nem o olhar. Até arrisco erguer as sobrancelhas só para te irritar. Sorrio-te e digo qualquer coisa que te faz revirar os olhos. A três quartos, o vínculo entre os teus lábios e o teu nariz é lindo. A forma dos teus lábios é linda. À luz nocturna, a tua covinha no queixo é linda. O teu olhar é lindo e a tua alma que explode com a luz de mil estrelas cadentes, é linda.
Meu amor,
és tanto.

12 julho, 2009

Chocolat Cake

As coisas estão cada vez mais difíceis entre nós, não estão? Primeiro, digo-te para avançares com a tua vida - continua - esquece-a. Depois, quando o fazes e levas a outra a passear, fico desta maneira. A sentir-me traída, ciumenta, trocada. Apetece-me gritar: Eu já cá estava, pira-te.

Hoje voltaste a evitar-me. Portanto, podes ir dar voltas com ela, mas achas-me uma ameaça tão grande que não podes estar a sós comigo. Já tive pesadelos com isto, é verdade. Agora pu-lo por palavras e disse-to: Já entendi que tens medo de te apanhar sozinho comigo, eu não mordo, sabes? Também já não te quero entender, desisti. Se preferes ficar com alguém que te olhe como um resultado de equação e que acha que te compreende, em vez de investires na nossa amizade, que é só isso, mas na qual eu entendia cada uma das tuas incógnitas e dos teus equivalentes e dos teus iguais e das tuas fracções, então fica com ela. Dêm passeios, marquem ruas e lugares e horas do dia como vossos. Só me pergunto: como pudeste? Como pudeste achar graça a uma rapariga oca que queria largar a escola para ser modelo e que é péssima aluna numa escola particular e que se veste como todas as outras e que deve sonhar com discotecas e fama? Como é que nunca viste futuro em nós?

E agora sou eu que me surpreendo: eu sabia, eu sabia, eu sempre soube que eu e tu não íamos dar nunca, não fomos feitos um para o outro, somos difíceis, os dois. Mostras-te a mim, como és. A elas mostras o teu lado bom, o teu lado confiante sem as oscilações e as fugas à normalidade. E é disso que ela gosta, porque é só isso que ela sabe de ti. E, se vocês se juntarem realmente, eu afasto-me. Que lição que tens sido. Que especial que foste. Só consigo podia ter uma conversa assim:

Tu: queres entender-me, mas eu sei que é difícil, e eu dou-te pistas mas tu não entendes.
Eu: não estás é tu a entender, eu NÃO QUERO entender-te, desisti, estou farta.

Só um bolo de chocolate podia aliviar-me do facto de não me ter despedido de ti na Tasca. A nossa Tasca, onde comecei a gostar de ti, onde tivémos tantos momentos, onde me disseste algumas daquelas coisas bonitas onde, para bem ou para mal, me ensinaste a fumar e depois me aconselhaste a não o fazer. A Tasca, que fechou, reabriu hoje. Hoje, e eu estive lá contigo, eu fui para lá contigo. E, quando me vim embora, vinha tão despedaçada, que nem te disse adeus.

Em que é que estamos a cair e,
mais importante,
Será que me importo?

07 julho, 2009

Leva-me a bom porto

Eu olho para a minha fotografia de bebé durante mais tempo do que seria necessário. E concluo: devia ter ficado assim. Devia ter ficado para sempre com uma camisolinha de lã com gola de olhos fechados e expressão incomodada - males de bebé, mais nada. Porque é que o tempo não parou ali? Se tivesse parado eu nunca teria assistido a crises familiares. Nunca teria estudado a minha família e as outras. Nunca me teria decepcionado uma, e outra, e outra, e outra vez com as pessoas que mais amo. Não tenho ilusões sobre o facto de que gostar de alguém é exactamente aceitar-lhe os defeitos. Mas não há ninguém para lidar com os meus males, parecem ser demais até para os outros. As minhas horas são passadas em nada, são um insulto ao meu intelecto que, a mal ou a bem, é melhor do que o que me é pedido. Passo-as a olhar para um computador e a inventar palavras para acrescentar às outras. Quando saio, tenho obrigações que confundo com pequenos prazeres. Gostava de ser menos insegura, até porque gostava de alguém que ficasse ao meu lado, aceitasse todos os meus defeitos - e são tantos que eu me pergunto se eu própria conseguiria entender-me com alguém como eu. De repente as conversas surgem e é a mostrar o meu ponto de vista que sou mais feliz. No instante a seguir, fica-me o sabor agridoce a ser a única. Quem não tem tempo para mim, tem-no para os outros e vou-me reduzindo à minha insignificância. Depois, o meu orgulho próprio, sem chegar à arrogância, diz-me: és melhor do que isso. E eu quero acreditar, quero tanto acreditar que não compreendo como me podem dizer que sou pessimista quando eu passo a vida a projectar, mentalmente, um mundo melhor. E tu, princípe, estás farto de mim? E tu, és como todos os outros? E tu, que pareço não conseguir descartar de papel de meu salvador, amas-me metade do que te amo numa dimensão qualquer? Farias algum sacrifício, alguma cedência, por mim? Não amor, nem tu na tua grandeza te desvias do teu caminho para me vir apanhar, para me pôr de pé, para me levar a bom porto. Nem tu, quando te peço que olhes por mim, tens capacidade ou vontade de o fazer.
Os dias arrastam-se e sou obrigada a tomar decisões. Devia tanto juntar-me às pessoas que gostam realmente de mim, àquelas cujo egoísmo nunca me excluíria de um desses pequenos prazeres tornados obrigações. E força? A mal ou a bem, são esses pequenos prazeres que dão cor à minha vida. Daí que receie tanto deixá-los. Os momentos bons intercalam-se com outros, piores. Não te amo. Digo-me, uma e outra vez. Amo-me a mim. Amo-me a mim que estou sozinha e que não posso contar contigo nem com ninguém. Se ao menos conhecesse alguém com metade da minha consciência e da minha boa vontade... Nunca me custou devolver sorrisos à cara das pessoas, mesmo que tivessem que ser pagos em troca dos meus pequenos prazeres.
Estou cansada de egoísmos, de dores que não saram, de constatações que soam como avisos e que, com o tempo, me obrigo a esquecer para poder viver sobre um chão habitável; que não cheire mal, que não se afunde a cada passo, que não me revele mais egoísmo e mais desconsideração.
De todos os erros que cometo, aprender tarde é sempre o pior. De todos os que cometi, gostar de ti talvez tenha sido o pior: aquele que me catapultou para esta estrada onde os maus momentos e desconfortos se sucedem repetidamente.

Do pior que podia ter feito a mim mesmo, não há nada como estas recaídas que vou tendo e que me roubam a minha vida para a tornar vivida em função de ti.

Sendo o amor o oposto antagónico de ódio,
Odeio-te neste momento, como há meses receava odiar.

05 julho, 2009

Image and video hosting by TinyPic

Mãe.

"All this talk of getting old,
Is getting me down my friend
(...)
'Cause baby ohh,
If heave calls I'm coming too,
Just like you said
You leave my life
I'm better off dead"


The Verve - The Drugs Don't Work

30 junho, 2009

Cartas de papel e tinta

Príncipe,
Quando fores para Itália, dá-me a tua morada por favor. Quero criar-nos uma situação única. Vou escrever-te cartas, pelo meu punho. Vou fazer dessa escrita o momento alto da minha semana. Vou escolher cuidadosamente o selo a enviar, se for possível. Foi fazer com que me conheças como ninguém e, não te conhecesse tão bem, teria ilusões de que responderias a alguma.
Vou fazer com que, nesta geração e no séc. XXI, saibas o que é ter alguém que nos escreve cartas, cartas, cartas, até as juntarmos com elásticos ou cordéis e as transportarmos como nossa bagagem. Vou fazer com que eu saiba o que é escrever a alguém e depender de tantos para te fazer chegar a minha mensagem.
Cartas que começarão com:
Meu querido G....
e que acabarão com,
Com amor,
C.

27 junho, 2009

We belong together


Há cerca de uma semana disse-te que aquela tua sweat era a minha preferida. Sempre a usaste raras vezes, porque é preta e provavelmente também é das tuas preferidas. Disse-te que é a que te fica melhor (e nós, que não discutimos estética)...

Desde aí...

Usaste-a duas vezes quando geralmente a via, talvez, de três em três meses.

Hoje estavas com ela.

E eu, num esforço tremendo para não imaginar coisas nem lhes atribuir significados falsos, obrigo-me a ouvir a chuva lá fora e obrigo-me a recordar que, quando o vocalista da banda de tributo a Pearl Jam desistiu de murmurar "We belong together", e começou a gritar, a saltar, as luzes a acender e a apagar, a bateria a explodir, as guitarras a acompanhar, e ele a insistir:
We, we belong together. We belong together... We belong together...

Apesar das lágrimas, eu ia pensando:
No, we don't. No, we don't. No we don't.

E tu ali ao lado,
e nós que (não) fomos feitos um para o outro.

I wish I was a sailor with someone who waited for me...

I wish I was the verb to trust and never let you down.

Pearl Jam - Wishlist

Vamos ver Hi-five em tributo a Pearl Jam hoje, vem connosco, amor...

22 junho, 2009

Para fazer sentido

amo-te tanto,
que anula todo o resto que era suposto ser suficiente,
e que era suposto fazer sentido.

já me tenho perguntado
Como é que os outros vivem sem ti?

21 junho, 2009

Complicações sem nexo

Na passagem de ano - a segunda que passei sem ti e tendo tido essa oportunidade debaixo da mão - decidi-me pelas minhas melhores amigas, e olha só a confusão que foi. Agora, sabendo que te vais embora em Setembro para Itália, e que só voltas na passagem de ano, e que depois só voltas em Março, e que terei que viver seis meses sem ti a cruzar as ruas, não vou optar por elas. Vou optar por ti e pelos 6 dias maravilhosos que podemos passar, cheios de recantos onde podemos trocar uma palavra só nossa, daquelas que só fazem sentido para mim e para ti e que não temos bem a certeza de não serem embaraçosas, pelo que sorrimos desajeitadamente quando as trocamos. Cheios de minutinhos em que vou poder observar a tua expressão concentrada enquanto argumentas, o brilho no teu olhar de indignação, ironia, sarcasmo, enquanto te justificas. A forma distraída como levas as unhas aos lábios e as róis. E, nestes dois últimos dias, os dois triângulos perfeitos que fazem dos teus lábios os mais bonitos que alguma vez vi.

Bem, mas tu és tudo o que eu já vi de mais bonito... seja em que sentido for, pelo que entrei no campo dos clichés...

Para terminar, só quero que saibas que reparei que, quando mencionavas as datas de partida e chegada a Itália, que quando repetias duas vezes que este país é uma merda e que o sistema lá é melhor, que quando disseste que ainda ficas é por lá...

Desviaste propositadamente o rosto na minha direcção, pelo menos três vezes, para avaliar a minha reacção...

Tu sabes, porque eu já te disse, porque tu já me ouviste dizer a outros esta mesma frase:

«Sentir falta de alguém é a coisa pior que há, é como se, de repente, todas as ruas estivessem vazias...»

E tu sabes que vou morrer de saudades tuas, enterrada nestes becos vazios.

16 junho, 2009

Todo o tempo é pouco, por isso dizemos nunca

Eu e tu, no elevador, meu tudo. Na noite anterior tinha ficado ligeiramente ressentida por nos termos apartado. Foste lá para o teu concerto de gente a bater em latas enquanto eu fui ver tributo a Queen e deixar-me comover pela 'Too Much Love Will Kill You', sabendo que já me matou por causa de ti. E senti a tua falta - as sextas costumam ser nossas. No dia seguinte, nesse mesmo elevador, perguntei-te na minha maneira bruta de sempre:
«Então, aquilo ontem?»
E tu, como é hábito, respondeste com uma pergunta. Perguntaste-me baixo, no teu tom mais intimista e menos defensivo, como se houvesse uma brecha em ti naquele momento:
«Gostavas de ter ido?»
Fui apanhada desprevenida, tanto pelo teu tom cúmplice e neutro (nem defensivo nem agressivo), como pelas implicações da pergunta. Se gostava de ter ido? Em que sentido? No de ver uma banda que não gosto e que tu sabes que não gosto? Ou no sentido de ter estado contigo e com os teus melhores amigos, que foram?

Mas dar parte fraca, eu? Nunca. Escudei-me da minha máscara mais fria e do meu riso mais sarcástico - ah, ah, ah - para te replicar, em autêntica mentira:
«Eu? Realmente, passei a noite inteira a lamuriar-me pelo facto de não ter ido convosco».

Que golpe em ti, que golpe em mim. Tu, que precisas de ser amado, e eu sei-o. Tu, que tens essa necessidade silenciosa de que gostem de ti, de que to digam, de que te façam sentir bem contigo e com o rumo que dás à tua vida (sem nunca, mas nunca o admitires: és demasiado orgulhoso para isso). E eu, a finalmente ouvir-te perguntar-me se tive saudades tuas, ou vossas, seja como for.

Perdes a compostura por um momento. Tinhas contado com o meu amor incondicional, não era? Eu disse-to, olhos nos olhos, e agora retiro tudo, bato em retirada, apago o que te prometi e lembro-te: tu disseste-me para não esperar.

Sim, príncipe inseguro, príncipe cheio de tempo que se dá ao luxo de o perder, tu disseste-me que o amanhã não se sabe, mas eu disse-te que seria cruel da tua parte não incluires um 'nunca' na tua rejeição, caso contrário ficaria à tua espera para sempre.

Não é que o tenhas incluído, com esse teu jeito para a diplomacia, mas eu disse-te que o tinha pressentido. E disse-te:

«Acabou aqui, ponto final, adeus, vou à minha vida, não espero mais por ti, não gosto mais de ti».

Sou tão mentirosa, não sou? A cada vez que me mexo na escuridão tu pressentes-me, sabes que ainda estou aqui, não sabes? E quando gritas para o escuro:

«Estás aí?»
Eu respondo-te, estupidamente:
«Não.»

15 junho, 2009

a vida escolhe por mim

quero dizer alguma coisa, porque escrever é o meu vício. é tanto vício que acabo por escrever o que não quero dizer e a admitir coisas que não quero pensar. paciência, penso, na hora fez sentido e o meu vício tornou-o real. quando não sei que música escolher, o computador escolhe por mim e, acidentalmente, começa a passar a wish you were here, pink floyd. ai, estas músicas que me recordam outros tempos. que me recordam a efemeridade em mim e a continuidade da nossa amizade. a vida escolhe por mim e, enquanto verifico no google se estou a escrever bem "efemeridade", aparece-me um texto qualquer brasileiro que me comove, duma rapariga qualquer doutro lado do mundo a dizer que, no dicionário, "efemeridade" surge como - tempo que vai do nascimento à morte; existência. e eu, que já sabia, penso: é verdade, é verdade. e depois afundo-me e venho ao de cima: eu, primeira pessoa do singular, que tinha mundos nas mãos e passava os dias a pensar em amor, censuro-me e vedo-me assuntos. proibo-me temas. fecho-me portas. não, não, não, digo. vive e não esperes. não leias mais romances lamechas ou lê-os todos, são deliciosamente patéticos. eu penso: tenho uma irmã chamada cláudia - c-l-á-u-d-i-a, e outra chamada a-n-a, que simples, e mais outros dois cujos nomes adoro. e eu, de repente, gosto de gelado de chocolate. de repente até tenho quase vinte anos. de repente, passei meses sem ler um romance lamechas e, subitamente, a vida escolheu que devia de ler um. de repente, a vanessa fica irresponsável e eu tomo responsabilidades por ela - acalmo-a, compreendo-a, aconselho-a a mais irresponsabilidades daquelas que nos fazem felizes: ó garota, pula, voa, cai, mas vive, digo-lhe. e ela segue, e é certo que esfola os joelhos e rimos as duas. mas vanessa, devia ter acrescentado, estou certa que o meu olhar acrescentou; vai acabar mal. eu sou bruxa, infelizmente, e sei que vai acabar mal. sou bruxa em tantos outros sentidos. e esta profissão que escolhi e que promete levar-me a todo o lado e a conhecer toda a gente? que ilusão. quem eu quero conhecer está num barco à deriva no mar e não sabe ou não quer escrever, não quer mandar mensagens. quem eu gostava de esquecer está-me gravado a sangue no corpo, são m, p, i, a, f, que gostava de riscar e não posso, seria imoral e antinatural. o que digo, já nem eu sei. de repente as palavras parecem-me tentadoras e quero usá-las. só agora, às 3h24 da manhã, fazem sentido. devia de escrever um poema como a tal sylvia plath que às 4h da manhã era muito mais produtiva. também eu sou. leio e releio as páginas que escrevi. 500 aqui, 300 ali, tantas outras inacabadas e eu penso: será que algum dia as palavras me levarão a algum lado? talvez o silêncio leve, porque o silêncio é tudo aquilo que não experimentei. talvez seja a solução.

entretanto, a vida que escolheram por mim grita-me aos ouvidos: 'sua estúpida, deita-te, amanhã tens uma frequência a uma cadeira à qual nunca assististe às aulas e que, apesar de ser com consulta, não possuis uma única folha que te possa auxiliar'. e apetece-me reclinar a cabeça para trás na cadeira e rir alto, rir tão alto, se não fosse tão tarde e não me chamassem louca, e dizer:

'vai-te foder, a minha vida escolho-a eu, e só a ela deixo escolher por mim. ainda hei de ler páginas de um jornal qualquer gratuito antes de me ir deitar. ainda hei de fazer zapping nos canais todos da televisão, ainda hei de ficar a olhar para o tecto e ainda hei de abrir o meu diário e escrever lá uma choraminguisse qualquer. ainda hei de ser eu antes de acatar a tua ordem e me ir deitar. ouviste? ainda hei de ser eu antes de me ir deitar'

13 junho, 2009

seis meses, são muitas mais semanas, dias e horas

tu vais-te embora. tu vais-te embora. tu vais-te embora e eu vou ter que me mentalizar e que me levantar da cama todos os dias durante seis meses contigo fora do país. tu vais-te embora e eu vou ter que viver, durante seis meses, sem sentir o teu cheiro.

tu vais-te embora, e eu vou ter que ficar aqui, sem ti, com as ruas vazias e as noites mais longas.

como eu luto contra isto...
e como isto me ganha sempre.

12 junho, 2009

Just as sure as not at all

I'm just the pieces of the man I used to be
Too many bitter tears are raining down on me
I'm far away from home
And I've been facing this alone
For much too long
I feel like no-one ever told the truth to me
About growing up and what a struggle it would be
In my tangled state of mind
I've been looking back to find
Where I went wrong
Too much love will kill you
If you can't make up your mind
Torn between the lover
And the love you leave behind
You're headed for disaster
'cos you never read the signs
Too much love will kill you
Every time
I'm just the shadow of the man I used to be
And it seems like there's no way out of this for me
I used to bring you sunshine
Now all I ever do is bring you down
How would it be if you were standing in my shoes
Can't you see that it's impossible to choose
No there's no making sense of it
Every way I go I'm bound to lose
Too much love will kill you
Just as sure as none at all
It'll drain the power that's in you
Make you plead and scream and crawl
And the pain will make you crazy
You're the victim of your crime
Too much love will kill you
Every time
Too much love will kill you
It'll make your life a lie
Yes, too much love will kill you
And you won't understand why
You'd give your life, you'd sell your soul
But here it comes again
Too much love will kill you
In the end...
In the end.

Too Much Love Will Kill You - Queen

11 junho, 2009

Momentâneo

Tenho medo de ficar melancólica de novo - eu tinha prometido que não gostava mais de ti. Mas ainda ontem, eu, que não bebo, bebi sozinha com aquela minha grande amiga. Só com a luz do candeeiro da sala aceso, e o gatinho dela aos pinotes por cima das almofadas do sofá, abracei-me, como se me abraçasses, e deixei-me dançar sozinha ao ritmo da Celos - Gotan Project. E murmurava coisas sobre ti, e sabia-o, e queria calá-lo. Porque, conscientemente, calo-te sempre dentro de mim. Mas, se a consciência me foge, se estou deitada e prestes a adormecer, roubas-me sempre o último pensamento e eu não quero. Príncipe, eu não quero que sejas o dono do meu último pensamento.


10 junho, 2009

29 de Dezembro de 2008

Depois do Natal, parece sempre que o ano está acabado. 2008 foi um ano verde, foi um ano de esperança. 2009 é, à partida, um ano negro. Eu tinha-te dito que ficava em casa, e fico. Também tinha dito que não te falava mais, mas o meu interior ainda fala contigo, a fingir.
Agora sei que nunca hás-de ter comigo as conversas que tive sozinha, através destas páginas [é o meu diário]. Agora sei que nunca foste feito para mim. E agora, quando oiço aquela música, a “Ache”, quando ele diz “Have I told you I ache for you?”, sei que sim. Quando me pergunto se fiz tudo o que podia ter feito, tudo não fiz, porque tudo é uma panóplia de coisas que não poderia fazer por diversos motivos, mas sim, fiz tudo o que estava disposta a fazer.
G, continuo desinteressada da maioria das coisas. Gosto de livros, gosto até de poesia. Escrever tem-me fugido, não sei escrever, tudo o que me sai é tosco, medíocre perto da fluidez com que às vezes escrevia. Perder-te, como perdi ao ter decidido pôr um ponto final na história que nunca o foi, roubou-me um tapete enorme debaixo dos pés. Não pensei que esse tapete fosse tão grande. De repente, já não me vejo com filhos, porque os meus filhos seriam teus. Receio que se fizesse agora o jogo da agulha, o objecto pendesse sobre a minha mão por um instante e, em seguida, parasse abruptamente - nenhum. Nem me vejo casada, como às vezes via. Vejo-me sozinha, a fumar à porta de casa e à espera de alguém que não conheço mas que me está pré-destinado e, momentaneamente, seremos um para o outro. Não para sempre – já não visualizo para sempres – tu serias o primeiro e o último, agora isso já não faz sentido. Vejo-me em Itália, agora sei que o meu futuro não é, definitivamente, em Portugal. O que tenho de fazer é estudar e largar este país. Agora sei que não há nada aqui para mim. Ninguém para me salvar, quando estou sozinha no pombal do meu quintal a fumar, a saber que o mundo podia parar para mim, mas continuava para todos os outros.

04 junho, 2009

Príncipe

Eu pensava que te queria só como marido, vá, é esta a palavra que se usa. Para a vida. Mas a verdade é que te queria de tantas outras formas, e só agora o soube. Como é bom podermos ser sinceros um com o outro, partilhar, como é bom para mim deixar contigo coisas que até aqui só a mim pertenciam, descobrir-me nos teus olhos e aprender contigo. Sei que também aprendes comigo e é gratificante até à exaustão ver-te fazer algo da forma como te sugeri, como te ensinei. O brilho da compreensão nos teus olhos ou atitudes não tem preço. E eu que só te queria daquela forma, agora aprendo que não poderia ter vivido sem ti e ser feliz. Foi um esforço grande que escolhi passar só para te poder dizer que... de tão grande que foi, não podia desaparecer completamente.

E agora dizem-me que queres ter uma filha chamada Maria, é suficiente para eu sorrir, mas não para me trazer lágrimas aos olhos. Eu também quero uma filha chamada Maria, é provável que o saibas, por isso nunca o dirás à minha frente. A minha Maria seria em honra da tua mãe, assim como a tua. Mas isto já não é suficiente para me virar a cabeça. Agora, em vez de uma Maria a honrar a tua mãe, meu amor, haverão duas Marias: a tua, e a minha com alguém que eu ame muito. E nós estaremos lado a lado, uma madrinha é uma segunda mãe. Se não pude ser a primeira mãe dos teus filhos, terei todo o prazer em ser a segunda.

Amo-te tanto...

01 junho, 2009

Pedro Procura Inês


Em relação a este Pedro Procura Inês,

só posso dizer que nem todos os homens amam assim e que, amando,
se imortalizam e a ela.

Apesar disso, os corações estão tão mudados que receio que nem uma prova de amor como esta tenha o sucesso garantido.

Há tantas coisas no caminho...
Tantos caminhos que não ponderámos...
Tantos obstáculos que ignorámos...

Ainda assim, o amor é grande, a vontade é maior,
consegue-se qualquer coisa.

Admiro um gesto deste tamanho,
e admiro principalmente este Pedro por não desistir.

29 maio, 2009

A Mão

Ainda ontem eu estava a sentir-me em baixo - perdida, desapontada, deslocada, incompreendida - e estávamos os dois sozinhos no banco traseiro de um carro. Puxei a tua mão para o meu colo e apertei-a; precisava tanto dela. Deixaste durante alguns instantes, até te assustares e dizeres, do teu jeito, que eu estava doida, todos ouviram, todos se devem ter concentrado em nós e eu perdi aquele momentinho no qual me podias ter salvo o dia. Hoje apercebi-me que dificilmente me estragas um dia, mas tens grandes chances de mos poder salvar. Ainda tentei que entendesses, ainda te apertei a mão, ainda tentei recuperá-la, ainda tentei que não pensasses o que, entre outras coisas, podes ter pensado, e larguei. Não posso pedir que entendas o que nem eu sei explicar, por isso, entendo-te eu.

Em seguida discutimos isso, como habitualmente, sobre o facto de eu viver na lua e tu na terra, de não quereres que eu te tente mudar e eu a dizer-te que talvez um dia aceites confiar em alguém que te peça algo disparatado, sem explicações, e o faças de olhos vendados, e acredites, e saibas que, sendo para seu bem, e sabendo que a própria pessoa se preocupa com o teu bem, não sairás magoado, e a pessoa sairá renovada. Disse-te que ontem precisava de ti ali, naquele momento, e não soubeste ser porque as tuas raízes não saem da terra.

Hoje, cumprimentaste-me e notaste que estava triste - podia tentar dizer que me apertaste a mão por mais do que seria habitual, mas não quero arriscar-me a fugir à realidade novamente. O que importa foi a despedida: Eu não estava exactamente agradável, tratei-te de forma rude, virei-te de costas para mim e disse "hoje não te posso nem ver". Ainda assim...

Ainda assim, quando me decidi a estender-te a mão para nos despedirmos,
só eu e tu rodeados de costas de conhecidos,

Pegaste-lhe,
levaste-a aos lábios,
e beijaste-a.

Nunca vamos ter uma relação de apaixonados, de ele e ela, de "os tais". Mas, mesmo sem isso, posso abraçar-te, podes beijar-me a mão, posso beijar-te o rosto, podemos falar de tudo - ou quase tudo.

É só por isto que te amo.
Por encerrares os assuntos,
fechando o número mínimo de portas.

Ainda temos tantas abertas...
Mas hoje, só consigo pensar

Em como finalmente me surpreendeste,
e em como és grande.

24 maio, 2009

A Bela e o Monstro


Como amo esta história:
Amar alguém só pelo seu interior, Só pelas afinidades, Só pela companhia, Sem olhar a mais nada.


Tale as old as time, True as it can be, Barely even friends, Than somebody bends, Unexpectedly, Just a little change, Small, to say the least, Both a little scared, Neither one prepared, Beauty and the Beast,, Ever just the same Ever a surprise, Ever as before, Ever just as sure, As the sun will arise, Tale as old as time, Tune as old as song, Bittersweet and strange, Finding you can change, Learning you were wrong, Certain as the sun, Rising in the east, Tale as old as time, Song as old as rhyme, Beauty and the beast

Beauty & the Beast - Celine Dion